segunda-feira, dezembro 29, 2003

Ai

Descobri que os chineses utilizam o termo "ai" para simbolizar amor ou afeição. Só me apetece dizer, ai ai isto não é um bom prenúncio!

terça-feira, dezembro 23, 2003

Okey

E são os mesmos desejos de sempre e os de todos, mesmo assim: que passem esta época bem (com cuidado ao volante que não vale a pena querer ver o menino Jesus de perto...)

Bom Natal

À preguiçoso e poupado: Que este ano o Pai Natal deixe um Ano Novo Excelente como prenda para todos vocês. :)

sábado, dezembro 20, 2003

...

Não há acidentalmente nada a dizer
... só lamentar um prazer efémero

...

É tudo tão sem nexo e tu não o mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Toujours vencu

Simplesmente horrível. O sentimento de derrota que nos assola face ao inevitável da doença. Não se podem glorificar os predicados, se o espírito está submetido ao pulsar congestionate do sangue.

Estória de um mestre

Por ventura foi nesse espaço de tempo que o mestre se afogueou perante a aldeia recoberta de neve.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Changes

A sensação de ondas que nos trespassam o ventre quando temos decisões importantes para tomar, podem ser viciantes. Espero não ficar dependente, mas a verdade é que já quase só funciono sob pressão. Se as coisas acalmam, fico sem saber como agir. Porque é que nos transformamos nestas pilhas de nervos frenéticas?
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.

As tascas

Em honra de quem chegou até nós via "Bebia porque queria afogar as mágoas" voltamos a publicar esta pequena história.

Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.

Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.

Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.

Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.

Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.

Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.

Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.

Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.

Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.

Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.

Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.

Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?

Cheio

Reparo agora que enches a minha vida. Já não tenho espaço na caixa postal do telemóvel, tenho o arquivo do mail completo com o que me envias. Não gosto de me desfazer de nada que te diga respeito. Parece que estaria a deitar fora um pouco de ti. O amor é assim, egoista.

Sensação Nitida

"O amor tem muitas sortes.

A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.

A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."

in "Nitida", um romance por acabar

Pensamento de um outro dia

Há tantas coisas que desconhecemos. E ainda temos coragem de acreditar no que julgamos conhecer.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

O Ciume

O ciúme. O ciúme, diz-se, é uma prova de amor. O ciúme é a experiência da perda. Por isso, diz-se do ciúme que ele é uma prova de amor. Que é um reconhecimento daquilo que possuímos. O reconhecimento da existência de um amor. A prova. É a prova de necessidade de exclusão de qualquer outra identidade numa relação. É a exaltação de uma exclusividade. Por isso, ele é uma experiência de perda. É uma vez mais uma experiência motivada pelo medo. Quantas relações já se afundaram por causa desse medo de perda? Quantas vezes esse sentimento de possessão, de exclusividade, foi tão exarcebadamente fictício que arruinou relações estáveis? Quem é alvo do ciúme, da pessoa enciumada, é alvo da desconfiança. O ciúme, em si, não é corrosivo como um veneno (ou não é ele uma prova de amor?), mas a desconfiança que ele provoca, que ele imiscui na relação é algo verdadeiramente corrosivo. Ou o amor, não é ele também feito de confiança?".

terça-feira, dezembro 16, 2003

Encruzilhada

Qual o melhor caminho a seguir?

Narcisismos

Nesta quadra sobressalta o repentino cariz bom samaritano que pulula em todas as catedrais de consumo.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.

Triste

Nem a alegria matinal de ver o Enzo mais animado (a cirurgia correu bem, mas dado o peso dele, a recuperação vai ser estremamente lenta...), consegue afastar a aura de tristeza que me sorve. O Natal nem sempre é uma época de alegria. Não quando o celebramos mais sós. Há vazios que não se podem preencher.

Esquartejar

Num movimento brusco
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.

Mil e uma cores,
dançam dentro.

O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.

Voam doces cheiros
em sonhos vistos.

Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.

Suave toque em mãos
que nunca recusam.

Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.

Agreste paladar,
que se vê sucumbir.

Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.

...

Como sabes?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?

...

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Sometimes

Aguardar que as situações aconteçam nunca foi o meu forte. Perfiro um golpe forte e seco que me derrube a estar cambaleante à espera da queda. Não me dou bem com espectativas.

Ao Porto de ti.13

maio parece querer acabar com a utopia. as palavras comidas no seu da boca, secam. os dentes sibilam uma dor branca, são corrupios de texto debaixo da frincha da porta. não tenho para onde ir. jorram palavras vermelhas na fonte do amanhã a ponto de formarem um rio de borboletas ainda presas no casulo do sentir. trigésimo segundo dia do mês de maio, já partiu o dia que sucede à mesma noite. as palavras fazem cócegas na língua do amor. saiem finalmente as borboletas no oco da boca voando como pétalas arrancadas à flor.

Ao Porto de ti.12

Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que flutua ao vento e arranha as braçadeiras lassas do meu coração. Procuro a verdade no tapete de seixos maduros; por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou e o nevoeiro é um tear onde se tece a pele: o embrulho esfarrapado das veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo: para ti, ou qualquer outra coisa sem guarida

Ao Porto de Ti.11

Nas nuvens, no húmido do ar, um sol torrado feito brasão da angústia. Nas nuvens, permanece o grão de gelo da loucura sem a forma disforme do arvoredo. Danço na folia do vento proibido enquanto o mar salva-me outra vez pela manhã. De onda em onda se repete o mandamento. A chuva tilinta nos canos do céu e eu no ralo, no redemoinho que esvai o sonho.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Acqua

Olhar. Sentir. Estranha a sensação que ficamos quando lembramos os melhores mergulhos da nossa vida. O Altíssimo encontra-se também guardado na nossa memória, nas recordações estéticas.

Descobertas

Quando não tenho um papel para apontar uma frase que me surja na cabeça, utilizo o telemóvel para a guardar. Claro que muitas das vezes nunca mais me lembro de as ir ver e vão ficando por ali mesmo por tempos infindos. Desta vez descobri esta: "O mundo é um destino cor de rosa suspenso nas brumas do teu sentir". Isto só pode ter sido escrito numa daquelas noites de desvario que só terminam pela manhã. Argggg!!!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Un'altra volta

Estou espalmada. Sem forças. Há alturas em que, por muito que desejemos, não conseguimos reagir. Estou assim. Neste limbo de quem ainda não percebeu a realidade em toda a sua dimensão. Faço uma pausa. Tento focar toda a situação. Continuo sem perceber.

Metter sotto

Tiro uns minutinhos para agradecer todo o cuidado e preocupação demonstrada na busca do Enzo.
Os esforços não foram em vão. Foi encontrado, encontra-se de momento internado num veterinário, vítima de atropelo. Uma bacia partida é o quadro clínico mais grave.
De qualquer forma não posso deixar de expressar a minha alegria pelas constantes demostrações de apoio recebidas.
É bom saber que tantos se preocupam.

Proximidade

Às vezes queremos encurtar distâncias com as pessoas. Queremos ser próximos. Podemos até querer ser intimos. Chegamos mesmo a manifestar as nossas intenções em palavras. Às vezes, muitas vezes, a outra parte não correponde, e nós sentimos como injutiças as outras pessoas. Sentimos isso muitas vezes, como se fossemos uma parte rejeitada do universo. Quando sentimos esse desejo, esse desejo de estar mais próximo do outro, esquecemos tanta vez que também o outro está longe de nós, que somos ambos distantes e que só o desejo não basta para preencher esse espaço que fica escuro e enevoado de permeio. O nosso desejo não deve destruir o espaço e roubar a distância de um segundo ao outro. Querer ser próximo de alguém, desejar alguém, é esse romance de nos irmos aproximando. Esse pode ser um sentido para a vida. Obrigado pela lição.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Desapareceu

Ok, pode não ser tão famoso como um cão desaparecido um dia na Lapa mas é-nos muito mais querido. Desapareceu na zona de Cristo Rei, perto da Avenida Marechal Gomes da Costa, Porto. Pesa 65 kgs de ternura apesar do aspecto imponente de um Mastim Napolitano. Quem o achar que não fique todo babado de o ter. A recompensa é a melhor de sempre, o nosso eterno agradecimento. Dá-se pelo nome de Enzo, mas podem trata-lo por Enzini ou qualquer outra coisa afectuosa. Desde já agradecidos.



terça-feira, dezembro 09, 2003

A escrita

No blog Os Espelhos Velados, um dos meus homónimos que leio com a mesma frequência em que há posts ;), pergunta-se sobre a existência da escrita: "onde estamos quando não escrevemos?". Eu por mim estou a divertir-me, desenganem-se quem julga pelos textos que escrevo que a vida é só um estado de sofrimento, a escrita sim. A escrita é um grito da alma, um bater do coração que se quer fazer ouvir. "Escrever é não querer morrer"*.

*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.

Google Search

Há muito que não verificava de onde porvinham os que até aqui chegam, desta vez um visitante chegou por "simpatias afastar amantes". Com tantos textos de amantes afastados, só podem vir enganados.

A Razão do Poeta

à C.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.

Embuste

Muito se fala da antipatia dos Espanhóis para com os Portugueses. Este fim de semana confirmámos em absoluto que este embuste só pode vir dos velhos do Restelo que ainda pululam por cá. Com simpatia e profissionalismo fomos atendidos por todo o lado. A civilidade é um sinal de progresso, sem dúvida.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Escorial

Neste prenuncio de visita aos nuestros hermanos (eu digo sempre primos...), lembro uma das mais deliciosas e impressionantes incursões, o Escorial com o imponente e dramático Vale dos Caídos. Aí temos uma perfeita noção da grandeza da beleza e do sacrificio para a alcançar.

Y se tu no estas?

Onde estoy yo?

Trocadilhos

Ontem, em conversa com uma rapariga que acabara de conhecer a determinada altura ela pergunta-me se me pode fazer uma pergunta indiscreta, eu respondo-lhe que sim, que pode, que na realidade até gosto que me ponham entre a espada e a parede. Ao que ela me contesta com um "relativamente a quê?". Eu só me perguntei: será que ela lê blogs?!

Xacobeo

Numa viagem de aparente peregrinação, lembro que as nossas missivas apostólicas nem sempre são bem sucedidas. Uma oferenda feita, em tempos idos, ao santo casamenteiro com uma das antigas moedas de cinco "duros" (daquelas que tinham um buraco no meio), serviu como condutor para uma estória de amor de fim infeliz. O que faz lembrar que é sempre necessário o máximo de excelência, mesmo nas petições menores.

Odisseia: a um ou outro amor não consagrado

I
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta

II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem

III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura

IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários

V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava

VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste

VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão

VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista

IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu

X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor

XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor

XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento

XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada

XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Le silence de la mer

A aparente calma faz-me sempre desconfiar. Quanto mais sossegadas são as pessoas, mais tumultuosa lhes adivinho a alma.

terça-feira, dezembro 02, 2003

Dimenticare

Será de esquecer o que se diz no pico da fúria? Ou não será este o momento da verdade, em que estamos mais próximos da nossa verdadeira natureza?

