quinta-feira, julho 08, 2004

Asas

Não preciso que me recordes o que tento esquecer. Estou a bater as asas, não vês?

Prioridade à direita

Desenganem-se que não sei o que vai decidir o nosso Presidente sobre o futuro deste parlamento, mas a prioridade à direita é apenas uma convenção automobilística que define quem tem direito de avançar num cruzamento ou entroncamento. Não discordo que haja uma regra em caso de omissão de sinalização, mas o mesmo já não posso dizer dos casos em que me parece obrigatório a inclusão de sinalização. Decerto já todos nós circulamos numa via claramente principal e, por essa omissão de sinalização, a estrada prioritária passa a ser a que vem de qualquer quelho à direita. Vivemos na sociedade da informação enquanto a DGV ainda anda com o mesmo modus operandi dos primórdios do século passado. As multas aumentam, agravam-se, mas os sinais, os sinais esses continuam sumidos das nossas estradas. E o pior, o pior é que não podemos reclamar porque existe a tal "prioridade à direita".

quarta-feira, julho 07, 2004

O Absurdo

O Ministro da Agricultura acha que quem não quer deixar que se cace no seu terreno deva pagar uma multa. Quase o mesmo que dizer que se eu não o quisesse receber em minha casa, e com estes modos não quero, tivesse de pagar uma coima pela nega. E o direito à propriedade?

Proverbios

Há uma expressão portuguesa que diz que "a melhor defesa é o ataque", o que, traduzido para Grego, deve dar algo como "o melhor ataque é a defesa".

domingo, julho 04, 2004

sábado, julho 03, 2004

O câncro

Ontem ouvi alguém a dizer que o grande câncro da sociedade é o dinheiro. Engraçado sempre pensei que fosse a falta dele.

A Crise III

Ainda por estes dias, muito se denota a demagogia dos nossos políticos que, de forma indisfarçável, parecem todos mais preocupados em adquirir/manter o poder unicamente por interesses pessoais do que qualquer outra coisa. A pergunta que se impunha, e que ainda importa resolver, será: "Mas afinal o que é melhor para Portugal?". E a essa pergunta, respondida de forma isenta, parece haver muito poucos que a respondam.

A Crise II

A esquerda portuguesa fala que a saída de Durão Barroso do governo criou uma crise política. É um ponto de vista. Se a esquerda, sedenta de retomar ao poder a qualquer custo e embalada por uma vitória eleitoral nas Europeias, não pedisse novo sufrágio nacional não haveria crise. É um outro ponto de vista.

A Crise

Muito se fala por estes dias de crise politica. Eu há muito que falo de uma interminável crise de políticos.

quinta-feira, julho 01, 2004

Um sinal que eu saboa

Às vezes, voltávamos a encontrar-nos. Ela fazia aquele sinal que eu sabia que era para ir ter com ela e encontravamo-nos no café da rua por detrás da casa dos pais dela. Tinhamos dezasseis anos. Os pais tinham a mania de que ela não devia namorar. Por isso, quando ela ia tomar café com os pais e eu, por acaso ou de porpósito, aparecia, lá me fazia o sinal de que podia se desmarcar e eu ia ter com ela ao jardim, escondidos por detrás do coreto. Já tínhamos namorado antes, os pais conheciam-me, nós fingíamos que não nos falávamos, que andavámos irreconciliáveis. Os pais acabaram (isso queriam eles) com a nossa relação. Damo-nos bem, é fácil darmo-nos bem quando há tanta cumplicidade. Isso gera um sentimento de parceria que é difícil destruir. Os pais não sabiam de nada, os pais, as nossas marionetas. Era a melhor coisa que lhes podia acontecer. Nem os nossos amigos sabiam dos nossos encontros. Esse secretismo dava magia à relação. Falávamos muito mal um do outro a todas as pessoas. Olhavamo-nos com uma mágoa tão fria e sofrida, como se uma mágoa cruzasse os nossos olhares, que quase nos fazia sorrir e trair o nosso esquema. Andávamos nisto há mais de seis meses. Não tínhamos um único aliado nesta aventura. Estávamos sós, que era como mais gostávamos de estar.

