quinta-feira, março 25, 2004

De pensar as palavras

Falava com uma certa angústia, saiam-lhe palavras azedas pelo céu da boca mas não ligava a esse paladar amargo que lhe ficava sobre a língua. Era uma linda boca – alguém pensou. Falava com o desprezo que a estranhos se dá, com o olhar gelado desse tom frio e azul que longamente espreitava. o infinito. Eram uns lindos olhos – alguém pensou. Falava como só ebriamente se fala, num rodopio louco de palavras e nem se apercebia do seu discurso. Sincero. E que tão ingrata seria a indiferença. Que linda sensação - alguém pensou.

De recordar o amor

este amor confuso que erra sem destino, tanto é o medo do amor. amor, o amor ainda receia amar. esse passado recordado que perturba sempre, e são tantas as mágoas. ainda recorda a dor. o amor, esse acto preferido que os amantes procuram. tanto é o prazer, mas amor, ainda prefiro amar. nesse tempo guardado que a memória relembra. são tantas as recordações, amor, ainda guardo lembranças...

o amor ainda escreve:

que o amor que sente é impossível de se fazer esquecer. que é essa a dor. que sentiu o sofrimento, esmagador, de tão cegamente amar. e que essa é a sua fuga. e ainda diz: que ninguém lhe merece... amor. de tanta ser a maldade lembrada. que essa é a verdade. e diz, que amar é interdito, agora, por outros amores lembrados. que é essa a sua confusão.

...

As palavras? Perdi-as. Os gestos? Esqueci-os... A saudade? Quem me dera ainda saber como é.....

quarta-feira, março 24, 2004

terça-feira, março 23, 2004

Poema à rapariga que não era poesia II

A história tem teu rosto gravado no projecto da memória. Tu cativas mas não comoves. Julgas que a poesia faz milagres, que os sonhos podem ser sonhados mas, repara: a realidade não é apenas fruta podre que se engole. Tu, rapariga nua, despiste a poesia do teu corpo e vives agora apagada de deslumbramento, uma sombra de desilusão. Tu, rapariga nua, perdeste as palavras que cobriam teu corpo, adjectivos que se colavam à tua pele e te adornavam como uma rainha.
Deusa lírica da epopeia do amor, tu, rapariga nua, és uma velha estrela ainda cintilante mas vestida de um brilho apagado, à custa dos versos sumidos, dos poemas amarrotados, do lixo em que te transformaste.

poema à rapariga que não era poesia

quem faz uma frase faz tua a canção. curtos e tresloucados versos são teus cabelos com rimas redondas no canto dos olhos. quem faz um verso faz tua a sedução. a tua simpatia afável livre como as palavras, a sonoridade marcante do lirismo do teu corpo. quem faz uma estrofe faz tua a paixão. cativar e comover, essa pretensa poesia de deslumbramento e desilusão - o verdadeiro teatro. quem faz um poema faz tua a decisão. nasce morto o amor, morre viva a paixão, enfim o prazer saciado em teu corpo de palavras nuas.

Memórias

-Antes o sol punha-se ali...
-Para mim, o sol põe-se ali, numa casa com um terraço, onde te vejo desaparecer todos os dias...

sexta-feira, março 19, 2004

Feliz Dia do Pai... ;)

A um pai
*
É um Pai o calor de toda a frieza,
O despertar suave do mais leve dos sonhos;
O doce no amargo, mais meigo na dureza,
Andar sem receio de fechar os olhos.
*
Ter mão na dor, suficiência na calma,
Amar acima da razão do ser
Beijar um rosto como quem beija a alma,
Ter Pai é ser rei, mesmo sem o saber;
*
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior...
Mas um Pai tem o orgulho de ser superior
Ao falar aos outros da experiência vivida...
*
Traz no rosto a memória do que entrou mas não sai,
No olhar a alegria de ser chamado Pai,
E no peito a saudade, o lado triste da vida...
*

Ausencia

Eu gosto de falar dela, de contar as suas aventuras. Gosto de envaidecer as suas qualidades, de brincar com os seus defeitos. Gosto, sobretudo, de a recordar, de a ter comigo em todos os instantes. Nem sempre posso estar com ela, e isso impele-me a falar dela, ou então como agora, de escreve-la, de retrata-la por adjectivos, que é o mesmo que esculpi-la de uma outra forma que não a física. É o poder das palavras, esse poder que as palavras têm para despertar imagens, que me faz falar dela, permite-me subtrair a sua ausência.

O toque

Ela poisou a mão no meu peito. Fê-lo somente com o desejo de me cumprimentar. Não chegou a ser o toque fascinante da carícia. Mas apesar de ela apenas me ter tocado no peito, tocou-me muito mais fundo, e talvez… de uma forma bem mais fascinante. Tocou-me na memória.

quinta-feira, março 18, 2004

às vezes é preciso pensar

Com os meus resumidos 17 anos, vejo que já aprendi muito com o amor.
Aprendi a pensar em mim própria antes de me lembrar dos outros.
Aprendi que não pode haver expectativas porque corre sempre tudo ao contrário. Que não se pode ter esperança nem sonhar porque acaba por nos partir o coração. O sol também se apaga e a Lua perde o encanto quando estamos assim.
Aprendi que os beijos, o roçar de pele e o calor do que nos une acaba sempre por chegar ao fim, mas as palavras ficam para sempre no peito de quem as ouve.
E no arrependimento de quem as diz.
Aprendi que os horizontes que avistamos juntos são imaginários e mais tarde parecem-nos tristemente ridículos, que o mar passa de vasto a inútil e que a vida é muito mais curta do que pensamos saber.
Que todas as lágrimas são em vão e todas também acabam por secar.
O tempo não cura tudo, longe disso, mas traz-nos outros pontos de vista.
Aprendi que o orgulho, ou pelo menos a dignidade, são o mais importante e tudo o que nos resta no final.

...

"The days are bright and filled with pain
Enclose me in your gentle rain
The time we ran was too insane
We'll meet again, we'll meet again..."
(The Doors)

sexta-feira, março 12, 2004

...