Senses

On skin relives,
of silky feellings
I've found your touch.
Warm tender kisses
promised the moon.
In rage stormy words
that ravished the dreams.
Sand castles built
in cotton clouds,
will provide hostage
to the pilgrim soul.
Tides of fury crashing
the tenderness
of sweet words
whispered.
I stand still, waiting
for your redemption.

Ao Porto de ti.07

fui passear pela tarde. apeteceu-me. vi flores bonitas mas não as peguei por ser proibido.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.

Ao Porto de ti.06

vem. o amor existe eu sei. já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos nós um do outro ou mesmo do mundo?
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.

Regresso

É sempre bom voltar a casa e ver que no correio, sim aquela coisa tradicional feita de comunocação em papel, e ver que temos um bilhete que diz "Esta cidade não é a mesma sem ti" mesmo que não diga mais nada nem venha identificado. Apesar de gostar do contéudo da mensagem não gosto de mensagens escondidas na máscara do anonimato. Espero que seja só uma questão de suspense, é que gosto de pessoas que dão a cara e se assumem, sem jogos podres ou mentiras.

sexta-feira, novembro 28, 2003

They've taken us over!

Damn! Na hora que escrevo este post, o blog está tomado por forças externas (ainda nem vi se inimigas...).
Enfim, aguardamos a cavalaria (aka - Shinho)!

Down the road

Uma vez mais o blog encerra para fim de semana. Desta feita desloca-se para a capital. Have fun wherever you are!

quinta-feira, novembro 27, 2003

Direito ao ultraje

Em resposta ao comentário e ao post no seu blog, quero somente lembrar ao Manhoso, que eu não pretendo culpabilizar os jornalistas por uma situação cuja conclusão sai notoriamente do seu alcance. A vitória de Valencia não foi consequência das notícias apresentadas sobre a situação de Portugal. Quero apenas lembrar que a qualidade jornalística já viu melhores dias neste país. Quando vemos os jornalistas portugueses em Valencia a pressionarem os pescadores para se revoltarem com a possibilidade de terem, como os colegas portugueses, de ser realojados, que me desculpem, mas dá-me nauseias.
A resposta dos pescadores espanhóis foi sempre calma (perante o normal entusiasmo infanto-debilóide dos jornalistas pátrios) e conclusiva : "Se é para o bem de Espanha, acho bem." Não me interpretem mal, eu penso que todos temos direito à dignidade e ao trabalho. Mas temos de ter em atenção que as atitudes que tomamos e a forma como apresentamos as notícias (e acho que a generalidade actual, se baseia no trash-news), vai influenciar tanto a imagem que temos de nós como a imagem que têm de nós. É que notícias em prime-time dadas com alegre espalhafato como se faz de momento (e friso isto), não contribuem de forma alguma para a elevação do espírito nacional. Eu por exemplo sinto-me incapaz de ver um noticiário nacional na televisão, e bem tento todos os dias. É só fazer um zapping pelos noticiários dos outros países para se ver a diferença. Eu tenho o maior respeito por pescadores (ao contrário da maior parte da população, eu já estive numa traineira e sempre tive contacto e amizades com pescadores), por isso mesmo acho que eles só tinham a ganhar, como todos nós, com a realização da prova em Portugal. Muito mais fica por dizer, mas o exílio de tanto trabalho assim obriga.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Ultraje

Deixo este meu exilio somente para um pequeno apontamento, espero que a maravilhosa classe jornalística esteja feliz com a realização da "America's Cup" em Valencia... É, os "coitados" dos 30 pescadores vão sofrer muito, pena que não pensem nos 1000 novos empregos que se poderiam ter ganho... Vale mais a "noticia" do que a dignidade nacional.

terça-feira, novembro 25, 2003

Ao Porto de Ti.05

Faz frio. Vejo-te andar na rua cinco andares abaixo, aprecio o teu andar. Sou um voyeur que me aqueço no teu corpo... Duras pouco na paisagem mas eu segredo-te que ainda aqui estás.

Ao Porto de ti.04

Faz tempo que procuro sangue novo na lua mas nem todos os dias o sol nasce nas palavras. Raros são os dias em que a lua sonha mesmo que me agrade que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. O tempo arrasta-se na baba do caracol, o tempo não sabe nada do que está para trás; o passado é apenas grão posto a ser desfeito na mó do teu coração.

Ao Porto de Ti.03

Não tinha necessidade disto, podia chorar com a facilidade de uma lágrima só mas o coração esvai-se na fadiga das palavras e é só um sentir desencontrado que me prende às entrelinhas donde suspendem páginas cor de rosa de sonhos desfeitos.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Ao Porto de ti. 02

Agarra-me devagar, eu vou cair. São os teus abraços que me empurram e as mãos lassas que me seguram? Estou enganado e não menos perdido, é a loucura que se esvai nos poros da alma. Sinto-me correr longe de mim, como a fuga às lágrimas que escondi nas núvens. O pé na poça, na poça escavada na estrada. A lama escorre, uns quantos grãos de terra sujos do medo. Quase sufoco no arfar do pré-choro. São os olhos que se escapam da sua orbita no ponto geocêntrico dado à fuga. Podes dizer. De qualquer maneira vou morrer.

Ao Porto de ti. 01

Já quase dentro dos teus olhos o pincel da noite fez a traço negro uma lágrima. São os teus olhos de fumo o espesso nevoeiro da minha alma, e o teu sorriso remexido na espuma alva a lama fofa do meu desespero. Ergue-se o dia por uma pitada de vento, a aragem desfaz a areia no teu corpo, esse molde imperfeito dos meus sonhos. Orgulho-me de te sentir na borda esquerda da vida, no convés torto aonde baloiça o mar, aonde cai o crepúsculo na corrida com as estrelas. Não faço desejos de ter ter, outra vez. A noite adormece sem sonhos.

Dantes

Lembro-me de quando eu era um bloguista mais assíduo e diariamente escrevia posts. Bem, as férias vieram e uma dose extra de trabalho e uma fase menos literária foram-me deixando menos activo aqui na Espada Relativa. Lembro-me de que quando nos ausentávamos logo diziámos que iriámos estar ausentes. Bem, esta semana vou estar ausente e impossibilitado de escrevinhar qualquer coisa. Pode ser que, depois desta avalanche de trabalho que culmina nesta semana, Dezembro traga uma nova aragem e uma nova assiduidade. Quem sabe.

sexta-feira, novembro 21, 2003

Redenção

Está largamente incompreendida a capacidade redentora de um "plastron". Muitas vezes a besta interior só é domada após uns constantes socos.

Leve, levemente...

Ou como a imprensa vem direccionando o sentido da nossa visão da realidade.

quarta-feira, novembro 19, 2003

Nonsense

Pergunto ao empregado do restaurante oriental :
- Tem gambas em ananás?
Ele olha sobranceiro para mim e responde irónico no seu melhor sotaque:
- Não, mas se quiser pode ir até à cozinha explicar como se faz cozinha chinesa...
Acho que fiquei mais corada que os pagodes da decoração. Nem tive coragem de explicar que pensava tratar-se de um prato tailandês.

Cumpleaños feliz!

Em dias assim é o que se pode desejar e em duplicado no dia de hoje! Espero que passem um excelente dia. Gosto deste desejo secreto, uma vez que a quem as felicitações são dirigidas, jamais irão passar os olhos por este blog!

terça-feira, novembro 18, 2003

Radicalismos

Tendo uma visão particular em determinados assuntos, vejo que os radicalismos que suportam as mesmas causas que eu subscrevo me colocam em rota de colisão com esses mesmos radicais. Senão vejamos, não compreendo as acções dos activistas "pro-choice", no entanto não sou favorável à legalização indescriminada do aborto. Abomino os anti-tabagistas, mas creio que os fumadores devem respeito a todos (e vice versa...). Sou uma fervorosa adepta do respeito que os animais merecem, mas arrepio caminho se me vejo perante a Liga Protectora.
Defendo que temos que preservar e resguardar o meio ambiente, e o Green Peace causa-me calafrios.
É, penso que a maior parte destes movimentos consegue adeptos incondicionais para as suas fileiras, mas perde parte importante de seguidores pela visão unilateral que preconizam.

Límpido despertar

Entre o aconchego morno da cama, abrem-se os olhos para um dia brilhante, claro e frio. Saímos de casa com o eucalipto fresco a chocar-nos na pele, nos tons que lembram menta quando inspiramos. Parece sempre que vão correr bem, os dias assim translúcidos. Lembramos os dias de escola, quando no nosso pequeno universo pensávamos que finalmente íamos brincar livres no recreio, sem a clausura da chuva.
Pensamos como éramos felizes e despreocupados. Mas é engano. Recordo que estava muitas vezes angustiada. Crescer custa. E perceber a vida em todas as suas vertentes e condicionalismos sempre me pareceu um grande desafio. Por isso agradeço a ajuda que tive. Da família. De ti.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Mimo

Nada como a debilidade física para fazermos valer a nossa condição da velha infância. Quem pode recusar todas as vontades a uns olhos febris?

sexta-feira, novembro 14, 2003

Nebuloso

Em acordes que nos estilhaçam a alma, ouvimos músicas que nos estão gravadas na memória com um tendão para as situações vividas. De cada vez que as ouvimos, algo mexe dentro de nós.

Sollozos

Não há nada mais triste do que ter a alma aos soluços.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Circo

Primeiro pensei que o amor era feito de uma luta transparente mas com o respirar confuso e sofrido do passar dos dias a aliança que unia as relações ficava baça e descorada, ou mesmo com a brancura de uma folha de papel sem palavras. Essa altura rasante do amor como uma planície de distâncias visíveis que só serviam para ocultar o querer e o amar; todo ele feito de conquista e engano e jogo, e de muito querer mas pouco querer de amor. A vida foi-se escorrendo entre o coador do tempo e filtrava-se entre as dores que não diluíam, nem facilmente as mais pequenas que se mantinham à tona nem as grandes que caiam como pedras que rolavam montanha abaixo. Era o precipício de uma zanga pelos amantes escarpada e, entre essas encostas profundas de iras sombrias, o vale fundia-se cada vez mais marcando linhas e linhas nessa curva de desnível. de afinidades já esquecidas de um amor falseado.

Mas no segundo que te conheci...