quarta-feira, junho 30, 2004

Euro 2004

Desculpem, mas tenho andado a viver o Euro 2004. Desenganem-se isto não é só futebol!

terça-feira, junho 15, 2004

Dúvida Metódica

Se dormimos cerca de um terço da vida, não deveria a maioridade ser só atribuída aos 27 anos?

domingo, junho 13, 2004

A loucura da alma

Era uma viagem escura pela loucura da alma, os olhos baços de uma cegueira pretendida e o braço hirto suspendendo uma agulha de dor. Os meus olhos parvos da visão inositada e a tua outra mão estendida ao meu auxílio.

A minha alma não é tão vasta como os desertos mas apenas escura e fria e sem perdão. Os meus olhos mimados de lágrimas e lastima não são o teu refúgio nem salvação e as minhas palavras apenas a torneira do teu choro.

A tua beleza que ainda amo estancada no torniquete, asfixiada na agulha de prazeres de ilegalidade a minha cabeça tonta e zonza de drogas legais. Eu ainda embebido na promessa do teu amor coberto de felicidade e a tua outra mão estendida a necessidade de socorro.

quarta-feira, junho 09, 2004

Abstenho-me

Normalmente voto. Voto em branco, mas branco. Normalmente até recebo a folha de voto e dobro-a em quatro mesmo a frente dos representantes dos partidos para perceberem a mensagem. A de que nenhum deles me diz nada. Nenhuma das doutrinas politicas me entusiasma. Mas sempre fui votar por acreditar no direito conquistado pela democracia. Desta vez vou-me abster, porque o direito de voto não implica a democracia, mas apenas a nossa posição na Europa. E abstenho-me porque ainda não ouvi uma ideia de Europa, um debate sobre o futuro da Europa e sobre a nossa posição nessa mesma Europa, e desta no Mundo. Sobre isto ainda não ouvi falar. Só das tricas políticas nacionais como se estas eleições fossem apenas uma antecâmara das eleições legislativas. Meus senhores políticos, isto são eleições e não uma sondagem. Por isso, para dar a minha posição política só ao INE. Por isso, abstenho-me.

sábado, junho 05, 2004

Conversas na noite

- Já casaste?
- Ainda não, ainda não estou a pensar em divorciar-me.

Coisas da vida

Perguntaram-me se eu era a favor da despenalização do aborto ao que eu respondi que sim. E logo me retorquiram: então não és a favor da vida. Ao que eu tive de responder: não, sou a favor da boa vida.

sexta-feira, junho 04, 2004

Coincidências

Afinal há coincidências ou não há? Não querendo desmentir a Margarida Rebelo Pinto, parece-me que sim. Afinal de contas, encontrar uma pessoa que até gostariamos de ver durante três dias seguidos, em três sítios diferentes e a variadas horas do dia, parece-me uma prova irrefutável de que as há. Obviamente sem ser combinado, até porque não conheço a pessoa em questão. Ou será isto tudo uma qualquer partida do destino?

Sol

É o sol, eu juro que a culpa é do sol. Tenho alguns posts preparados para escrever, mas o sol não deixa. Ainda por cima assuntos sérios e sombrios. Só que isso não liga com este sol. Agora é mais esplanada, convenhamos.

quinta-feira, maio 27, 2004

...