A gente com peste e a raiva cega dos cães
os esgotos aldrabados
meia laranja cortada na areia
na praia: uma balada

Frase Conclusiva: E Eu Proprio Tambem, e Alias Bem

Quando o pano cai e a nódoa fica
neste fim teatral desta farsa carmim
tom de carne rosada disfarçada de teia
e aranha estranha de vida estragada
Predador e caçador da urbe capital
dos pecados amaldiçoados dos cegos da fé
em cafés sóbrios de gente ébria
e um tudo quase nada mal exigente do bem
na sua homogénea de um ténue radicalismo
de aparências e ares artificiais
a gente quase ébria da loucura latente
que pensa e sente como quem não o faz
nesse juízo incapaz de ajuizar
e perceber o erro crasso que fazem
sem saber, que eu não me esqueço
da maçada desta farsa teatral
de gente que ri tão só por fora
as tristezas e avarezas interiores e em si
25maio90, 11h15mns.

quinta-feira, março 11, 2004

passos ao luar

Sentada na minha pedra, vou desfiando lágrimas ao luar
e escuto o que ele diz.
O mar é calmo hoje, tem todas as tuas qualidades
mas também os teus defeitos,
e quem me dera ser poeta para os poder descrever.
Desfolho pétalas de uma rosa antiga
e desfolho segredos também.
Ninguém me ouve,
que importa?
Só os passos do luar me acompanham
e tu já não estás comigo.
As palavras perdem-se assim, e tanto tu como eu
já não sabemos delas...
As lembranças que caminham por aqui roubam passos ao luar
a quem os dá
e não tenta viver sob uma estrela.
Os astros são sempre assim, frios
(também a tua existência continuou sem mim,
eras o meu sol),
resta um marulho lá no fundo que permita recordar...
Dói-me a alma
e a coragem que não tive de ser feliz.
*

mais uma vez sem título...

Foi sal em vão todo o que chorei
Por ti, por passos que acabam no chão
Por marcas de sonho e saudade onde andei,
Por gotas que me desfolham a fragmentação
*
Foi trilho de mágoa, sem pedaço de céu
Espada que aos teus olhos quase me obrigou
Entrego ao luar o que a minha dor perdeu,
Vou chorando com o mar tudo o que me marcou
*
E quanto mais choro mais o meu mundo cai...
Os passos do luar que de mim já não sai
E o beijo na sombra que o teu tempo me deu...
*
Tentei alcançar o espaço sem mar,
Mas a cor do céu no instante a acabar
E a lágrima que fica p'ra sempre, sou eu...
*
Catarina Inês

quarta-feira, março 10, 2004

KelkeXosElektroNiK

Depois de uma ausência prolongada o KelkeXOse volta com uma nova mistura desta vez dedicada a momentos menos ritmados. Uma sessão Lounge para ouvir até ao inicio da Primavera.
Para ouvir o link está no lado direito.

Playlist:
01. Brandi Ifgray - Stranglehold [4:52]
02. Aqua Bassino - Time To Go [7:36]
03. Miro - Emotions Of Paradise [7:58]
04. Troublemakers - Too Old To Die [4:39]
05. Sven Van Hees - Seasonal Bounty (Smooth '94) [4:45]
06. The Amalgamation Of Soundz - Enchant Me (Original Version) [6:23]
07. Butti - Brasilikum [5:08]
08. Lais - Dorothea (Buscemi Remix) [4:16]
09. Gabin - Terra Pura [5:16]
10. Gare Du Nord - Tune Up [5:18]
11. Miguel Migs - One [4:44]
12. D-Note - D-Votion [7:02]

terça-feira, março 09, 2004

Já não vale

Já não vale olhar para trás
Já não vale sequer o prazer de recordar
Já não vale mais nada; a não ser a razão de não se objectivar

Sou como uma metamorfose surrealista e as minhas palavras, uma osmose de não sei quê

segunda-feira, março 08, 2004

Tales of Oblivion.03

I surrender myself to your knees, it is an entire jailed sun in your sight that bends me down. In that time a forget the honor as I fall in the abyss fulfilled of shyness. Next second all is forgiveness, and I restart to dare you.

Entrego-me a teus pés no momento da procura, é o sol inteiro aprisionado nos teus olhos que me verga. Num instante esqueço-me da honra e tombo no abismo da covardia o meu olhar. No segundo seguinte já esqueci, e recomeço o confronto.

quarta-feira, março 03, 2004

Conversa entre amigos

Transcrevo com o devido consentimento um pequenissimo excerto de uma conversa que tive com uns amigos.

- Ó pá, acredita... Eu não ando lá muito bem.
- Só tenho de acreditar, em menos de uma hora de conversa, já utilizaste expressões como "ando com o coração ao pé da boca", "tenho o estomâgo colado às costas" e "parece que tenho a cabeça a funcionar nos genitais"... não admira.
- ah, ah! Já vi Frankenstein's com melhor aspecto.

terça-feira, março 02, 2004

Tales of Oblivion.02

All the times I hold my thoughts away from you, your blinking eyes are calling me to your mouth. Smiles swirls like a carrousel in a mighty fair, and I as the clown lost in the Mirror House. Sometimes, I forget you. It's a painted trail wished and in permanent drink drawed, but it only lasts a little yearn.

De todas as vezes que os meus pensamentos fogem de ti, os teus olhos reluzentes parecem chamar-me de novo para a tua boca. Os sorrisos rodopiam como um carrossel de uma feira popular, e eu o palhaço na casa dos espelhos. As vezes, não me lembro de ti. É um negro que eu queria riscado a tinta permanente, mas que dura apenas a fracção de um suspiro.

segunda-feira, março 01, 2004

Tales of oblivion.01

When the sun sparks frostly through the wide window who exposes my body to the cold, is when your beauty appeals me most. The images unstable as leafs falling down thru oblivion. The cells are dying in me as they are being done of use, the use of leaving you inside my eyes.

Quando o sol raia numa manhã gelada e da janela aberta com o corpo exposto ao frio é quando mais aprecio a tua beleza. As imagens não ficam e são perenes folhas outonais destacadas da árvore do esquecimento. São células que morrem posta a sua última utilidade, a de eu fechar os olhos contigo lá dentro.

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Silêncio

O silêncio é muito relativo, mesmo quando é uma espada gélida que corta a meio uma conversação.

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

...

Entre os lírios entreabertos e a verdejante doçura do brilho celeste, abre-se a áurea colmeia de sonhos e morre lentamente na boca o sorriso. Entre a fraternidade esquecida dos beijos e a colmeia de hexagonos doces, derrete-se em mel a luz e posso querer compreender, compreender acima de tudo a loucura patente.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Conversas

Extracto de uma conversa que ouvi nesta noite de Sábado.