Foi como tornar pequenas todas as serras e altas montanhas, no alto desse estado de espírito tremendo de um frio feito de temor e imobilidade, de uma ânsia forte como uma âncora, aportava-me ao teu olhar doce e, encostado a esse porto, esse leito calmo da esperança do teu desejo o meu beijo imaginável desprendia-se do meu silêncio vogando num ar de olhares fugidios e quereres escondidos de encontro a uma boca imaginada, grande fofa e quente; um algodão doce numa feira de fantasia de um circo em nosso redor capaz de nos fazer rir, de nos fazer rir o risco de um trapézio sem dor nem rede. E nós, palhaços dessa covardia que é falar com um olhar e afastar da boca a palavra que faz do querer a verdade; a verdade do querer e de isso acontecer.

E mesmo eu fazendo-te sorrir do nosso espectáculo; eu, de lugar em lugar, eu a mostrar que usavas a máscara de tinta branca e mimo de graça, e lábios vermelhos de engano, e o nariz redondo e grande, e a cabeleira laranja do pôr do sol do final da nossa caminhada. Nessa esplanada de um ar livre que nos prendeu não soubemos retirar a máscara que nos fazia sorrir, ainda que incomodados por esse sorrir do querer e do desejo. Até os palhaços que nós éramos sem percebermos que o espectáculo feito de máscaras de ocultar em vez de falarem o desejo que se calava nos nossos olhos de amar, e ficava sem poder respirar escondido na máscara triste e sem magia da covardia.

Estridente

Nada pior do que ser assaltada por uma galopante enxaqueca. É de ficar desarmada.

Deliruim tremens

É a patologia que sofro quando reparo na forma como as notícias são feitas neste país.

Correr

O tempo que se encurta será mesmo fruto de escassez, ou não será mera consequência directa de procurarmos no exterior a sua passagem em vez de nos voltarmos para nós? A dialéctica interna despoleta incompatibilidades com a vivência moderna.

Em branco

Depois das tentativas frustradas para o sono chegar, acendeu a luz e ficou a olhar para o tecto. Ainda ouvia as vozes que ecoavam na memória. Eram aquelas vozes distantes, que nos trazem as recordações de momentos vividos, mas que por uma estranha razão não compreendemos. Quanto mais se esforçava para ouvir o que diziam as vozes, mais distantes elas pareciam estar.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.

quarta-feira, novembro 12, 2003

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Nada. É o que eu sinto hoje.

Iceberg (a S.)

Se eu tivesse uma alma forte que te içasse mostrava ao mundo o iceberg da tua beleza.

Magia

O mágico Luis de Matos propôs-se a adivinhar o resultado do jogo particular entre o FC Porto e o Barcelona para a inauguração do Estádio do Dragão. Não seria nada mágico que ele conseguisse adivinhar os resultados dos próximos jogos da Superliga.

terça-feira, novembro 11, 2003

Estratagema

Já com dois cães vejo-me agora mãe de acolhimento de uma Serra da Estrela de 8 semanas. A incompatibilidade de raças fica provada. Nenhum dos cães se suporta e tenho de recorrer a artifícios vários para conseguir tirar a cachorrinha de casa nas suas visitas ao veterinário. É espantosa a ira de um mastim no auge do ciúme (principalmente quando provido de vantagem física em relação a mim...).

Montanha

A relação com o divino sai sempre estracinhada quando vivemos na projecção do nosso bem em função dos demais. Quem é que pode dizer que o altruísmo não é uma forma pura de gozo individual?

Vale

Procuramos atingir o mínimo de satisfação pessoal até no mais absurdo que fazemos. Só assim se pode compreender os prasenteiros passeios de fim de semana nos centros comerciais.

Planície

Estamos quietos e sossegados no nosso cantinho quando o mundo se despeja sobre nós na forma mais bárbara, temos de seguir o designio diário da labuta.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Non-stop

Ontem, na viagem de Lisboa -Porto, considerções várias assaltaram-me a mente sobre o futuro destas viagens já sob os auspícios do AVE (não utilizo a designação francesa). Qual não foi a minha surpresa ao verificar que alguém que muito admiro já tinha feito um texto sobre o assunto! Imperdivel.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Interregno

Viver no constante abafo das certezas, engolindo as verdades escondidas. Momentos de loucura em que podemos libertar o que nos corrói. A pureza dos sentimentos camuflados em simpatias várias. Extrapolar razões sem sentido. Suspirar por alma. Respirar por sentir. A verdade é que somos uma pálida sombra do que gostariamos de ser.

quinta-feira, novembro 06, 2003

Meridianos

Está já traçado o essencial da nossa existência ou teremos a hipótese da redenção?

Paralelos

Em caminhos semelhantes que nunca se tocam. Somos assim tão distintos ou tão iguais?

terça-feira, novembro 04, 2003

Sombras

raras sombras sobrevoaram o meu quarto com tão vasta e intensa penumbra, deixando acre o paladar apagado no céu da boca. eu, já esquecido do trago húmido do teu último beijo com a minha mão estendida, os olhos abertos à torneira do choro. entretendo-me nesse espaço oco, percorrendo o fim da cama alugada onde só uma saudade porosa o poderia preencher e um grilo cantor trazia lembranças fantasmas com os seus delírios translúcidos. o calor doía só de respirar uma ausência
ainda que mais de um verão depois.

Rodopio

Olho em todas as direcções, num movimento rápido e zonzo, de cores fugidias. Não estás. Paro. Penso com mais calma. Continua a vertigem do tempo que passa num ápice. Espero. Rasgos de vermelho ainda me piscam na memória. Amarelo fugaz. Sigo o instinto que me direcciona para ti. Tento alcançar-te, toco levemente na tua roupa, quase que te agarro. Segues o teu caminho, não me sentes, não me vês.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Nuvens

Nunca tinha percebido que eras uma nuvem, nem mesmo quando o meu coração pingava, sim, um gotejar constante que fazia eco quando as gotas embatiam no chão de cristal. Dentro do meu corpo para me enternecer o sangue rejubilava. Nem mesmo depois da lua cheia, sim, quando nos deitamos na praia e o amargo sentir inundava-me na sua água. Só nessa altura reparei que os teus olhos choravam, sim, nunca tinha reparado no seu azul, no que do brilho estranho e visível era apenas o colorir vítreo e raiado do choro. Sim, tu fazias aquários nos teus olhos e de sorriso fingido sempre mentias com a boca pequena. A tua boca amada presa naquele arfar silencioso do amor. O teu silêncio destruía uma vida escondida; a tua, entregue a um acovardar, ao medo de um acabar algo nunca havido. E gelada ficava a promessa de uma união, como uma gota aprisionada no alto de uma nuvem. A tua vida com a minha, atada num torniquete de vontade que te infligia a medieval tortura de um dilacerar. Eu nunca descongelava a água aprisionada nos meus olhos mas passou a chover todos os dias.

Pesaroso

Há dias em que o peso da tristeza nos faz andar curvos.

sexta-feira, outubro 31, 2003

(e/ou) Parte II

O (e/ou) foi escrito entre 28.dezembro.94 e 09.fevereio.95, esta é a parte 2. A parte 1 fui publicando aos pedaços e deve estar nos arquivos da Espada. Quando o escrevi foi mais como um exercicio sobre o ritmo do texto, nada mais do que isso.

(e/ou) 2.12

depois fiquei triste, só isso de ficar triste, de dar mais um ponto à saudade; por um telefonema, não veio; por uma mensagem, via-a.
para dizer não, um ponto mais ao desejo de compartilhar, novamente.
a falta de não estar ou de estar contigo e, se estás onde estás, onde dizes que estás é dúvida minha que dissipo porque me esforço, porque assim quero acreditar. na verdade que dizes ser tua, pela confiança de...

(e/ou) 2.11

partida adiada, regresso precipitado. o que esperar? um porquê? razões? ou uma espera longa?
a espera. pouco tempo, pouco espaço. hipótese para a descoberta. difícil, difícil outra vez. quase como sempre: infrutífero!...
o futuro eu não digo ou não sei, e se soubesse talvez não diria: se me enganava, talvez!... creio nisso, penso nisso.
espera, adiar...constante.

(e/ou) 2.10

se eu for à tua terra não me deixes ver essa terra, como disseste às escuras. e eu, ainda contigo... mas mostra-te ou mostra a cidade, o que é teu nela que é na mesma: mostra-te. só a ti te quero ver. e à cidade. a que não queres mostrar-me, mostra-te: mostra-me. e eu olho. e gosto.

(e/ou) 2.09

corri.
ao teu sinal ou ao teu chamar, sem saber seres mesmo tu. e eras. tu. longe. dizes: longe. sim. tu.
ouço-te, isso quebra distâncias. sinto-te, por isso corri. sim. isso de saber que eras tu. ao telefone.
tu. e eu. ao telefone. sempre longe. na mesma, ainda: perto. a sentirmo-nos, ao telefone. sim.
tu. e eu

(e/ou) 2.08

num caso ou noutro, há uma ligação a uma terra que fica longe. ainda por cima isso. sim, isso de ficar longe.

Rescue me!

Sinto-me refem da jorna.

quinta-feira, outubro 30, 2003

(e/ou) 2.07

partida.
sempre uma viagem e um prenúncio de saudade. pára, e recorda: as mãos puxadas e repuxadas por um fio invisível, agindo descontroladas, demedidas. e frenéticas. ao som da música como uma cobra enfeitiçada; a música bate estonteante, estou a vê-la no ritmo, perdida no ritmo, na vida, toda ela, no que se passa ao seu lado, no que se passa na sua vida. a vida na sua vida: carrossel como bebedeira. tonta: de dança, do álcool, do vício da vida.
há-de chegar, chegar a algum lado, talvez já não tão perdida. reencontrada. ou ainda mais tonta, mais ébria do vício de viver, de fazer o querer, sem pensar, sem sentir. a querer,sem pensar, sem parar. e gira e rodopia, sempre a partir, sempre a querer chegar ou sem nunca parar.

Malos tiempos

O que pode ser pior do que estar remetida para um exilio à força de demasiado trabalho?

quarta-feira, outubro 29, 2003

(e/ou) 2.06

horrível este carnaval de gente desmascarada a intriguista, a rugirem snobes e petulantes o tiro à ponta de espingarda de especulações de merda. justiça?! façam-na, mas ouçam antes de condenarem, saibam bem do que falam ou calem.
horrível carnaval de gente mascarada, mostrando entre dentes a saliva perfumada a intriga, e olhares trancados em casas alheias e sempre muita renúncia a enfrentar a palavra séria, e a que doi, e a que importa, e... ... talvez já sem palavras.