É assim: quando digo que "tudo tem um limite!" é como se já tivéssemos ultrapassado qualquer coisa.

quarta-feira, maio 26, 2004

My last two weeks

When I returned
You buried my last two weeks
My last two weeks
Of my new times
So it didn't seem like
A wasted mouthful
Because of a trip
That was trapped inside you


Peter Murphy "My last two weeks"

quarta-feira, maio 12, 2004

A boa gente

O primeiro grande erro do sistema democrático é achar que toda a gente é boa pessoa até prova em contrário. Num sistema informático, a prevenção da hipotese do erro é que o torna robusto e seguro. Como construir um sistema político que leve em conta que o homem, primeiro de tudo, é um animal com instintos primários e pouco cognitivos?

segunda-feira, maio 10, 2004

de novo, o tempo

Já está, já não volta atrás. Estou triste porque o tempo não adormece nos relógios.

sábado, maio 08, 2004

Conversas a mais de 0dB

"A subtileza é das caracteristicas que mais aprecio, infelizmente caiu em desuso e ninguem a entende"

quinta-feira, maio 06, 2004

Doce Novembro

A RTP ontem passou o filme Doce Novembro. Sem ser um mau filme não é propriamente um filme que valha a pena muitas mais linhas. Mas, ouvir a Charlize Theron durante 2 horas a chamar pelo nome de Nelson é algo que me deliciou a noite.

terça-feira, maio 04, 2004

A Justiça

A Justiça anda piedosa. Na verdade, só gosto daquela Justiça de espada numa das mãos, com a venda nos olhos e a balança equilibrada na outra. A Justiça quando é difusa, é como se colocasse a venda que tem nos olhos sobre o nosso olhar. E dessa cegueira, eu não gosto.

sábado, maio 01, 2004

A árvore que não dá frutos

O destino é como as rosas e, por vezes, murcha lentamente. O sol que nasce todos os dias já cá não está entre as folhagens. A árvore perdura mas não dá frutos, continua com o nosso nome gravado na sua casca. É uma escrita de seiva a que lhe fizemos, é a ferida da árvore que não dá frutos. O meu coração bate ao vento que debanda em retirada com as aves. O livro azul lá está enterrado debaixo da árvore sem frutos, a rir-se entre as folhagens, debaixo da terra no húmido do tempo. A aranha passeia sobre o teu diário, enterrado como está o nosso amor, debaixo da árvore que só tem folhas a guardar as páginas que nunca irei ler.

sexta-feira, abril 30, 2004

Novo Look

Depois de algum estudo sobre Html e CSS apresentamos um novo visual. Esperamos que gostem.

quarta-feira, abril 28, 2004

A pedra

Tens uma pedra a que não lhe dás valor. Não brilha, nem as riscas reluzem. Nem tão pouco a escrita do tempo lhe confere um ar atractivo. A pedra fria gela-te os dedoss. Sozinha, a pedra assente sobre os pápeis pintados de letras que te dei, parece ser a realidade possível de um objecto que só pesa. Nunca reparas, mas numa ou noutra situação, normalmente quando a realidade da vida toca em unissono com o texto, a pedra cinzenta e rugosa briha no escuro do teu quarto.

O tom

Há pessoas de quem se diz terem o "dom da palavra". Para muitos outros, o seu problema com as palavras é o tom.

terça-feira, abril 27, 2004

A soberba humana

A sobranceria do Homem perante a sua essência animal é uma soberba colectiva que ainda nos irá sair cara. A nossa teimosia é acharmos sempre que estamos separados da Natureza, que a nossa superior inteligência é a mais valia que nos coloca no topo da hierarquia, mas um ser micróscopico consegue matar-nos em cadeia, fugir, camuflar-se e brincar connosco e a nossa tão superior inteligência durante décadas, centenas de anos. E ainda não percebemos que quanto mais sabemos sobre a vida, sobre a natureza que nos rodeia, mais perguntas deixamos sem resposta.

segunda-feira, abril 26, 2004

Dia de reflexão

A Ditadura é uma solitária onde nós estamos a passear num colete de forças. Mas não nos enganemos, a Democracia não é mais do que o Hospício. Ainda temos muito que aprender para aspirar a sermos livres em campo aberto, e mesmo assim, continuaremos agarrados à nossa pequenez cosmológica.

domingo, abril 25, 2004

De novo

Hoje foi como se o Verão tivesse regressado. Como se tu tivesses de novo partido...