- Não achas que ela é um bocado novinha para ti?
- Isso passa-lhe.

Não há dúvida o tempo cura tudo.

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Se soubesses o quanto eu vejo para além dos teus olhos, já há muito me terias cegado.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Horizonte

olho o horizonte de uma viagem esquecida, são recortes por entre as montanhas onde são abruptos os pontos de ruptura. peço-te, vem. talvez ignorando o meu nome, o meu rosto, vem irada, vem confusa e mesmo se estiveres perdida, vem. e esquece o teu passado, e esquece a tua ira. encontra-me e corresponde; ao olhar com um beijo; à palavra proferida com a mão dada e amor... acima de tudo. terás o meu poema junto à cabeceira como uma carícia. vem, vem mesmo que eu tenha partido, mesmo que isso signifique regressar a ti depois de te ter perdido no tempo das procuras. eu que era incapaz de controlar ânsias. mas peço-te, regressa. com outro nome, outro rosto. traz só uma mochila às costas, carrega pouca coisa, traz poucas recordações - não te esqueças do humor. traz o poema que ignoravas ser meu, e encontra-me. não no fim do tempo mas no princípio de uma qualquer viagem.
26.Fevereiro.1995

terça-feira, janeiro 27, 2004

As Pedras II

Essa pedra na tua mão, tão pequena e tão redonda do tamanho da palma da tua mão, tens mais pedras para atirar? Essa pedra na tua mão, tão inocente e tão presa na força que fazes, é a mim que a vais atirar? Essa pedra na tua mão tem uma mancha marcada com sangue vivo e brilhante, foi essa a que te atirei?

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Corri

Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. Corri a mão sempre amena na boca, no peito, até apertar com a força do escândalo a tua barriga de mulher grávida. E corri de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do teu sexo, repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar a todos os olhos de outros. E no teu útero, como um toque divino,
fiz nascer-te em amor para mim.
09.Janeiro.92

quinta-feira, janeiro 22, 2004

O meu grito de amor

O meu grito de amor é como um salto no escuro da tua timidez. Tenho os teus segredos no meu baú, hás de acreditar. Nos beijos que negaste terás o teu desejo mais pueril. Na alma que desleixaste descobrir estará o elixir da tua felicidade. Hás de rogar e pedir a branca pomba esvoaçada, a minha mão estendida de amigo - minh’ alma desacreditada. Hás de sonhar até a perda do meu afecto, pedir de volta o olfacto, a carícia do meu perfume. Querer os beijos do meu amor, trocar lágrimas por sorrisos meus e amar o amor que distribui, que doei, em carícias mutiladas d’ amor.

O meu grito de amor é como a coragem esquecida dos beijos.

Se silenciar a minha boca ou se calar o meu olhar, mesmo que isso não toque o gesto, será sempre impossível sobre o frio do teu olhar sentir o calor do meu desejo. Sempre covarde e sempre tímido, sempre complexado e retraído; (a mais ingénua imagem do meu corpo deixa de transparecer no reflexo da tua imagem; está para sempre calada no teu sorriso, para sempre fechada na tua boca bela)

O meu grito de amor requer mais do que apenas desejo.

Este pensamento em bruto como um diamante não lapidado, só pensa na urgência,
nessa urgência que existe no medo, nesse medo da saudade por onde caminham distâncias longas. Em fiadas infinitas de cordas, nós de medo, de esperança
como que feitos de uma fé latente percorrendo em contínuo o terço. A religiosidade do temor. A irrepreensível saudade.

O meu grito de amor já prescinde da tua voz

A mente, porque a reteve - a tua voz, essa voz memória que é tua, só tua, é uma condição de especiaria como um açúcar para um doce.

O meu grito de amor largou a agonia e o vazio do meu corpo, ecoou para o exterior como um estertor. A minha pálida alegria esvoaçada. E para sempre há de doer
o seu som, em ti. Ou pelo menos, no dia em que o escutares.

Sete x

Um. Um presente envenenado: uma caricia simples fluida de água e um beijo rápido em boca inocente como uma semente não germinada num jardim recente.
Dois. Um dia após só lágrimas, só caricias a envelhecerem, talvez o começo de tormentos em mares azuis... ou sonhos perseguidos por detractores.
Três. Flores desabrocham entre espinhos como rosas oferecidas e despojadas em lixo; uma terra estragada em coberturas de rosas, talvez um jardim germinado a cansar-se, a esgotar-se em lágrimas.
Quatro. Um aniversário de descobertas, um reencontro merecido. Lágrimas reaquecidas na boca do céu. Estrelas gastas num céu de lama e beijos pedidos e não rejeitados.
Cinco. Uma desgraça imprevista; o gesto do beijo - uma traição. Um amor oferecido e outro rejeitado. Amor, fez-se amor na mente. Calcou-se o jardim,
maltrataram-se as flores, choveu, sempre a chuva ácida, o ácido das lágrimas sobre nós a queimarem-nos em labaredas como amor a criar ódio.
Seis. A morte do encanto; a estratégia do fim ou a morte da sensualidade. O jardim que recusa renascer, talvez o tédio da previsão acontecida.
Sete. Uma história por escrever... talvez um apartamento a construir-se
sobre um jardim outrora florido.

terça-feira, janeiro 20, 2004

O Favo

Ela reluziu o espelho azul nos seus olhos, incendiou-lhe os olhos, sempre os olhos; em chamas vagas de amor, de cortesias bem simuladas. Reage com a pele ao seu tacto, sempre a pele; toques suaves. Resta-lhe um pouco de felicidade... ainda… de derrota em derrota derrotado, a tentar almejar a luz rutilante, em beijos e ternuras cansadas. De sempre a sempre, beijos beijados em bocas de mel… boca de abelha. E retirou do seu corpo - como se de um favo fosse - o açúcar em fusão… derretido; em calores de fogo. E no seu corpo – o favo amado - soube lamber o xarope, a geleia açucarada como se bebesse no seu sexo apenas a lágrima de ontem. O seu passado de dores e desventuras desfiguradas - a fogueira - o seu corpo em fogueira doce aonde ele se despede da recordação.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

O Banho

Quero lavar-me em lágrimas e deixar para ti a minha alma limpa. Retirar o pó escuro de recordações passadas e dos bocados dispersos dos remendos de um coração. E nessa água de lama, nessa mistura viscosa de decepções que não se misturam no correr límpido do tempo que, ainda disperso, já é nosso, adorar as canções dos teu suspiros de mel a escorrer pela parede táctil do meu rosto. Amar a vibração tépida dis sons de África; o ribombar do teus lábios a baterem eufóricos sobre os meus, pateticamente trémulos e desejosos. Acordar de manhã no lugar que agora sonho e nessa ilusão de te ver difusa, perder-me na inconstância do passado, tão sujo, mas que eu limpo suavemente agarrando as tuas lágrimas com as minhas. E entrelaçadas nesse querer hão-de transformar água em ácido e derreter a sólida e inamovível montanha do passado. Formando um rio que corre numa direcção serena de aleatoriedade mas carregando uma água cristalina de um sentimento nascente.