(e/ou) 2.05

atrapalhou-se.

desajeitado, nervoso a fazer a declaração. estava incapaz de lhe dizer sim. sim: respondeu. apenas e afinal a uma banal pergunta. Ainda com os olhos pousados sobre os dela, sem fazer muita força para não soltar um sorriso. um sorriso: gostou da ideia. sim. consentiu agora sentar-se. melhor assim. sorriu. tens graça a sorrir: disse ela. corou, claro.

atrapalhou-se.

ia segurar-lhe na mão mas o dedo indicador traiu-o numa carícia. ela abriu os olhos. os dele tombaram. ela, sempre com imenso carinho, levantou-lhe o rosto pelo queixo com a mão espalmada de quem se entrega. atrapalharam-se. os lábios mereciam um beijo, nem sequer um sorriso. havia gente em volta, imensa gente. olharam-se e segredaram: sim!... é a melhor saída. depois, duas direcções ou não...

segunda-feira, outubro 27, 2003

(e/ou) 2.04

um dedo um dedo encurralado noutro dedo. maneiras bem mais fáceis de morrer, há outras, muitas outras. início onde tudo começa.

foi assim: disse. como se houvesse um fim. havido: perguntou.
depois disse que eu não queria saber. que as perguntas a atrapalhavam e que já nada podia saber. ainda disse: reticências.

um dedo um dedo encurralado numa língua. era talvez mau, assim pior: pensou.
mas há outras coisas, muitas outras coisas, claro. como sorrir feliz

e depois disse que os corpos se misturavam e que de mais nada queriam saber. que se fechavam assim, sozinhos: concluiu. e que há sempre mais do que uma conclusão para todas as coisas: o isto e o aquilo, ou como o toque de um dedo pode magoar: disse.

Cegueira imoral

Agora que as prostitutas já podem pagar impostos uma questão permanece por desvendar. O recibo vem com o valor descontado do que remanesce da extorsão do respectivo chulo, ou as prostitutas, que ainda não podem ser legalizadas por uma cegueira mais imoral do que a suposta imoralidade de vender o corpo, para além de terem de entregar o dizimo aos extorcionários dos chulos ainda vão ter de pagar imposto sobre um valor que não recebem? E os chulos também podem pagar impostos? É que as prostitutas que persistimos em manter ilegais nem credibilidade têm para acusar os respectivos chulos extorcionários porque se estão a auto-denunciar de uma infracção bem menos grave do que a gravidade miserável de que são acometidas. Diz-se que a justiça deve ser cega, e eu sublinho, mas desta cegueira da sociedade somos todos culpados por mantermos o silêncio. Como não temos coragem para mudar a situação, nós, a sociedade "moral" preferimos ignorar. O melhor é não mexer muito no que já sedimentou e a legislação um fóssil muito parecido com um câncer.

domingo, outubro 26, 2003

(e/ou) 2.03

acordei a precisar, ou talvez não, e volto a adormecer. apareces no sonho já velha, eu incapaz de esperar, ou esperar tão pouco de ti. foges à procura de um precipício talvez uma loucura mais,
ou nada que se pareça com isso e ainda, ou ainda assim, emerges da emergência desse sentir. possesso. que é querer, de venda nos olhos como se tudo fosse possível, ou só bater em tudo
para chegar a nada. sonho aborrecido e acordei.

(e/ou) 2.02

hei-de querer sentir-me roubado nem que somente aquele beijo que pediste e não dei. só por pensar, ou achar, que o podias ter feito, pedido, ou noutra altura ou doutra forma. e talvez consiga
menos roubado sentir-me, roubado mesmo a sério. sentido como dor e perda, na mesma dor, na mesma perda. por um porquê que não posso contar, ou não devo?

(e/ou) 2.01

estou à espera, a vida repete-se. não é isso que quero. um pé cá outro lá:
já disseste ou já partiste e deixarás onde o coração?
lá ou cá? receio de partir, receio de ficar. o meu e o teu. e/ou vice-versa.
(depois pensei noutra coisa que não tinha nada a haver mas era outra, e só por isso, um alívio; que viver de pensar na mesma estúpida equação ? irresolúvel por sinal ? era por si só, um resultado positivo)
estou à espera a história repete-se, repetem-se os finais ou a história muda? o tempo cura mas também estraga; a ausência sossega mas também adormece e tu preocupas-te ou julgas que eu não?

sexta-feira, outubro 24, 2003

"Inté"

Como o futuro é uma incógnita neste meu oficio, deixo desde já o desejo que passem um bom fim de semana.
Eu vou rumar a outras paragens. God bless you all!

Castanho

Neste momento estou como esta cor. Castanho. Deve ser a cor mais estranha que existe, mais dualista, senão vejamos : madeira quente (lembra dias descalça em correrias pela sala) versus madeira fria (lembra o toque no caixão da mais dolorosa partida) ; chocolate (sabor suave que preenche) versus terra (sensação agreste de terra húmida nas brincadeiras de verão). É, sinto-me mesmo assim. Vou feliz, e triste estou de não partir.

Sopro

Na insistência de novos caminhos, de novas sensações, deixamos para trás toda uma vivência, uma experiência que gastou um pouco de nós. Será assim tão válido o frenético culto que fazemos à novidade?

quinta-feira, outubro 23, 2003

Olhos

O grande inimigo da memória. Ou não os cerrariamos quando tentamos recordar melhor momentos, cheiros ou sensações.

The times are changing

Tão duradoura como uma cruzada, a temporada de jejum aos frutos do cacao, foi agora encerrada. Ainda não sei se para o bem se para o mal.

Providência

Das frases mais significativas da homilia para mim sempre foi e creio que será : "Senhor não sou digno que Entres na minha morada, mais Dizei uma palavra e eu serei salvo". Acho fabulosa a capacidade de descernir numa projecção de extrema humildade a capacidade de redenção.

quarta-feira, outubro 22, 2003

A procura

Estar entre paredes de silêncio, frias e húmidas como os dias tristes de Dezembro. Ver o dia transpor a claridade por entre nuvens carregadas de desespero.
Sentir o frio gélido do vento que corta a pele e nos impede de sorrir. Tentar inspirar, mas agoniar num soluço que prende os sentimentos e nos embrulha as entranhas. Procurar trazer calor ao corpo, quando nos rodeamos do frio que vem da alma. Fechar os olhos e sentir o sangue correr pelas veias desenfreado, por vezes em golfadas que nos cortam a respiração. E seguimos à procura. De quê? Não sei.

Day after

As ressacas nem sempre são causa efectiva de borracheira, bem piores são aquelas ressacas do mal da alma.

Sera' sensato?

Porque é que tantos membros do partido socialista se insurjem agora contra a quebra do segredo de justiça (na sequência da divulgação de escutas telefónicas que foram efectuadas a diversos membros do partido)? Não foram eles percursores da mesma quebra quando tentavam resolver a questão do colega de bancada, conforme se concluí dos excertos das conversas telefónicas?

terça-feira, outubro 21, 2003

Hoje

Hoje precisava, urgia que assim fosse. Devia ter acordado com aquela sensação de menta fresca, quando os dias se apresentam limpos e frios. O dia de hoje é importante. Tinha de ter despertado sem a poeira que os sonhos maus nos deixam. É assim que deveriam ser todos os dias que achamos importantes, começarem brilhantes e frescos, tornarem-se ao longo do dia calmos e mornos; para que os possamos fechar no aconchego da lareira envolvente e quente.
É, os dias importantes devem ser vividos na nossa melhor clausura. São só nossos.

Lembrar

O mais triste suspiro,
do ar que se extingue.

Contrapôr a vida,
no que se segue.

Esperar o reencontro,
que não deve tardar.

Ânsia de ver o olhar,
para o desespero aniquilar.

Calca a alma o sorriso,
de tanto lembrar.

Que fazer?

O que fazer com as saudades que sentimos de alguém que nasce com um sorriso?
Como é que se aguenta passar o tempo sem ver o rosto de quem tem a felicidade espelhada da alma?
O pior que me pôde acontecer foi ser privada da companhia do teu constante esboço alegre no rosto.

segunda-feira, outubro 20, 2003

Celebraçoes

Será correcto celebrarmos em comunhão com o mundo só as alegrias? E as tristezas que nos marcam a alma, não serão elas dignas de apontamentos?

Cantinho

Pergunta para o master :
Já se diz ao Darth Vader - "May the force be with you"?

Never ending story

O que se vê agora sobre os dias que antecederam a detenção de Paulo Pedroso.
Daqui a pouco tenho de fazer um post sobre este assunto com o título "How low can you go"...

sexta-feira, outubro 17, 2003

Ai, ai...

O tempo não é muito. Espero que para a semana a coisa corra melhor... Enfim, designios do proletariado.

terça-feira, outubro 14, 2003

Fado / fade out

Reparei agora que existe uma estranha ligação na conjugação destas três palavras.
A sua implícita longitude que se esvazia dá um arrepio na espinha...

Yuppi hurray!!

É hoje! Espero que este dia seja bom e que os outros 364 também o sejam!

Ups!

Vejo por aí que o espirito "à lo Hitler" ainda sobrevive...
"Eu é que tenho razão!" - adoro esta força argumentativa.
Será que num ringue se passa o mesmo?

segunda-feira, outubro 13, 2003

Inverno

Encontro-me agora em frente ao inverno. O sol tem aquele tom limpo, assepticamente frio. O cheiro do ar já não traz consigo os aromas das flores que nos aquecem a alma. Olho enquanto a tua figura vai desaparecendo na linha do horizonte. Aqui dentro o inverno chega sempre que partes.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Mistico entardecer

O sol a aconchegar o mar, numa languida perguiça que traz à memória dias felizes, em sabores de caramelo e laranja. O mar naquela enganadora calmia, fervilha de vida e espelha-se de sol e céu, numa penúmbra de esperanças. O fresco do ar que vem do mar acarreta cheiros de outras paragens, de outras vivências.
Tudo se mistura na amalgama de que são feitas as recordações.
Hoje vivemos a esperança. Amanhã se verá.

Saudade de

O que nunca vivi, mas imaginei por ti;
Cheiros doces e quentes, cores vibrantes;
Contos de antanho,
Sonhos de futuro.

Guinadas na vida,
Grinaldas no chão.

Correrias na areia,
Mergulhos no mar.

Planar do alto,
Aterrar real.

Um blog da direita...

Bem, foi assim que nos chamaram num blog "dos copos" ! Para que fique esclarecido, qualquer opinião assinada neste blog é da exclusiva responsabilidade de quem o assina e nada tem a ver com uma qualquer orientação ideológica dos restantes membros. Como já dissemos anteriormente, os dois gumes são opostos. Quem aqui escreve (agora quase que reduzido a moi même...) tem direito às suas convicções e ideias.

quinta-feira, outubro 09, 2003

Um must!

Desde há muito que é uma visita obrigatória, mas agora com este novo template está mais completo (apesar de, confesso, gostar mais do anterior), o blog do sempre perspicaz Tiago Cavaco. Como o nome indica é uma verdadeira voz.

Signs

Existem palavras que nos fazem dançar no seu próprio significado. Uma dessas palavras é percurso. Toda a carga que esta palavra traz é acentuada pela sua fonética. Delicioso.