Minh'alma

"Uma alma feita de silêncio", dizes-me tu. Uma alma cheia de histórias por te contar. Corrijo-te.

sexta-feira, abril 23, 2004

Frases

Dizer "os melhores momentos da minha vida foram no século passado" soou-me ontem mal. Muito mal. Mesmo que se raciocine que a mudança do século fica mesmo ali ao virar da esquina.

Soulsearcher

I've been shown to know many pains till now
some of them are like scars that won't wound
i'm not a fighter who promotes himself fearless
to get in the ring of life and to win the embody prizes
I'm a soulsearcher
seeking the vibrato that a smiles does with no sound
digging the fresh soil of a sudden trembling hands
maybe I scare the most with the rare approach
where to be with is an almost to be in
but that's when souls are small even for just for one
regardless the distraction all souls are to be seen
but the hated persons are here just for none
I'm a soulsearcher
stepping the ladder that each one permits me to climb
each step is a further risk and afterwards the ladder as gone
maybe i've gone to far and high, and they praise for me to fall
and for each misstep I gave many wounds i've won
some of them are like scars that won't wound
but i'm a soulsearcher, and that is what i like to be

in this path i trail

The inner path indeed I trail
and with stubbornness there i prevail
where the deeds and misfortunes are attained
do not always in correct acts contained

my soul is always changeable
to be refining it i hope and care
maybe farseeing a dream intangible
but winners are those who dare

not that others are mirrors to me
but with their glories and hazards
and the odd missteps that i see
spares me a nasty thousand yards

in this path i trail with no aim
not steady and firm or indeed barge
more touchy friends like you i claim
with eyes wide open to see the big large

quarta-feira, abril 21, 2004

Ainda sobre a justiça (post tardio)

Hoje, em conversa sobre a justiça em Portugal, voltamos a repassar pelo caso da ponte de Entre-os-Rios. Sim, aquela que segundo o Juiz Nuno Melo que arbitrou o processo caiu de causas naturais. E eu lembrei-me: e se o mesmo juiz por acaso um dia a passear numa falésia abissal levasse um pequeno encontrão e, ao cair falésia abaixo, acabasse por bater violentamente com a cabeça numa pedra. Caso houvesse óbito, é óbvio e claro, que o mesmo advinha do embate da cabeça com a pedra. Um acidente, sem dúvida. Morte por causa natural como é evidente. Quanto ao encontrão negligente... bem, são ventos que por vezes sopram mais violentos.

A Espada Afiada

Agora que os meus colegas de blog andam silenciosos, decidi afiar a Espada. Falta aqui o contrabalanço de outros textos pelo que se perde o espirito mais "Relativo" do blog. Contem com um pendor mais crítico nos próximos tempos e menos textos "lamechas"...

terça-feira, abril 20, 2004

Os bons vilões

Pimenta Machado foi acusado de peculato e um mês depois eleito de novo presidente do clube envolto em euforia; Fátima Felgueiras mesmo em fuga à justiça seria reeleita em Felgueiras; Valentim Loureiro é o grande canditato a sua própria sucessão na câmara de Gondomar e, obviamente, da Liga de Clubes de Futebol. Em Portugal ser bom vilão é o que está a dar.

Imagens

O problema com as imagens deste blog é da exclusiva responsabilidade do péssimo serviço que a netcabo confere aos seus clientes.

Tu no meu café

Todos os dias te servia, com simpatia como sempre deve ser. Tu pagavas sempre com uma moeda, eu aceitava claro, como tem de ser. Era o teu empregado de todos os dias e o meu patrão dizia que assim continuaria a ser. Tu nunca me olhavas nem mesmo que eu quisesse. Parti muitas chávenas a tentar que assim fosse. Bebias café todos os dias e sempre à mesma hora. Eu ansiava todos as manhãs por esse momento, como um apaixonado acaba sempre por fazer. Tu bebias o café quente por entre travos de cigarros que deixavas a sobrevoar. Pediste-me lume uma vez, e olhares para mim foi o suficiente para a minha paixão descobrires. Não corei para evitar mostrar o que já estavas a ver. Tu sorriste-me num obrigado de malandrice. Pagaste-me com a moeda de sempre, mas deslizaste a tua mão sobre a minha, para mostrares a suavidade do teu tacto, o que eu sempre imaginei assim ser. Olhaste-me de soslaio quando me virei e tive a certeza que era para eu te poder ver. Perguntaste-me o meu nome que eu me engasguei a dizer mas que lá disse a corar a face. Foste embora sorrindo, repleta de provocação e passaste a tomar café noutro lado.