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Beco

Está escuro, um frio sibilante sopra pelo meu ombro fazendo um sussurro. Vai acontecer alguma coisa, estou rodeado numa rua estreita e sinuosa, com água correndo entre canais de pedras escorridas. Sinto-me espremido por um medo e uma ânsia enorme como se o assalto de mim acontecesse já. Já, mesmo agora antes de acontecer. Ouço passos de um chegar que me faz querer partir, mas que não saio com os pés. Colados que eles estão, tão fixos de uma vontade de fugir. Estou preparado para o assalto de mim, pelo beco estreito de só existir uma brecha que se abre numa entrega. Mais fuga que apetite de pele. Áspero e rugoso o toque na parede do sabor, um querer que arde em labaredas de um fogo já dito invisível. E eu sei que vai acontecer o assalto de mim. Não me roubes, peço-te quando chegas, quando já sei que o estreito é demasiado estreito, quando não há laterais de refúgio mas apenas a tua palavra a declamar um querer pesado e demasiado e impossível de resistir. Uma arma fria esses teus olhos que não cuidam em mim. Vais dar-te em oferenda de uma salvação inoportuna, o teu beijo vai acontecer na minha boca e esse beijo matará e morrerá na minha boca.
E mesmo que a minha boca não descreva nada do teu beijo nem mesmo no extremo dos tempos resgatados, sinto-me roubado das palavras da minha boca.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Nunca Sereia

Casa de um estranho caracol que na lentidão do tempo, com a preguiça redonda dos relógios se mostra envolvendo na sua saliva doce. São perfumes libertados por palavras e ternuras escondidas em olhos apagados de ausência. Ausência pronunciada por uma voz calada, ouvidos surdos que só amam elogios. E uma inteligência perturbadora que intimida como o sibilar dos guizos de uma cobra cascavel, ou uma cobra real que se endireita ao som de uma flauta - um encantamento que eu tentava erigir como uma obra primaveril cheia de odores e feno, e flores de molas de uma cama e um lençol; do leito de sonhos que fiz para te deitar e me afundar num paraíso secreto debaixo da água azul felicidade dos teus olhos. olhinhos que beijam como peixinhos fazendo boquinhas e bolinhas pequenas de ar, muito ar para respirar, debaixo da água da minha, da nossa, muito escondida vida.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

A circunferencia do tempo

Não era preciso perderes-te no tempo porque os ponteiros já já nada marcavam no meu interior. Circunferência da vida dos regressos não esperes do tempo a partida sem retorno. Só os boomerangs são como pêndulos e, se não voltam, é porque matam. Não foi na guerra dos tempos sucessivos que lutamos desde o começo das canções, as canções que fiz à tua porta e em tua esperança. Tu, lá dentro e adormecida sobre um querer já gasto do gosto de eu te querer. Fiz do dormente desejo do amor a mão dada de uma aliança escondida, esse convite que negaste no instante, no mesmo segundo da oferenda. Resposta faísca e relâmpago e cheia de luz, tão forte e intensa de cegueira, de raiva bruta e amor desfeito. E outra vez os ponteiros circularam sobre mim como queda em abismo de nada.

A resposta do tempo

Apetece-me esconder-te do mundo.

Parar o tempo nas nove de horas de uma das manhãs mais frias que me ocorre lembrar, a minha mão a segurar na tua sem podermos sentir o tacto da pele, impedidos pelas luvas que nos negavam o aconchego. A luz dos teus olhos entrando nos meus, no mesmo tom e brilho do céu azul e já luminoso da manhã. Parava os relógios do mundo e celebrava o momento com um beijo nos teus lábios de vermelho e riso. Se me fosse permitido. Se fosse uma vontade também tua. Mas, talvez o frio congelasse a acção e eu, não mais do que uma covardia exposta, encalhava nos teus olhos de mar. Mas o tempo não parava nem mesmo que eu forçasse um silêncio sobre ti. A tua mão fugia sobre a minha como um adeus que viria a seguir. Eu deslizava pelos segundos amarrado ainda à maré vibrante dos teus olhos de mar.

É tudo mentira.

Eu queria que o tempo corresse, lentamente sim, mas que me desses a mão ainda com mais força, que a tua mão deslizasse sobre a minha como uma carícia sem tempo nem limite de tempo. Que os teus olhos se fechassem como quando se fecham na esperança de um beijo que nos ilumina o interior. Que o beijo sossegasse o sofrer da alma como se um sol novo e de verão surgisse por dentro e virasse o sentir do avesso. Que a tua beleza me mostrasse uma outra forma de acordar. Uma outra forma de adormecer. Que o teu riso fosse um despertador do tédio do quotidiano. Que todas as ilusões que criaste em mim fossem apenas as verdades do tempo futuro, que vagueando na maré dos teus olhos de mar, deixei acovardadas na resposta do tempo de dizer adeus.

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Ai

Descobri que os chineses utilizam o termo "ai" para simbolizar amor ou afeição. Só me apetece dizer, ai ai isto não é um bom prenúncio!

terça-feira, dezembro 23, 2003

Bom Natal

À preguiçoso e poupado: Que este ano o Pai Natal deixe um Ano Novo Excelente como prenda para todos vocês. :)

sábado, dezembro 20, 2003

...

Não há acidentalmente nada a dizer
... só lamentar um prazer efémero

...

É tudo tão sem nexo e tu não o mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Estória de um mestre

Por ventura foi nesse espaço de tempo que o mestre se afogueou perante a aldeia recoberta de neve.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.

quinta-feira, dezembro 18, 2003

As tascas

Em honra de quem chegou até nós via "Bebia porque queria afogar as mágoas" voltamos a publicar esta pequena história.

Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.

Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.

Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.

Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.

Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.

Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.

Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.

Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.

Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.

Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.

Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.

Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?