Sem palavras

A politica deste país e a cobertura jornalística que lhe é feita.

quarta-feira, outubro 08, 2003

O Sol e' escuro

De repente é um sol, que se põe dentro da garganta, um eco que se esfuma num quarto muito escuro. É a palavra finita que esbarra numa palavra de negro, de luto. É a corda da garganta rompida no ultimo grito, na ultima dor. Os violinos tocam no telhado feito céu de tempestade, são sons perdidos no dedilhado de um concerto insone. É a noite que perdura na ausência do teu sussurro de pele. É o choro da criança que na fome de meio da noite nos desperta. Não nos pomos no lugar um do outro. Nunca. Jamais trocamos de lugares. A noite é de novo o local de chegada e o dia a partida. Somos escuros. Queremos ser negros e vazios. E somos. E somos só a pele, e somos o corpo vazio. Somos a voz indizível, o sonho inatingível. Vivemos paredes meias com o perigo de desmoronar um castelo de cartas de fantasias. É tão giro, acaba-se tudo num pequeno sopro. De repente somos só isso, um sol com interruptor.

Ausência

Há alturas em que é o silêncio que vem povoar as palavras.

Fade out

Quantas vezes não reparamos que é o que acontece com o que nos rodeia?

O estado das coisas

Mais uma hora de almoço em que fico perplexa com a pequenez do nosso país. Passo a explicar :

- durante meses a fio exigem a demissão do Ministro da Ciência e Ensino Superior, depois de "alegadas" provas ( o engraçado é que agora todos as notícias dizem baixinho "o alegado envolvimento" ), o Ministro demite-se e vêm todos a público, quais virgens feridas, bradir que nunca foram contra uma pessoa em particular mas sim contra toda uma linha politica do governo.... Sejam sérios meus senhores, sejam sérios!

- depois da demissão do Ministro C.E.S., pelos mesmos motivos reclama-se a demissão do Ministro dos Negócios Estrangeiros, este, passado algum tempo, assim faz e o que é que ouvimos? Que já foi tarde, que o Primeiro Ministro deveria ter tomado uma actitude antes... Por favor, tenham a santa paciência, mas para folhetins acho que basta o que importamos do Brasil!

Conclusão - em vez de serem capazes de apresentar soluções ou uma qualquer politica alternativa, os nossos politicos estão ocos de iniciativa, seguem a reboque dos nossos talentosos jornalistas...

terça-feira, outubro 07, 2003

.......

Hoje estou assim, nem me apetece sequer pensar num título. Acordei, ou melhor, levantei-me com a disposição de um camionista. Hoje é daqueles dias em que tenho um Pipi dentro de mim, só me apetece insultar tudo. É o que dá dormir num sono atribulado, com enredos descabidos e violentos. E um raio de dor de cabeça que mal me deixa abrir os olhos.
É, hoje não devo escrever mesmo mais, para bem de quem lê.
O dia vai seguir seguramente como o título, sem nada conter e tudo esperar.

segunda-feira, outubro 06, 2003

As coisas boas estragam.. as ma's tambem

Uma vez ofereci-lhe um livro de poesia. Gosto de dar palavras. Muito mais do que falar. Às vezes, não sabemos o que querem dizer certas palavras, mas elas soam bem. É um requinte da alma. Outra vez ofereci-lhe um romance. O nosso. A casa dela estava cheia das minhas palavras. As palavras nunca perdem o valor. Às vezes, só se alteram na linha contínua do tempo. Adquirem outro significado. Estás-me sempre a mimar com as palavras, disse-me ela. É, as coisas boas estragam-te... como a uma criança mimada. Deixa estar... as más também!

A rapariga dos olhares

Sexta à noite. Sábado à noite. Tanto dá. Quinta-feira. Um dia qualquer à noite. Nós sempre no mesmo bar. Ela a dançar, a mostrar o seu sorriso e o seu jeito de menina. Eu de copo na mão, para fazer outra coisa que não somente estar a olhar para ela. Ela sempre a dançar, a mover o corpo numa dança a dois com um parceiro invisível. A provocação da dança. Cobre-me de olhares o tempo todo, como se eu tivesse frio. Enche-me de carinho com essa caricia que é o olhar. Mas sempre à distância. Quando passa rente a mim desvia sempre o olhar. Faz de conta que não me conhece. Que não sabe o meu nome que eu próprio lhe disse. Que ela própria repetiu com aquela boca pequena para fingir que o fixava. Mas parece que não me conhece, que só me conhece quando me cobre de olhares para quebrar uma distância que afinal não quer encurtar.

Naufraga

Hoje estou à deriva. Não vou escrever mais.

Mosquito

Tenho-te no meu pensamento como um mosquito, és como o zumbido, que por muito que tente está sempre na minha cabeça.

Sim, isto é para ti.

Obrigada por me fazeres feliz.

Outono

No fim de semana tomei consiência da nova estação.
Deixamo-nos envolver pelo tempo sazonal de forma brutal e nem reparamos. O espirito está como as árvores, com as folhas douradas e à espera de cairem.

sexta-feira, outubro 03, 2003

Nao me apetece

Hoje estou com a disposição de uma traineira de regresso da pesca, só quero que o dia passe para descançar. Tenho um vazio dentro de mim. É a estranha sensação de que algo de mal se vai passar. Os sentidos estão alerta. Parece que o dia se vai passar numa interrupção do seu seguimento normal... Já não faço sentido, é o que dá continuar a dormir intermitentemente...
Espero que passem um bom fim de semana. A ver como chego na segunda.

quinta-feira, outubro 02, 2003

Las huellas qué dejaste

Pior que cicatrizes, são as pegadas que estão entranhadas no nosso mais profundo ser.

Toque

Na pele sente-se a suavidade de sentimentos que passam, ouve-se o silêncio dos que escutam a alma. Muitas vezes as sensações que captamos são fruto da nossa predesposição do momento.

quarta-feira, outubro 01, 2003

O Canto Escuro

Porque estão eles com as faces fechadas um no outro? E sem sorrisos, só com olhares tristes? Estão a fugir? De quê? De quem? Porque estão eles no canto escuro? Terão medo da luz? Ou medo de se olharem olhos nos olhos? E eu, porque os observo? Será que as suas bocas que se tocam, derretem-se e aleijam-se, da dor? do prazer? Será que as suas mãos quando se entrelaçam, transportam mais do que caricias? Comunicarão? E eu porque os observo? Talvez o canto escuro seja um abrigo, de quê? de quem? Da luz? Não, se fosse pela luz, porque fechariam os olhos quando se beijam? Talvez o canto escuro seja a sua solidão? Quererão privacidade? E eu, porque os observo?

Frase do dia

Diz-me um inglês na sua primeira visita ao nosso país
"Ainda tentei aprender algo de português, mas nem o meu castelhano se safa! Só mesmo japonês..." E ainda dizem que a nossa língua é complicada!

E é!

Numa conversa telefónica :
- Já não tenho notícias tuas à muito tempo!
- Mas eu ainda ando por cá, tenho blogado sempre!

Ou como o blogar se tornou caracteristica intrínsica de existência.

terça-feira, setembro 30, 2003

Ainda assim...

Olho abstraida para a chuva lá fora. É bom vermos que não é só a nossa alma que chora.

Mind versus body

A força dualista que nos faz passar horrores.

Patamares

Pode-se estratificar toda a vida em compartimentos. As nossas actitudes podem ser catalogadas pela proximidade ou afastamento dos instintos mais primários. A nossa consciência desenvolve a moral segundo uma pirâmide do socialmente aceite, e muitas vezes do politicamente correcto. Podemos superar os nossos sentimentos mais básicos domesticando-os. Damos a volta ao obvio para não admitirmos que a parte animal ainda nos condiciona.
E florescemos agora numa brutalidade que faz corar o mais selvagem dos animais. Para onde seguimos?

Oba! Oba!

E logo mais uma visita fugaz a Aveiro. Espero que um jantar na Costa Nova esteja contemplado também!

Acordar

Muitas vezes abria os olhos e deparava com o cenário desolador do desconhecido, tinha de se arrastar dos sonhos e saltar para a realidade. Era assim que se sentia sempre que dormia fora da sua cama. O entorno sem referencias tinha o efeito de um pequeno choque eléctrico, sentia-o percorrer o corpo e logo todos os seus sentidos alerta faziam o reconhecimento do que a rodeava. Muitas vezes acordava e sorria pois sabia que ele a iria observar em breve. Ainda minimamente desperta lembrava o carinho com que lhe desejara boa noite, sabia que ele pensava que ela estava embriagada, de sono e de álcool. Mas estava atenta, estava sempre.

segunda-feira, setembro 29, 2003

A rapariga e o pensamento

Andávamos sempre de mão dada num pensamento sobre uma certa filosofia de vida. Um mundo encantado, quase privado e só para nós. Olhava-me com sabedoria com uma presença que sabia só sua. Nunca mentíamos. A verdade, por vezes, parecia um carrossel que nos punha tontos e que, por vezes, doía como se nos estivessem a picar agulhas. Obrigava-me à sinceridade fazendo-me vergar à sua doçura. Falava com desenvoltura num despique de palavras muito especial, uma guerra que amávamos e que nunca ninguém ganhava. Não era preciso ninguém vencer. Um combate de esgrima onde nunca se marcavam pontos, a pontuação ficava nas frases. Ela nunca se impunha mas defendia o seu querer com muito mais querer que o meu. Tinha dela essa impressão. Chegávamos a falar de coisas desnecessárias mas muito importantes. Tinha sempre a sua razão mesmo quando queria que ela não a tivesse razão nenhuma. A sua inteligência era sexy. Dava vontade de acreditar que as pessoas não ligavam à beleza física. Até parecia possível. Não que com ela fosse preciso.

Siempre lo mismo, siempre lo mismo

Que dizer das intermináveis e constantes enxaquecas?
O karma do sofrimento, é o que é.

Take # 1

Não te ver não é aceitar que deixaste de existir. É só prolongar-te num plano mais vasto.

Love will tear us appart, again.

Joy Division at their best.

A mao pelo corpo

Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. No corpo de latente cadáver, corri, a mão sempre amena: na boca, no peito, até apertar
com a força do escândalo a barriga de mulher grávida. E corri, de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do sexo repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar; a todos os olhos de outros. E no teu útero,
como um toque divino, fiz nascer-te em amor para mim.

Maos

Mãos de aranha. O gesto dos dedos, reflectem-me imagens. Dedos quebradiços, longos, perspicazes. O gesto dos dedos tem a doçura feminina do fascínio…

Tristeza

Ouço agora JET SOCIETY a lamentar "Vai minha tristeza, vai, que não sai de mim..." e lembro que a minha nunca está dois passos afastada.

Duvida sexual

Pois, deixaram-se levar pelo título, ainda bem!
A minha dúvida nada tem de sexual, mas assim já tenho a vossa atenção. Depois deste fim de semana, agradecia que me elucidassem sobre uma moda que, nem sei se será recente, mas da qual só agora me apercebi : porque motivo se veêm alguns carros com um lencinho tipo americano preso na argola do reboque dos carros (aquela que está por baixo do carro, do lado direito na traseira)?