segunda-feira, abril 19, 2004

Everybody here wants you

Hoje recuperei uma musica de um album que andava perdido faz anos. Sabem como é quando se colocam dois CD's dentro de uma só caixa? Isso. Como não vos posso dar a música cá fica a letra.

(J.Buckley)

Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,
coffe smell and lilac skin, your flame in me.
Twenty-nine pearls in your kiss, a singing smile,
coffe smell and lilac skin, your flame in me.
I'm only here for this moment.
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you

How our love will blow it all away.
Such a thing of wonder in this crowd,
I'm a stranger in this town, you're free with me.
And our eyes locked in downcast love, I sit here proud,
Even now you're undressed in your dreams with me.
I'm only here for this moment.
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you
How our love will blow it all away.
I know the tears we cried have dried on yesterday
The sea of fools has parted for us
there's nothing in our way, my love
Don't you see, don't you see?
You're just the torch to put the flame
to all our guilt and shame,
And I'll rise like an ember in your name.
You know I, you know I,
I know everybody here wants you.
I know everybody here thinks he needs you.
I'll be waiting right here just to show you
Let me show that love can rise, rise just like
embers.
Love can taste like the win of the ages, babe.
And I know they all look so good from a distance,
But I tell you I'm the one.
I know everybody here thinks he needs you,
thinks he needs you
And I'll be waiting right here just to show you.

...

Não te consigo enganar, é como se houvesse uma boca qualquer nos olhos a desdizer-me.

Um segundo no tempo

Queria voltar a ter quinze anos, para poder olhar para ti com a mesma inocência desses tempos. Quando o futuro ainda era distante, e a vida parecia durar eternamente. Quando os segundos que perdia no teu olhar, quando o momento em que a tua defesa finalmente baixava era a vida toda condensada num instante. Esse era o tempo que valia prolongar, essa riqueza que a experiência foi matando.

domingo, abril 18, 2004

Prostituição

As palavras como que se prostituiem. Andam com toda a gente, mesmo que ninguém as respeite, ou que as conheçam realmente. O que vale, é que as palavras ainda me seduzem.

A justiça do amor

A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo.

A voz

Felizmente os pensamentos não se controlam. Se vivêssemos num mundo onde a voz fosse o pensamento, aprenderíamos rapidamente a controla-lo. É muito humano isto de querer controlar tudo.

O tempo

O tempo foi correndo em volta dos ponteiros. O maior corria mais que o menor e andava sempre a ultrapassa-lo. Era assim todas as horas. Todos os dias.

quinta-feira, abril 15, 2004

Como um livro

Fecho-me como um livro. Apenas a folha marcada, o canto dobrado, o vinco subtil que demarca a folha de abertura de um capitulo novo... caso te dê curiosidade.

quarta-feira, abril 14, 2004

A sala vazia

a sala vazia

eu, eu, eu e eu próprio enchíamos o local. eu que quero partir. eu que quero que tudo permaneça idêntico. eu que quero lutar. e eu próprio que não quero nada.

a sala vazia

três eus discutem e eu próprio não digo nada.
- “vou partir, esquecer tudo, começar de novo. estou farto, aborrecido. convido-vos a partirem comigo”
eu próprio ouço-me e aplaudo.

a sala vazia

três eus fantasmas e eu próprio em carne e osso.
- “deixemo-nos como estamos, haverá dias melhores. garanto-vos. convido-vos a estarem comigo”
eu próprio acho verdade e aplaudo.

a sala vazia

três eus discutem e eu próprio não digo nada.
- “vamos deixar de lamúrias, lutemos e venceremos. tenho as armas necessárias. convido-vos a lutarem comigo”
eu próprio sei que tenho essa força e aplaudo.