Sensação Nitida

"O amor tem muitas sortes.

A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.

A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."

in "Nitida", um romance por acabar

Pensamento de um outro dia

Há tantas coisas que desconhecemos. E ainda temos coragem de acreditar no que julgamos conhecer.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

O Ciume

O ciúme. O ciúme, diz-se, é uma prova de amor. O ciúme é a experiência da perda. Por isso, diz-se do ciúme que ele é uma prova de amor. Que é um reconhecimento daquilo que possuímos. O reconhecimento da existência de um amor. A prova. É a prova de necessidade de exclusão de qualquer outra identidade numa relação. É a exaltação de uma exclusividade. Por isso, ele é uma experiência de perda. É uma vez mais uma experiência motivada pelo medo. Quantas relações já se afundaram por causa desse medo de perda? Quantas vezes esse sentimento de possessão, de exclusividade, foi tão exarcebadamente fictício que arruinou relações estáveis? Quem é alvo do ciúme, da pessoa enciumada, é alvo da desconfiança. O ciúme, em si, não é corrosivo como um veneno (ou não é ele uma prova de amor?), mas a desconfiança que ele provoca, que ele imiscui na relação é algo verdadeiramente corrosivo. Ou o amor, não é ele também feito de confiança?".

terça-feira, dezembro 16, 2003

...

Como sabes?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?

...

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Ao Porto de ti.13

maio parece querer acabar com a utopia. as palavras comidas no seu da boca, secam. os dentes sibilam uma dor branca, são corrupios de texto debaixo da frincha da porta. não tenho para onde ir. jorram palavras vermelhas na fonte do amanhã a ponto de formarem um rio de borboletas ainda presas no casulo do sentir. trigésimo segundo dia do mês de maio, já partiu o dia que sucede à mesma noite. as palavras fazem cócegas na língua do amor. saiem finalmente as borboletas no oco da boca voando como pétalas arrancadas à flor.

Ao Porto de ti.12

Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que flutua ao vento e arranha as braçadeiras lassas do meu coração. Procuro a verdade no tapete de seixos maduros; por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou e o nevoeiro é um tear onde se tece a pele: o embrulho esfarrapado das veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo: para ti, ou qualquer outra coisa sem guarida

Ao Porto de Ti.11

Nas nuvens, no húmido do ar, um sol torrado feito brasão da angústia. Nas nuvens, permanece o grão de gelo da loucura sem a forma disforme do arvoredo. Danço na folia do vento proibido enquanto o mar salva-me outra vez pela manhã. De onda em onda se repete o mandamento. A chuva tilinta nos canos do céu e eu no ralo, no redemoinho que esvai o sonho.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Descobertas

Quando não tenho um papel para apontar uma frase que me surja na cabeça, utilizo o telemóvel para a guardar. Claro que muitas das vezes nunca mais me lembro de as ir ver e vão ficando por ali mesmo por tempos infindos. Desta vez descobri esta: "O mundo é um destino cor de rosa suspenso nas brumas do teu sentir". Isto só pode ter sido escrito numa daquelas noites de desvario que só terminam pela manhã. Argggg!!!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Proximidade

Às vezes queremos encurtar distâncias com as pessoas. Queremos ser próximos. Podemos até querer ser intimos. Chegamos mesmo a manifestar as nossas intenções em palavras. Às vezes, muitas vezes, a outra parte não correponde, e nós sentimos como injutiças as outras pessoas. Sentimos isso muitas vezes, como se fossemos uma parte rejeitada do universo. Quando sentimos esse desejo, esse desejo de estar mais próximo do outro, esquecemos tanta vez que também o outro está longe de nós, que somos ambos distantes e que só o desejo não basta para preencher esse espaço que fica escuro e enevoado de permeio. O nosso desejo não deve destruir o espaço e roubar a distância de um segundo ao outro. Querer ser próximo de alguém, desejar alguém, é esse romance de nos irmos aproximando. Esse pode ser um sentido para a vida. Obrigado pela lição.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Desapareceu

Ok, pode não ser tão famoso como um cão desaparecido um dia na Lapa mas é-nos muito mais querido. Desapareceu na zona de Cristo Rei, perto da Avenida Marechal Gomes da Costa, Porto. Pesa 65 kgs de ternura apesar do aspecto imponente de um Mastim Napolitano. Quem o achar que não fique todo babado de o ter. A recompensa é a melhor de sempre, o nosso eterno agradecimento. Dá-se pelo nome de Enzo, mas podem trata-lo por Enzini ou qualquer outra coisa afectuosa. Desde já agradecidos.



terça-feira, dezembro 09, 2003

A escrita

No blog Os Espelhos Velados, um dos meus homónimos que leio com a mesma frequência em que há posts ;), pergunta-se sobre a existência da escrita: "onde estamos quando não escrevemos?". Eu por mim estou a divertir-me, desenganem-se quem julga pelos textos que escrevo que a vida é só um estado de sofrimento, a escrita sim. A escrita é um grito da alma, um bater do coração que se quer fazer ouvir. "Escrever é não querer morrer"*.

*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.

Google Search

Há muito que não verificava de onde porvinham os que até aqui chegam, desta vez um visitante chegou por "simpatias afastar amantes". Com tantos textos de amantes afastados, só podem vir enganados.

A Razão do Poeta

à C.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.

Embuste

Muito se fala da antipatia dos Espanhóis para com os Portugueses. Este fim de semana confirmámos em absoluto que este embuste só pode vir dos velhos do Restelo que ainda pululam por cá. Com simpatia e profissionalismo fomos atendidos por todo o lado. A civilidade é um sinal de progresso, sem dúvida.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Trocadilhos

Ontem, em conversa com uma rapariga que acabara de conhecer a determinada altura ela pergunta-me se me pode fazer uma pergunta indiscreta, eu respondo-lhe que sim, que pode, que na realidade até gosto que me ponham entre a espada e a parede. Ao que ela me contesta com um "relativamente a quê?". Eu só me perguntei: será que ela lê blogs?!

Odisseia: a um ou outro amor não consagrado

I
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta

II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem

III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura

IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários

V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava

VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste

VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão

VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista

IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu

X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor

XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor

XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento

XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada

XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...

terça-feira, dezembro 02, 2003

Ao Porto de ti.07

fui passear pela tarde. apeteceu-me. vi flores bonitas mas não as peguei por ser proibido.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.