After

Encontrei-me assim a lembrar o que tinha vivido. A sensação que fiquei foi de um abismo. Um abismo de mágoa, de dor. Um infinito de sofrimento que rasgaste na minha alma. As noites de pesadelo que tentas apaziguar, os silêncios que cortam e os olhares que gritam. Tudo junto no somatório das decisões precepitadas. Ás vezes só queria. Isto mesmo só querer. Porque é necessário o objecto da acção? Porque não pode ser válida só a subjectividade? Tens a realidade em frente, e como sempre só procuras o que não existe.
E no entanto, o sangue corre louco por um coração oprimido, compactado numa jaula de dor. Respirar é como engolir uma outra agulha que se crava mais fundo, é mais um soco dado dentro do estômago, é um soluço raivoso. Aguardo que passe.
Estou aqui. Ainda.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Okey

Desejo um bom fim de semana a todos!
Qué lo paseis fenomenal!

Ensonada

O desespero de noites mal dormidas está a levar-me à ruina... Custa muito manter os olhos abertos e a mente desperta... Os comprimidos para a maleita crónica ainda pioram o cenário, potenciam a necessidade de dormir.
Mas para mal dos meus pecados, quando chego ao leito, a vil insónia desperta-me para desespero do meu sossego mental...

Ainda nao passou...

Olho insistentemente para o relógio. O tempo quando o observamos não passa. Mas agora nem com o habitual truque de fazer várias coisas para que este se torne menos omnipresente o consegue enganar. Bolas!

Sem sentido

Aguardo o passar do tempo numa reflexão dourada, daquelas que nos são queridas e nos fazem sentir "cosy" na alma.
Estonteada nas lembranças que fazem sorrir sem querer.
Sinto-me dormente, a realidade não está a passar por mim, só vejo tudo coado pela doce luz de uma gase de tons terra e sangue esbatidos, cores da vida, mas duma essência vaporosa.
Chegam-me cheiros completos de ternura, ricos de aroma e minados de sorrisos. Voluptuosos.
E tu sabes.

Ora! Ora!

Dizem-me "com esse penteado pareces cota" e volto à minha questão PORQUE RAIOS AS CABELEIREIRAS NOS CORTAM SEMPRE MAIS O CABELO DO QUE PEDIMOS!!!

La

Um novo fim de semana se aproxima e mais uma vez vou-me ausentar! Designios maiores me chamam.

quinta-feira, setembro 25, 2003

quarta-feira, setembro 24, 2003

Tédio

A alma espraia-se numa dor leve e longa. Procuro calor dentro, mas não encontro o abrigo que me davas.
Ensaio pensamentos da infância no intuíto de achar o toque familiar que nos faz sentir protegidos. Vasculho a memória e só tenho imagens espectrais, indefinidas. Sem sentimento. Fico novamente presa à crueza da dor. O que será feito daquela sensação envolvente, como a aproximação da lareira quando nos aquecemos após termos percorrido um caminho de tempestade? Nova pesquisa e de novo embato na dura realidade, estou pior. Não há possibilidade de encontrar o que apazigue a inquetude que me assalta. A lembrança sensorial que nos grava a pele está incapaz de me ajudar, estou constipada nas lembranças. Tenho a alma fria e não encontro o abafador para aquecê-la. Vou continuar, como sempre, na busca deste Santo Graal que é tentar seguir.

Humm, shlep, shlep!

Alguém me pode explicar por que raios saiu de circulação o sorvete de manga da Hagen Das? Ando desejosa de ficar sentadita no sofá a ver um filme a comer aquela maravilha e os Pingo Doce das redondezas não têm disponivel esta variedade!!

0000

Os meus sonhos tendem a ser pesadelos. São povoados por seres estranhos e deixam-me cansada. Acordo sempre pior do que quando me deitei. Em determinadas alturas, já não sei que faça, o ritual de me aconchegar para dormir fica irreparavelmente perturbado pela certeza de novos horrores. Os olhos encovam-se e a pele fica baça. Não tenho sossego.

Assim

Tenho pensado muito na nossa condição de sociedade representativa de uma democracia saudavel, e cada vez mais fico abismada com a falta crónica de civismo da população em geral. Será que as pessoas não compreendem que o viver em comum implica que se tenham de respeitar umas às outras? O que é que custa ter uma actitude (será que ainda posso escrever assim depois do acordo?) que nos poderá atrasar uns minutos mais no transito se essa acção implicar que o mesmo fluiria melhor? Porque raio temos a mania que seremos sempre mais importantes que o nosso semelhante do lado?
E por fim, o que é que realmente se poderá fazer com vista a alterar esta caracteristica crescente na nossa sociedade?

Por estas razoes

Ainda aguardo no portão a tua chegada. Estou sentada na soleira da porta, em frente ao portão. Olho para a frente na expectativa de te ver outra vez entrar. Os cães prostam-se a meu lado, na ânsia de um carinho, de uma atenção que não chega. Toda a minha acção está suspensa. Não sou capaz de reagir. Penso em ti e como não te encontro, procuro em mim a tua imagem, os teus sorrisos e as tuas palavras. É melhor uma imagem interior do que nada de ti. Uma força bruta implode no sentimento da falta que me fazes. Fico agoniada de dor. Sinto na pele um tremor que se extende às entranhas. Não voltas e eu continuo à espera.

Aleluia! Aleluia!

Finalmente e após acérrima discussão (okey foi mesmo com ameaças que o consegui!) estou de volta ao blog!
Agora vão ter de me aturar...Je!Je!

domingo, setembro 21, 2003

...

O teu corpo sem a tua alma faz-me mal.

Ha de haver uma outra realidade

Tinha a certeza de termos morrido. O carro irreconhecível, numa amalgama de metais retorcidos e contorcidos eram prova disso. Havia uma série de líquidos viscosos a escorrerem entre as peças fumegantes do motor e por debaixo do carro, um fluído vermelho fazia um pequeno riacho. Lá dentro estavam os nossos corpos, mas eu não tive coragem para olhar. Tínhamos decidido nessa noite voltar ao quarto da sua prima. Conseguira-me convencer de que se libertara dos seus fantasmas e que agora me queria. Quero-te dentro do meu corpo, disse ela como argumento final. Um excesso de ansiedade apoderou-se de mim. Às vezes, a verdadeira realidade da vida esconde-se por detrás de omissões, ou apenas de pequenas coisas que desconhecemos. Disse-me ela quando entrou no carro. Eu apenas respondi, é natural que hajam outras realidades. Agora, de mão dada com ela, estou a flutuar dez metros acima do meu corpo. Decidimos ir embora. Não tínhamos ali mais nada que fazer, mas apenas, muitas coisas por descobrir.

sexta-feira, setembro 19, 2003

Outras Paragens (para depois regressar à base)

Tenho andado mais na secção de leitura do que na secção de escrita.

Há que contribuir, também, para o sucesso do «muitomentiroso». Que, mesmo podendo ser totalmente delirante (já nem digo especulativo), consegue ter mais leitores do que a maioria dos jornais portugueses.

É pelo menos engraçado constatar que há mais gente a conhecer os nomes dos supostos envolvidos na história da Casa Pia (estão todos no «muitomentiroso»), do que a ter lido a carta do Paulo Pedroso aos deputados do PS (citada hoje no Público).

Isto é que é uma colectividade.

Por falar nisso, também tenho andado pelo «pipi». Salvo os literais exageros de linguaragem, é fundamental não perder o «Diário de Anne Trank». Já para não falar na «Análise Sócio-Profissional da Rebarba». Há pérolas do mais fino recorte: «Putas e Jornalistas (passe a redundância)» O pipi é genial. É fabulástico. Não desfazendo na Espada, claro está, temos que reconhecer a elevação do género e a qualidade do estilo.

O pipi pode porventura ser um Don Juan frustado. Mas o pipi vai a Nobel da Literatura. Há que recolher assinaturas.

quarta-feira, setembro 17, 2003

BlogoInterrupcao

Não sei o que deu a este blog que ficou em silêncio quase uma semana. Depois da tão propalada silly season será que nos voltámos para uma silent season?

Uma coisa esquisita no meu coracao

Estava a trabalhar quando ouvi a sua voz, num além que julguei não ser possível de acontecer. Acordei com ele num murmúrio que parecia ao meu lado, ao meu lado ou dentro de mim. Sussurrou o seu amor por mim que eu tinha medo de acreditar, medo de sentir verdade. Galgou comigo essa noite de trabalho que não queria ter fim. Tens sorte em ter um amor como o meu, disse-me na sua ausência com a sua voz de mel de novo na minha cabeça. Tinha o espirito dele a falar comigo, como se a sua alma estivesse em contacto etéreo, buscando a nossa alegria, o arrepio na pele. Tentou de tudo para provar ser ele quem ali estava, não em carne e osso, mas o seu espirito de luz. Deu-me um número, depois disse-me ainda ausente, amanhã telefona-me! Telefonei-lhe no dia seguinte como me propusera, perguntei-lhe se ele sabia o sentido daquele número, sem medo algum de desmascarar a minha possível loucura. A sonhar com fantasmas. Logo eu. A sonhar com o seu espirito. Ele respondeu, sim, é o número do meu bilhete de identidade mas, como sabes? Como dizer-lhe que tinha sido ele, a sua alma enquanto ele dormia, quando num sonho qualquer soltou palavras de amor, num sonho que como muitos outros se esquece ao acordar. Senti uma coisa esquisita no meu coração um formigueiro tal qual uma mão dormente, uma coisa que se sente e não se sente. Tinhas razão poeta!

quinta-feira, setembro 11, 2003

Zapping

No zapping de hoje apanhei a seguinte frase numa das telenovelas basileiras: "Jornal é tudo a mesma coisa, a gente espreme, espreme e só sai sangue". E eles que ainda não conhecem o telejornal da TVI.