a sala vazia

três eus fantasmas e eu próprio em carne e osso. eu próprio quero partir e esquecer. eu próprio quero que tudo se prolongue assim. eu próprio quero lutar e vencer, mas, eu próprio não faço nada.

a sala vazia e eu próprio já não estou lá...
(1990)

terça-feira, abril 13, 2004

Dói-me o dedo

Dor divinal
Dia-a-dia
Dói-me o dedo
Dezena a dezena
Distúrbios, demência
Decreto
Lealdade errada
Diz-me sem demoras:
'Adoro-te'
Decerto
Deves ter mentido
Dia-a-dia
Dói-me o dedo
De apontar errado
Dezena a dezena
Destes dedos

Quem deseja

Não fales alto do desejo que os loucos podem ouvir, e a demência se espalhar. Não suspires de prazer que outros podem invejar, e o ódio se expandir. Não beijes o amor que o amor é doce, e a doçura pode enjoar. Não cantes o encanto que o encanto é deslumbrante, e o que brilha demais pode ofuscar. Não te cubras de desejos porque sabes que: quem deseja mal acaba, e assim a morte do desejo pode alastrar. (1989)

segunda-feira, abril 12, 2004

...

Não tenho medo da morte...
... só a dos outros

...

Tenho medo de me perder. Medo de me perder nos teus olhos.
Medo de agir. Medo de sentir o acre da recusa.

A Nudez (I)

Ela sabia do meu desejo. Tinha a certeza do seu sorriso infantil. A consciência da sua sensualidade de mulher. Tinha a certeza de um espírito confiante, posta a olho nu pelas palavras e as ofensas subtis. Impunha o seu carinho refazendo a ideia de ternura no meu corpo, uma meiguice renovada no quotidiano. Lia o desejo nos meus olhos quando me tocava e me olhava. Sabia que me aventurava no mapa desconhecido do seu corpo com um olhar sempre terno. Contornando e delineando a estrada do seu corpo com um sorriso encantado nos lábios. Sabia do meu desejo e perpetuava-o.

Segredos

Não se rescrevem conversas tidas em segredo nem pela frincha entreaberta da porta da curiosidade...

quarta-feira, abril 07, 2004

A rapariga do outro dia

Tinha poucos anos, comparados com a idade do universo. Era de cor castanha, mas de raça branca. E ainda todas as cores do cosmo no seu beijar. Cantava canções com as andorinhas, redemoinhava como um rio nas suas danças e berrava com uma angústia que fazia rir. Falava de sedução quando queria sorrir e não chorava senão quando a beijava. O seu sorriso era sempre mais belo quando contornado pela língua. Olhava como um toureiro olha um touro: ameaçador e temeroso. E quando encurralados, os olhos, era como gelo no deserto. Vestia-se do encanto que sabia despertar. Tinha poucos anos, mas apenas um dia para me dar.

Círculos

Os teus copos têm círculos na base. Os cigarros têm bases circulares, os teus olhos, as rodas, os pontos, o sol, tudo são circulos em nosso redor. Até o aro mentiroso da inocência. O candeeiro da tua sala, a rolha, o cinzeiro, o isqueiro, os teus seios, até a tua língua faz círculos quando me beija.
O teu relógio, os teus brincos, a tua roupa, e mesmo os teus cabelos quando estão encaracolados. A lua cheia que nos espreita, as colunas, os postes, a escada em caracol que nos leva ao teu sotão. Já viste? Tudo é redondo, tudo anda em círculos, até a tua vida...

terça-feira, abril 06, 2004

Conversas

Homem: Queres continuar a falar sobre isto?
Mulher: Não sei.
Homem: E falar doutra coisa?
Mulher: Não sei.
Homem: De que queres falar então?
Mulher: Quero ouvir-te.