Ao Porto de ti.06

vem. o amor existe eu sei. já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos nós um do outro ou mesmo do mundo?
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.

Regresso

É sempre bom voltar a casa e ver que no correio, sim aquela coisa tradicional feita de comunocação em papel, e ver que temos um bilhete que diz "Esta cidade não é a mesma sem ti" mesmo que não diga mais nada nem venha identificado. Apesar de gostar do contéudo da mensagem não gosto de mensagens escondidas na máscara do anonimato. Espero que seja só uma questão de suspense, é que gosto de pessoas que dão a cara e se assumem, sem jogos podres ou mentiras.

terça-feira, novembro 25, 2003

Ao Porto de Ti.05

Faz frio. Vejo-te andar na rua cinco andares abaixo, aprecio o teu andar. Sou um voyeur que me aqueço no teu corpo... Duras pouco na paisagem mas eu segredo-te que ainda aqui estás.

Ao Porto de ti.04

Faz tempo que procuro sangue novo na lua mas nem todos os dias o sol nasce nas palavras. Raros são os dias em que a lua sonha mesmo que me agrade que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. O tempo arrasta-se na baba do caracol, o tempo não sabe nada do que está para trás; o passado é apenas grão posto a ser desfeito na mó do teu coração.

Ao Porto de Ti.03

Não tinha necessidade disto, podia chorar com a facilidade de uma lágrima só mas o coração esvai-se na fadiga das palavras e é só um sentir desencontrado que me prende às entrelinhas donde suspendem páginas cor de rosa de sonhos desfeitos.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Ao Porto de ti. 02

Agarra-me devagar, eu vou cair. São os teus abraços que me empurram e as mãos lassas que me seguram? Estou enganado e não menos perdido, é a loucura que se esvai nos poros da alma. Sinto-me correr longe de mim, como a fuga às lágrimas que escondi nas núvens. O pé na poça, na poça escavada na estrada. A lama escorre, uns quantos grãos de terra sujos do medo. Quase sufoco no arfar do pré-choro. São os olhos que se escapam da sua orbita no ponto geocêntrico dado à fuga. Podes dizer. De qualquer maneira vou morrer.

Ao Porto de ti. 01

Já quase dentro dos teus olhos o pincel da noite fez a traço negro uma lágrima. São os teus olhos de fumo o espesso nevoeiro da minha alma, e o teu sorriso remexido na espuma alva a lama fofa do meu desespero. Ergue-se o dia por uma pitada de vento, a aragem desfaz a areia no teu corpo, esse molde imperfeito dos meus sonhos. Orgulho-me de te sentir na borda esquerda da vida, no convés torto aonde baloiça o mar, aonde cai o crepúsculo na corrida com as estrelas. Não faço desejos de ter ter, outra vez. A noite adormece sem sonhos.

Dantes

Lembro-me de quando eu era um bloguista mais assíduo e diariamente escrevia posts. Bem, as férias vieram e uma dose extra de trabalho e uma fase menos literária foram-me deixando menos activo aqui na Espada Relativa. Lembro-me de que quando nos ausentávamos logo diziámos que iriámos estar ausentes. Bem, esta semana vou estar ausente e impossibilitado de escrevinhar qualquer coisa. Pode ser que, depois desta avalanche de trabalho que culmina nesta semana, Dezembro traga uma nova aragem e uma nova assiduidade. Quem sabe.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Circo

Primeiro pensei que o amor era feito de uma luta transparente mas com o respirar confuso e sofrido do passar dos dias a aliança que unia as relações ficava baça e descorada, ou mesmo com a brancura de uma folha de papel sem palavras. Essa altura rasante do amor como uma planície de distâncias visíveis que só serviam para ocultar o querer e o amar; todo ele feito de conquista e engano e jogo, e de muito querer mas pouco querer de amor. A vida foi-se escorrendo entre o coador do tempo e filtrava-se entre as dores que não diluíam, nem facilmente as mais pequenas que se mantinham à tona nem as grandes que caiam como pedras que rolavam montanha abaixo. Era o precipício de uma zanga pelos amantes escarpada e, entre essas encostas profundas de iras sombrias, o vale fundia-se cada vez mais marcando linhas e linhas nessa curva de desnível. de afinidades já esquecidas de um amor falseado.

Mas no segundo que te conheci...

Foi como tornar pequenas todas as serras e altas montanhas, no alto desse estado de espírito tremendo de um frio feito de temor e imobilidade, de uma ânsia forte como uma âncora, aportava-me ao teu olhar doce e, encostado a esse porto, esse leito calmo da esperança do teu desejo o meu beijo imaginável desprendia-se do meu silêncio vogando num ar de olhares fugidios e quereres escondidos de encontro a uma boca imaginada, grande fofa e quente; um algodão doce numa feira de fantasia de um circo em nosso redor capaz de nos fazer rir, de nos fazer rir o risco de um trapézio sem dor nem rede. E nós, palhaços dessa covardia que é falar com um olhar e afastar da boca a palavra que faz do querer a verdade; a verdade do querer e de isso acontecer.

E mesmo eu fazendo-te sorrir do nosso espectáculo; eu, de lugar em lugar, eu a mostrar que usavas a máscara de tinta branca e mimo de graça, e lábios vermelhos de engano, e o nariz redondo e grande, e a cabeleira laranja do pôr do sol do final da nossa caminhada. Nessa esplanada de um ar livre que nos prendeu não soubemos retirar a máscara que nos fazia sorrir, ainda que incomodados por esse sorrir do querer e do desejo. Até os palhaços que nós éramos sem percebermos que o espectáculo feito de máscaras de ocultar em vez de falarem o desejo que se calava nos nossos olhos de amar, e ficava sem poder respirar escondido na máscara triste e sem magia da covardia.

quarta-feira, novembro 12, 2003

Iceberg (a S.)

Se eu tivesse uma alma forte que te içasse mostrava ao mundo o iceberg da tua beleza.