Os caracteres chineses

Não há muitas raparigas que façam disparar assim o meu coração. Podes ter certeza disso. Se um sorriso teu o faz bater assim tão forte e desgovernado, nalguma coisa as nossas almas comunicam. Somos feitos de uma qualquer essência supra-natural e há qualquer coisa de kármico no nosso encontro. Como se as estrelas tivessem escrito uma qualquer história, e nós, marionetas desse romance, somos impotentes para fugirmos ou traçarmos uma qualquer outra rota. Não faz mal, assim está bem. Chega-te a mim. Assim juntos de mão dada para fazer funcionar a união. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Repetiste tu, como se esse eco fosse uma extensão de mim. Chega-te mais a mim mas mantém-te onde estás. Disseste tu, imitando um paradoxo budista. Há um qualquer caracter chinês que explica muito bem a nossa relação. Pois há, disse ela, mas não to digo. Depois disse-mo mesmo sem me o dizer. (1995)

quarta-feira, setembro 10, 2003

A rapariga com os pes na agua

Tinha acabado de perder o irmão. Molhou os pés na berma de um lago ladeado de árvores altas que davam amplas sombras e que filtravam o sol fazendo-o vibrar cintilante na água tépida. Estava sozinha e ainda mais sozinha. Um grito de dor soltou-se-lhe da boca afugentando os pássaros que bateram asas, voaram um pouco sobre o lago e, já sem medo do grito triste da rapariga, voltaram a poisar nos ramos que haviam abandonado. Havia telefonado a todos os seus amigos para que não ficasse sozinha, mas continuava sozinha. Porque quis. Porque quis encontrar o seu irmão numa qualquer água. A água que era o símbolo da perda do seu irmão, porque aí o tinha perdido. Encheram-se de água cristalina e salgada os seus olhos quando lentamente mergulhou desfalecida num lago pouco profundo.

segunda-feira, setembro 08, 2003

A rapariga e o desassossego

Eu também nunca soube o que era estar parado. Andava sempre a correr sobre florestas encantadas. A pensar em coisas que não existem. A viver momentos com pessoas que apenas eram fantasias minhas. Nunca tive coragem para bater à porta de ninguém. Sei o que dói a pessoa não estar, ou não nos querer receber. Essa dor já passou.
Isto para falar dela.
Andava preenchida com vontade de mudar, por isso bateu à minha porta. Eu abri, não somente a porta de casa mas todas as portas que servissem para alguma coisa na minha vida e mesmo as que não serviam para nada, as que eram apenas empecilhos. Eu tinha sempre muito mais medo do que vontade. Embora existisse sempre muita vontade a pulsar no interior. Haviam gestos ou olhares que me faziam acreditar no desejo dela. O seu corpo dançando sobre o meu fazia-me acreditar no desejo dela. O meu corpo no corpo dela era prova disso, dizia-me ela. Andava em desassossego o dia todo sempre a querer mudar o rumo da minha vida. Da vida dela na minha vida. Mas tê-la por ali, ainda que andando à volta como uma borboleta, era um conforto. Tão reconfortante como um abraço de pele. Da pele branca dela. Muita branca. A vida andava muito cheia, eu sempre a pensar nela, a resolver os problemas que ela arranjava à minha, e os momentos a dois que pareciam sempre poucos. Viver parecia um frémito. E era. E era inquietante, mas por estúpido que possa parecer, deixava-me sossegado. Só ela é que não sossegava. Queria o que não queria como se isso estivesse certo. Era uma pessoa nova a cada segundo que dobrava o tempo nos ponteiros. Nunca soube se isso era bom. Talvez por momentos demasiado curtos tivesse acreditado que sim, que era bom. Tentava de tudo para por a vida direita mas saia-lhe tudo muito torto, diria mesmo que demasiado torto. Houve um dia que se foi embora como uma tempestade, fez muito barulho, gesticulou muito, culpou-me de todos os erros que ela própria cometeu, chegou mesmo a dizer que eu era culpado de um dia ela se ter apaixonado por mim. Quando saiu de minha casa, apertou o meu coração com a selvajaria de quem não tem pena, como um furacão que passa insensível e destroi tudo até sussurrar numa acalmia. Que sossego!

domingo, setembro 07, 2003

O tempo dos sonhos

Acordo no teu rosto, os teus olhos na minha boca. Soluçar umas palavras pela manhã, a voz presa do cansaço, do teu corpo. O teu olhar sereno e o contraste da tua maquilhagem esborarratada, o negro a sair do verde dos teus olhos. Abro a portada para deixar entrar a manhã, a janela para recuperar o ar queimado no ardor do sexo. São as últimas horas que passas aqui. Não o sabemos, mas no ar o silêncio já o pronuncia. Volto a deitar-me contigo, os corpos ainda quentes, ainda muito quente a desafiarem o frio da manhã que irrompe da janela aberta. A vida acorda a nossa volta, nós ainda mortos, do cansaço do amor, da noite por dormir, de nos perdermos na imagem de uma lua redonda. Conto-te histórias nos teus cabelos, histórias vividas tempos antes, histórias inventadas de um futuro que tudo fará para não se cumprir. O futuro contra mim, contra nós. É essa a luta, tu também sabes. Que o tempo se saboreia no tempo, no tempo todo em que os sonhos ainda são possíveis. Não muito depois, tu já cá não estás.

sábado, setembro 06, 2003

A rapariga e as flores

Deve ter sido uma saudade bruta aquela, porque de repente foi tomado por uma vontade imensa de oferecer-lhe flores. Uma por cada dia que não estiveram juntos como se fosse uma compensação divina ou mesmo que a ausência e afastamento um do outro pudesse ser compensada de alguma forma na essência de um conforto material ou um carinho na alma. Nem mesmo era possível contar os dias que se perdiam no tempo disperso e confuso dos dia, nem havia assim tantas flores na loja. Não se importou. Não valia a pena zangar-se com o mundo. Foi o que pensou, a olhar para a empregada da loja ainda incrédula com o seu pedido. Muito tempo não estiveram juntos, tinha agora a certeza. Continuava a gostar dela com o mesmo carinho, com a mesma sensação de que a água dos sentimentos escorreria ainda como um rio sobre o seu coração. O tempo demora a passar sobre as pedras, é uma erosão que só faz cócegas. Havia sempre um sorriso no coração dela bem mais poético que uma desculpa. Escreveu-lhe uma carta em papel cor de rosa sem intenção. Era o único papel que tinha por perto. Gostava destas coincidências. Faziam-no acreditar num qualquer acto mágico. Um acaso é uma demonstração metafísica, pensou. Às vezes o mundo bate certo na sua engrenagem esquisita, disse-lhe a ela. Faz muito tempo que não conversam, faz muito tempo que a voz não se faz sentir, que os olhos não pousam sobre os mãos como mãos inseparáveis dos dedos. Embora continuem a falar da mesma maneira. Sempre a tentarem perceber o mundo mas sem se explicarem a si próprios. Só pode ser assim, dizem um para o outro. Já não se envolvem. O que é bom. Ficavam sempre demasiado perto e ao mesmo tempo demasiado longe. Ele de um lado da margem de um qualquer rio imaginário e ela da outra. Ficam bem a passearem um de cada lado. Às vezes o rio estreita e podem dar a mão, mas só por dois ou três passos. Está certo que seja assim.

quinta-feira, setembro 04, 2003

A rapariga da praia

Ia para casa sem destino a pensar no sentido da vida. Passava muitas noites em claro. Dormia pouco por causa da ânsia de querer viver muito e morrer depressa. Uma noite sob uma lua indefinida cima passeou na praia. Deu a mão a uma rapariga. Andaram de onda em onda gladiando-se com uma maré que os empurrava para a praia. Ele tentava salvar-se do naufrágio que se tornara a sua vida. A rapariga parecia uma âncora, pensou ele. Tirara-lhe o coração da deriva louca e sem rumo de um mar de sentimentos confusos e errantes. Descansaram os dois um pouco, sentados sobre uma rocha, abraçados os dois com os olhos postos no infinito da penumbra da noite frente ao mar. Ele olhou por algum tempo o rosto calmo dela. Era mais bonita do que um convite, do que a porta de um quarto aberta. Falaram de carinho e de outras tentações, mas nunca de amor. Se fizeram amor era porque não arranjaram outra maneira de o dizer. Mas não importava ser assim. Nunca quiseram saber o que faziam quando não estavam um com o outro. Eram bons os momentos que conseguiam estar juntos e isso, era por si só, um exagero. Uma felicidade demasiado grande. Podiam viver juntos se quisessem. Tinham um quarto alugado onde tantas vezes se encontravam. Nunca nenhum deles teve essa intenção. Não viviam um com um outro, mas não podiam viver um sem o outro. Estava certo ser assim, pensava ele. Dizia que ela o tinha sarado de muitas dores, que não tinha sido preciso salvar-se no corpo de muitas mulheres. Que tinha bastado o dela. Às vezes sorria quando pensava nela. Nunca pensava porquê que sorria, mas também não o tinha de fazer. Só queria saber se ela estava bem, mas jamais lhe perguntou. Sabia que quando estavam juntos estavam bem os dois. Uma sintonia que o fazia vibrar como a corda agitada de uma guitarra. Isso era já de si um bom consolo. Nunca pensou o que ela era no seu coração, agradava-lhe apenas pensar que ela estava lá sossegada como estavam muitas outras coisas. A importância de isso ser assim não fazia sentido, mas ele deixara-se de se importar com a razão das coisas, com os motivos complexos que a natureza lhes escondia. Bastava-lhe essa caricia que era tê-la no coração.

segunda-feira, setembro 01, 2003

Regresso

As férias já se foram e o primeiro dia de trabalho não me deixa grande ânimo para a escrita. Vou repôr a informação de como anda o mundo. Presumo que não tenha mudado muito, tudo questões de pormenor, as grandes notícias sabem-se logo. Vou confirmar.

terça-feira, agosto 26, 2003

O Cupido Apaixonado

Cúpido, porque choras?

Sempre de vi tão feliz, que névoa triste poisou sobre ti e te fez parar, impossibilitando-te de bater as asas e vibrar na melodia intrigante de tuas canções? Tu criatura alada que me fizeste feliz vejo-te agora assim e sinto, sim, sinto que sou eu também que me afogo, que me amarelece o meu rosto de dor profunda, que também estou eu sofrendo dessa doença nostálgica.

Cúpido, porque choras?

Tu que me atiraste uma seta e com ela, apesar do sangue que jorrou, fizeste a minha intensa felicidade. Tu que me inebriaste com o melhor dos vinhos, que me tornaste imortal no pensamento da que amo e que me ama. Tu que me deste tanto, que posso eu fazer por ti? Pede-me tudo, quero ser eu a cumprir o teu desejo, farei a viagem mais longa pelos desterros do mundo, roubarei e matarei se necessário for para ter de volta o teu sorriso mágico, para ver de novo as tuas asas baterem, tão hábeis, tão rápidas e felizes como uma pequena libelinha no seu vôo livre da manhã. Quero ouvir de novo o som do teu arco, ouvi-lo de novo a vibrar como uma harpa, e depois, depois ouvir aquele som seco e brutal da seta a cravar-se na carne, cada vez mais dentro, mais adormecida no interior do corpo e ver então os amantes sorrirem, felizes.

Cúpido, porque choras? De que necessitas tu?

- Devolve-me a tua, a minha última seta?

segunda-feira, agosto 25, 2003

Recorrência

É engraçado como esta frase escrita em 1992 tem uma recorrência extraordinária na minha vida:

Já consigo, em paz, olhar o verde.