Magia

O mágico Luis de Matos propôs-se a adivinhar o resultado do jogo particular entre o FC Porto e o Barcelona para a inauguração do Estádio do Dragão. Não seria nada mágico que ele conseguisse adivinhar os resultados dos próximos jogos da Superliga.

terça-feira, novembro 04, 2003

Sombras

raras sombras sobrevoaram o meu quarto com tão vasta e intensa penumbra, deixando acre o paladar apagado no céu da boca. eu, já esquecido do trago húmido do teu último beijo com a minha mão estendida, os olhos abertos à torneira do choro. entretendo-me nesse espaço oco, percorrendo o fim da cama alugada onde só uma saudade porosa o poderia preencher e um grilo cantor trazia lembranças fantasmas com os seus delírios translúcidos. o calor doía só de respirar uma ausência
ainda que mais de um verão depois.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Nuvens

Nunca tinha percebido que eras uma nuvem, nem mesmo quando o meu coração pingava, sim, um gotejar constante que fazia eco quando as gotas embatiam no chão de cristal. Dentro do meu corpo para me enternecer o sangue rejubilava. Nem mesmo depois da lua cheia, sim, quando nos deitamos na praia e o amargo sentir inundava-me na sua água. Só nessa altura reparei que os teus olhos choravam, sim, nunca tinha reparado no seu azul, no que do brilho estranho e visível era apenas o colorir vítreo e raiado do choro. Sim, tu fazias aquários nos teus olhos e de sorriso fingido sempre mentias com a boca pequena. A tua boca amada presa naquele arfar silencioso do amor. O teu silêncio destruía uma vida escondida; a tua, entregue a um acovardar, ao medo de um acabar algo nunca havido. E gelada ficava a promessa de uma união, como uma gota aprisionada no alto de uma nuvem. A tua vida com a minha, atada num torniquete de vontade que te infligia a medieval tortura de um dilacerar. Eu nunca descongelava a água aprisionada nos meus olhos mas passou a chover todos os dias.

sexta-feira, outubro 31, 2003

(e/ou) Parte II

O (e/ou) foi escrito entre 28.dezembro.94 e 09.fevereio.95, esta é a parte 2. A parte 1 fui publicando aos pedaços e deve estar nos arquivos da Espada. Quando o escrevi foi mais como um exercicio sobre o ritmo do texto, nada mais do que isso.

(e/ou) 2.12

depois fiquei triste, só isso de ficar triste, de dar mais um ponto à saudade; por um telefonema, não veio; por uma mensagem, via-a.
para dizer não, um ponto mais ao desejo de compartilhar, novamente.
a falta de não estar ou de estar contigo e, se estás onde estás, onde dizes que estás é dúvida minha que dissipo porque me esforço, porque assim quero acreditar. na verdade que dizes ser tua, pela confiança de...

(e/ou) 2.11

partida adiada, regresso precipitado. o que esperar? um porquê? razões? ou uma espera longa?
a espera. pouco tempo, pouco espaço. hipótese para a descoberta. difícil, difícil outra vez. quase como sempre: infrutífero!...
o futuro eu não digo ou não sei, e se soubesse talvez não diria: se me enganava, talvez!... creio nisso, penso nisso.
espera, adiar...constante.

(e/ou) 2.10

se eu for à tua terra não me deixes ver essa terra, como disseste às escuras. e eu, ainda contigo... mas mostra-te ou mostra a cidade, o que é teu nela que é na mesma: mostra-te. só a ti te quero ver. e à cidade. a que não queres mostrar-me, mostra-te: mostra-me. e eu olho. e gosto.

(e/ou) 2.09

corri.
ao teu sinal ou ao teu chamar, sem saber seres mesmo tu. e eras. tu. longe. dizes: longe. sim. tu.
ouço-te, isso quebra distâncias. sinto-te, por isso corri. sim. isso de saber que eras tu. ao telefone.
tu. e eu. ao telefone. sempre longe. na mesma, ainda: perto. a sentirmo-nos, ao telefone. sim.
tu. e eu

(e/ou) 2.08

num caso ou noutro, há uma ligação a uma terra que fica longe. ainda por cima isso. sim, isso de ficar longe.

quinta-feira, outubro 30, 2003

(e/ou) 2.07

partida.
sempre uma viagem e um prenúncio de saudade. pára, e recorda: as mãos puxadas e repuxadas por um fio invisível, agindo descontroladas, demedidas. e frenéticas. ao som da música como uma cobra enfeitiçada; a música bate estonteante, estou a vê-la no ritmo, perdida no ritmo, na vida, toda ela, no que se passa ao seu lado, no que se passa na sua vida. a vida na sua vida: carrossel como bebedeira. tonta: de dança, do álcool, do vício da vida.
há-de chegar, chegar a algum lado, talvez já não tão perdida. reencontrada. ou ainda mais tonta, mais ébria do vício de viver, de fazer o querer, sem pensar, sem sentir. a querer,sem pensar, sem parar. e gira e rodopia, sempre a partir, sempre a querer chegar ou sem nunca parar.

quarta-feira, outubro 29, 2003

(e/ou) 2.06

horrível este carnaval de gente desmascarada a intriguista, a rugirem snobes e petulantes o tiro à ponta de espingarda de especulações de merda. justiça?! façam-na, mas ouçam antes de condenarem, saibam bem do que falam ou calem.
horrível carnaval de gente mascarada, mostrando entre dentes a saliva perfumada a intriga, e olhares trancados em casas alheias e sempre muita renúncia a enfrentar a palavra séria, e a que doi, e a que importa, e... ... talvez já sem palavras.

(e/ou) 2.05

atrapalhou-se.

desajeitado, nervoso a fazer a declaração. estava incapaz de lhe dizer sim. sim: respondeu. apenas e afinal a uma banal pergunta. Ainda com os olhos pousados sobre os dela, sem fazer muita força para não soltar um sorriso. um sorriso: gostou da ideia. sim. consentiu agora sentar-se. melhor assim. sorriu. tens graça a sorrir: disse ela. corou, claro.

atrapalhou-se.

ia segurar-lhe na mão mas o dedo indicador traiu-o numa carícia. ela abriu os olhos. os dele tombaram. ela, sempre com imenso carinho, levantou-lhe o rosto pelo queixo com a mão espalmada de quem se entrega. atrapalharam-se. os lábios mereciam um beijo, nem sequer um sorriso. havia gente em volta, imensa gente. olharam-se e segredaram: sim!... é a melhor saída. depois, duas direcções ou não...

segunda-feira, outubro 27, 2003

(e/ou) 2.04

um dedo um dedo encurralado noutro dedo. maneiras bem mais fáceis de morrer, há outras, muitas outras. início onde tudo começa.

foi assim: disse. como se houvesse um fim. havido: perguntou.
depois disse que eu não queria saber. que as perguntas a atrapalhavam e que já nada podia saber. ainda disse: reticências.

um dedo um dedo encurralado numa língua. era talvez mau, assim pior: pensou.
mas há outras coisas, muitas outras coisas, claro. como sorrir feliz

e depois disse que os corpos se misturavam e que de mais nada queriam saber. que se fechavam assim, sozinhos: concluiu. e que há sempre mais do que uma conclusão para todas as coisas: o isto e o aquilo, ou como o toque de um dedo pode magoar: disse.