Vem

vem. o amor existe, eu sei e já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal, que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos um do outro ou mesmo do mundo? vem. vai ser o amor a contar uma história, eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse, como se ao primeiro toque com qualquer coisa essa doença nos tomasse. foi só preciso um sinal claro dos teus olhos e eu não resisti. por isso digo. vem.

o tempo

faz tempo que procuro sangue novo na lua. a lua todos os dias sabe que o sol nasce nas palavras
mas raros são os dias em que a lua sonha. agrada-me que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. o tempo arrasta-se na baba do caracol, mas o caracol não sabe nada do que está para trás. o passado é apenas grão pronto a ser desfeito na mó do teu coração.

Hospedagem

Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que se espalha no vento, arranha as abraçadeiras lassas do meu coração.
Procuro a verdade nu tapete de seixos maduros. Por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência de uma noite, de qualquer fruto. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou.
O nevoeiro é um tear onde se tece a pele, o embrulho esfarrapado das nossas veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo que conservo com carinho. Podes ser tu, ou qualquer coisa sem guarida.

sexta-feira, agosto 22, 2003

Um verao cheio de ti

este foi o primeiro texto que escrevi nestas férias. precisa de umas revisões, com o tempo amadurecerá...


foi um verão cheio de ti. um verão cheio de luz nos teus olhos. cheio de conversas que imitavam palavras escritas. foram cartas escondidas em silêncios desbravados numa praia. as rochas que saltamos, os pés que molhamos cresciam como memórias que não morriam. foram grãos de areia contados entre o indicador e o polegar, a ampulheta do tempo a imitar o bater do coração instalado nos segundos do verdadeiro tempo. foram longos os passeios que destruiam a tarde, que subjugavam o pôr-do-sol até nos perdermos na noite. foi o orvalho que tombava nos teus olhos de riso, o humor da minha alma patética como um elogio terno. foram de novo as palavras, agora sussuradas aonde dormia o silêncio da noite. foi a boca no ouvido a escrever segredos nas orelhas, adornos ainda mais reluzentes que brincos de prata na ternura da aurora. foram textos de intimidade no diário de uma só noite. foi de novo o sol, foram de novo dias como outros dias, como os dias que se seguiram. foi de novo a praia, o sol que queimava o teu corpo cada vez mais queimado, foram os olhares que regressavam em vagas de timidez. foram os toques na pele as feridas que ardiam depois das despedidas. foram os momentos em que ficava sozinho, a escrever, a escrever-te cartas imaginadas que se perdiam nos sonhos e não regressavam. foram as histórias embriagadas no final da tarde, foi essa tarde que mais uma vez se perdeu na noite, nessa noite que na praia, junto ao mar, te abracei o tempo todo que ousaste permitir. foi uma noite toda embalada nos meus braços, os segredos eram silêncios transmitidos boca a boca, as palavras saliva enredada no céu estrelado da boca. foram palavras estrangeiras trocadas no dicionário dos dedos, traduções de dialectos na brincadeira de duas línguas. foram noites cada vez mais silenciosas vividas na câmara escura dos olhos. trancados nas paredes finas de pálpebras, falavamos com as mãos nos cadernos escuros do corpos. foram noites de textos longos que só falavam de prazer. foram prazeres que foram repetidos no final de noites, no final dos dias, e dias seguidos, em dias consecutivos, no próprio dia as vezes que a alma queria, e o corpo lá ia e vinha cada vez mais escrito de memórias que não iriam querer morrer. foi a noite que choveu, qual diluvio que te levasse, qual chuva que te molhava os olhos de dor, que te escondia o sorriso num abraço dado na alma. foi a chuva que te levava, que extinguia o verão. foi a chuva nos meus olhos quando te vi partir, por detrás de um vidro que te levava, pingado de dor que escorregava por esse mesmo vidro que te levava cada vez mais longe, cada vez mais longe, cada vez mais longe...

San vicente del mar, 18.agosto.2003

Combate

Ontem enquanto aguardava o início de uma sessão de "home cinema", debati-me com o pesado adversário João Pestana, escusado será dizer quem ganhou, não vi filme nenhum.
São estas situações que me fazem lembrar da nossa condição primordial de seres animais antes de uma qualquer pretensão racional.

quinta-feira, agosto 21, 2003

Vicios

Dizem-me agora durante a minha incursão diária pelos blogs "Viciada!" ao que eu respondo "Como não fumo..."

Escrita

Afinal escrevi muita coisa estas férias que ainda vão a meio. Como escrevi na forma tradicional do papel e caneta tenho de arranjar um tempito para dactilografar tudo e então poder pôr aqui.

Trocadilho com pensamento pornografico incluido

Descobri um bar onde tocavam jazz de qualidade num sitio que apesar de lá ter passado muitas vezes nunca tinha reparado que era o unico sitio com animação do sitio aonde estava, uma terra sossegada no norte de Espanha, ao fim de umas quantas cañas pedidas sempre a mesma empregada e estando eu sozinho era natural que surgisse alguma conversa, nada de especial que se registe, a não ser quando eu digo que me vou embora e ela:
- Y mañana? viente mañana!
O bom senso impediu-me de dizer em alto e bom som:
- E Hoje? Porquê que não pode ser hoje!

Lembrando Hemingway

Enquanto tomava um café solo e uma cervejita na esplana uma rapariga na mesa ao lado pergunta-me:
- Siempre te miro acca escreviendo. Eres escritor?
- Me divirto escriviendo solo eso!
- Lo veo, cañita en la mano y por veces, una sonrisa. Ya lo habia reparado.
No dia seguinte lá nos encontrarmos na mesma esplanada e depois de um cumprimento de olhar, ela pergunta-me:
- Oye! Hemingway de la cañas, tienes fuego?
Pois é o absinto já não está a dar.

Ham?!?

- Porque é que às vezes ficas com um olhar estranho e distante? Em que pensas?
- Em nada. Sou eu que tenho uma alma triste e às vezes sou assaltada pela tristeza.

quarta-feira, agosto 20, 2003

Back to bussiness - acabaram-se as férias

A Espada está entupida de posts sobre férias, quanto horas e minutos faltam para as férias, o espectáculo que vão ser as nossas férias, os banhos que vamos tomar, a loucura que vão ser as nossas férias, o sol que vamos gozar, férias, outra vez férias e ainda mais férias.

O que não deixa de ser altamente deprimente para quem lê e que, com elevadíssima probabilidade, está a trabalhar. É o meu caso. Volto de férias e que encontro eu na Espada? Encontro, apenas e só, posts sobre férias futuras.

Não querendo minimizar o entusiasmo de quem ainda vai gozá-las, o certo é que as férias, tal como as praticamos hoje em dia, andam um bocado paradoxais.

- Para podermos descansar 22 dias úteis (isto para quem pode), andamos um ano inteiro a cansar-nos.

- Trabalhamos para o bronze durante duas semanas seguidas. Depois, em quatro ou cinco, ficamos todos esfolados e voltamos à coloração anterior.

- Passamos quinze dias a comer faustosamente e a beber alarvemente. Quanto voltamos, as calças não servem e vamos a correr inscrever-nos numa qualquer actividade desportiva.

- Ao longo do ano, temos pena de não poder passar muito tempo com as (os) namorados (as), maridos e mulheres, filhos e filhas. Nas férias, não raramente ficamos fartos de os aturar dias inteiros.

Isto só para citar as contradições mais evidentes. Mas não vale a pena ver as coisas pelo lado negativo. O certo é que também foi por estas e por outras que se inventaram os fins-de-semana, os protectores solares, os ginásios e as férias «à parte».

Boas férias (que eu já tive). E cuidado com o stress pré-estival.

Ritmo

Faltam três dias para ir de férias e já estou no ritmo! Nada melhor que viver no limiar dos acontecimentos, cresce a expectativa e não chega o momento.

A ti sempre

Penso no meu carro que te vai visitar e eu não estou, lembro o quanto queria ir, o desejo de já lá estar e o ter de aqui ficar. A minha vida segue o ritmo cadeado deixado pela tua existência. As lágrimas que me descem no rosto são a minha procura de ti. O meu suspiro não é mais do que um intervalo que faço na vida em tua homenagem, é a melhor forma que tenho de comungar contigo agora. A felicidade que vou encontrando hoje é um brinde a ti e às tuas pacientes lições de vida que me davas. A ti, sempre.

Altivo

Olho para ti, e vejo a dignidade ancestral inscrita nos teus traços. A tua postura, o teu olhar e pose são motivo da minha profunda admiração. Fico sempre surpreendida como as tuas potêncialidades podem ser admoestadas pelo carinho que tens por nós. Muitas vezes enquanto te admiro penso o quão fácil seria para ti impores a tua vontade. Mas logo fico embevecida com o teu doce olhar e carinho enquanto te faço uma festa.

Percurso

Na nossa existência temos de ultrapassar um determinado caminho para terminar onde deveriamos. O mais estranho é que todos temos de percorrer uma direcção tão distinta uns dos outros. Quem nos faz tão diferentes? As nossas escolhas ou as nossas vivências?

terça-feira, agosto 19, 2003

Reviver o passado

Existem vivências que parecem pertencer-nos de outras vidas, às quais atribuimos uma linha de seguimento de tempos passados. Mas será mesmo assim? A nossa vida será constituida por repetições do já vivido? Não temos direito a partir do nada e construir um todo novo?
A melancolia que hoje me assalta faz-me pensar nisto.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Work, work, work

Ainda tenho mais uma semana pela frente antes de seguir para férias.
O fim de semana foi muito bonito, o norte tem muito encanto e a ilha de La Toja merece a visita com uma atenção mais cuidada.
Bom, por agora tenho de continuar com o trabalho, só não podia deixar de enviar um post!

quinta-feira, agosto 14, 2003

E´ Hoje

A partir de amanhã e até ao final do mês é provável que não aja mais posts por aqui. Da minha parte claro. Levo o meu caderninho para o que der e vier. Normalmente dá para fazer peso. Mas pode ser que uma súbita visão, tão bela como a que vi ontem, me abra o apetite.... de escrever.

Preferencias

Quase toda a gente elege os seus sítios de preferência sejam eles o café, o talho, ou a padaria. Cada um terá as suas razões, por certo, todas essas opções serão muito plausíveis. Mas pouco terão, como eu, uma caixa multibanco de preferência. Pois bem, eu tenho uma desde ontem. Ideias que a mente masculina tece.

quarta-feira, agosto 13, 2003

Snif, hum, ha!

Existem músicas com cheiro, não acham?

Viva o ocio

Este era um dos meus lemas de vida favoritos (enquanto teenager encadernava os livros com fotos e esta frase) o que dava um gozo especial aos machos da turma, faziam sempre o trocadilho - Viva ó cio Brisa?- claro que eu nem me dignava a responder. O meu olhar condescendente dizia tudo, é preciso ter um grande conhecimento de causa para retirar o verdadeiro sentido à frase. E eu tinha-o. Adoro ficar sem nada fazer, só a olhar para nada.
O que pode ser melhor do que expremer um modo de vida a uma frase?