Cegueira imoral

Agora que as prostitutas já podem pagar impostos uma questão permanece por desvendar. O recibo vem com o valor descontado do que remanesce da extorsão do respectivo chulo, ou as prostitutas, que ainda não podem ser legalizadas por uma cegueira mais imoral do que a suposta imoralidade de vender o corpo, para além de terem de entregar o dizimo aos extorcionários dos chulos ainda vão ter de pagar imposto sobre um valor que não recebem? E os chulos também podem pagar impostos? É que as prostitutas que persistimos em manter ilegais nem credibilidade têm para acusar os respectivos chulos extorcionários porque se estão a auto-denunciar de uma infracção bem menos grave do que a gravidade miserável de que são acometidas. Diz-se que a justiça deve ser cega, e eu sublinho, mas desta cegueira da sociedade somos todos culpados por mantermos o silêncio. Como não temos coragem para mudar a situação, nós, a sociedade "moral" preferimos ignorar. O melhor é não mexer muito no que já sedimentou e a legislação um fóssil muito parecido com um câncer.

domingo, outubro 26, 2003

(e/ou) 2.03

acordei a precisar, ou talvez não, e volto a adormecer. apareces no sonho já velha, eu incapaz de esperar, ou esperar tão pouco de ti. foges à procura de um precipício talvez uma loucura mais,
ou nada que se pareça com isso e ainda, ou ainda assim, emerges da emergência desse sentir. possesso. que é querer, de venda nos olhos como se tudo fosse possível, ou só bater em tudo
para chegar a nada. sonho aborrecido e acordei.

(e/ou) 2.02

hei-de querer sentir-me roubado nem que somente aquele beijo que pediste e não dei. só por pensar, ou achar, que o podias ter feito, pedido, ou noutra altura ou doutra forma. e talvez consiga
menos roubado sentir-me, roubado mesmo a sério. sentido como dor e perda, na mesma dor, na mesma perda. por um porquê que não posso contar, ou não devo?

(e/ou) 2.01

estou à espera, a vida repete-se. não é isso que quero. um pé cá outro lá:
já disseste ou já partiste e deixarás onde o coração?
lá ou cá? receio de partir, receio de ficar. o meu e o teu. e/ou vice-versa.
(depois pensei noutra coisa que não tinha nada a haver mas era outra, e só por isso, um alívio; que viver de pensar na mesma estúpida equação ? irresolúvel por sinal ? era por si só, um resultado positivo)
estou à espera a história repete-se, repetem-se os finais ou a história muda? o tempo cura mas também estraga; a ausência sossega mas também adormece e tu preocupas-te ou julgas que eu não?

quarta-feira, outubro 08, 2003

O Sol e' escuro

De repente é um sol, que se põe dentro da garganta, um eco que se esfuma num quarto muito escuro. É a palavra finita que esbarra numa palavra de negro, de luto. É a corda da garganta rompida no ultimo grito, na ultima dor. Os violinos tocam no telhado feito céu de tempestade, são sons perdidos no dedilhado de um concerto insone. É a noite que perdura na ausência do teu sussurro de pele. É o choro da criança que na fome de meio da noite nos desperta. Não nos pomos no lugar um do outro. Nunca. Jamais trocamos de lugares. A noite é de novo o local de chegada e o dia a partida. Somos escuros. Queremos ser negros e vazios. E somos. E somos só a pele, e somos o corpo vazio. Somos a voz indizível, o sonho inatingível. Vivemos paredes meias com o perigo de desmoronar um castelo de cartas de fantasias. É tão giro, acaba-se tudo num pequeno sopro. De repente somos só isso, um sol com interruptor.

Ausência

Há alturas em que é o silêncio que vem povoar as palavras.

segunda-feira, outubro 06, 2003

As coisas boas estragam.. as ma's tambem

Uma vez ofereci-lhe um livro de poesia. Gosto de dar palavras. Muito mais do que falar. Às vezes, não sabemos o que querem dizer certas palavras, mas elas soam bem. É um requinte da alma. Outra vez ofereci-lhe um romance. O nosso. A casa dela estava cheia das minhas palavras. As palavras nunca perdem o valor. Às vezes, só se alteram na linha contínua do tempo. Adquirem outro significado. Estás-me sempre a mimar com as palavras, disse-me ela. É, as coisas boas estragam-te... como a uma criança mimada. Deixa estar... as más também!

A rapariga dos olhares

Sexta à noite. Sábado à noite. Tanto dá. Quinta-feira. Um dia qualquer à noite. Nós sempre no mesmo bar. Ela a dançar, a mostrar o seu sorriso e o seu jeito de menina. Eu de copo na mão, para fazer outra coisa que não somente estar a olhar para ela. Ela sempre a dançar, a mover o corpo numa dança a dois com um parceiro invisível. A provocação da dança. Cobre-me de olhares o tempo todo, como se eu tivesse frio. Enche-me de carinho com essa caricia que é o olhar. Mas sempre à distância. Quando passa rente a mim desvia sempre o olhar. Faz de conta que não me conhece. Que não sabe o meu nome que eu próprio lhe disse. Que ela própria repetiu com aquela boca pequena para fingir que o fixava. Mas parece que não me conhece, que só me conhece quando me cobre de olhares para quebrar uma distância que afinal não quer encurtar.

quarta-feira, outubro 01, 2003

O Canto Escuro

Porque estão eles com as faces fechadas um no outro? E sem sorrisos, só com olhares tristes? Estão a fugir? De quê? De quem? Porque estão eles no canto escuro? Terão medo da luz? Ou medo de se olharem olhos nos olhos? E eu, porque os observo? Será que as suas bocas que se tocam, derretem-se e aleijam-se, da dor? do prazer? Será que as suas mãos quando se entrelaçam, transportam mais do que caricias? Comunicarão? E eu porque os observo? Talvez o canto escuro seja um abrigo, de quê? de quem? Da luz? Não, se fosse pela luz, porque fechariam os olhos quando se beijam? Talvez o canto escuro seja a sua solidão? Quererão privacidade? E eu, porque os observo?