Dos Acordares II

Acorda-me assim que acordares. Quero continuar a ver-te no interior adormecido dos meus olhos. Quero co?ar-te uma vez mais como n?o se deve fazer ?s feridas. ? que estarei talvez ainda acordado
no momento de despertares.

O coração

O coração ao meu lado parece querer dar-se, mas quando se agita mais parece contorcer-se. E quando se expande é que se torna pequeno, e cheio de temor.

Amadurecer

A luz entrava por uma frincha escondida na madeira. Os teu cabelos abraçavam o meu pescoço, deixando a impressão da tua presença. Eu que amadureço nos teus dedos. A frincha abria um facho de luz cada vez mais forte, com o passar da manhã a morder a nossa preguiça. Parecia mais tarde, quando as horas soaram a despertar, tu, no teu movimento de princesa adormecida nas nuvens brancas do algodão. A pele escura e mordida pela noite amorosa; eras um qualquer ideal sonâmbulo e à deriva que aportou uma noite num leito junto à foz. Escondi-te nos meus sonhos tempos demais, Invernos e Primaveras consecutivas de ferrugem, a alma escondida no torniquete do óxido... e a vida tranquila no sentimento de desamor. Eras a imagem de uma rapariga que povoava os sonhos mas tão irreal como as imagens que víamos nas nuvens. As histórias que te escrevi todas desenhadas, traçadas no lápis cor de fogo da minha memória incendiária e pagã, histórias de um novo amor que mata outro inventado. Amadureci um novo amor nos teus lábios. Continuas a dormir com os teus cabelos longos, fazendo caricias dentro dos meus sonhos tranquilos. Tens um novo rosto, tão bonito e mais real do que anteriormente, agora que amadureço noutro coração.

segunda-feira, abril 05, 2004

Links

Finalmente venci a preguiça e actualizei a lista de blogs da Espada Relativa. Alguns dos links já cá deviam estar à muito tempo, outros já deviam ter saído há muito. A culpa não é minha, é da preguiça.....

Duelos

As frases não me saem tão facilmente como dantes. Tenho sempre que pesar a gramagem inoportuna das palavras que caem como folhas soltas no Outono. Andas perdida numa luta de sentimentos contraditórios, e a mentira é para ti um modo de vida. O duelo que fazes entre a razão e o sentimento é o de toda a gente, só que com mais sofrimento. Não sei porque isso te causa tanta estranheza. Mas não te posso explicar. Já quase não gosto de ti.

As palavras continuam contundentes como sempre. As discussões são inevitáveis. Impingis-me o teu amor como se a reciprocidade fosse uma taxa obrigatória que eu tivesse de pagar. Querias que as palavras bonitas me saíssem da boca ao ritmo impulsivo das tuas inseguranças, como se elas fossem um creme que que te protegesse do vento seco que sopra nos dias de Novembro. As palavras bonitas não saiem, ficam presas na garganta, amarrotadas no torniquete das tuas críticas.
Se percebesses o esforço que reservo no meu silêncio...

domingo, abril 04, 2004

Hoje

Eu hoje parei para ouvir a luz e sonhar que o vento paira sobre a névoa. Sem velejar entre os espelhos as imagens discorrem em seco, sem aquele bafo molhado da manhã. Hoje não vejo o mármore das estátuas, nem o cobre ou o bronze esculpido. Paredes meias com as nuvens, a escorrer ideias em jeito de estranheza, onde sugo o alecrim derretido em sumo. Hoje já não quero, porque querer não é querer, nem desejar somente se pode. As aranhas sem teias, desnorteadas, escapam à sua própria fuga e tementes à sua covardia, se arredam. Que os caminhos que desconhecem, resguardam nos olhares silenciosos, só para maltratar a sua própria fragilidade
E hoje, hoje já é ontem...

sábado, abril 03, 2004

...

Esse tempo em que não éramos nada, em que nos perdiámos na memória das coisas. Acabamento único, num quandro, uma pintura de aguarela aonde se vertia a água dos sonhos. A maldição da noite, a maldição dos tempos infindos. Doia-me a alma de Verão. Destruias-me os sonhos por dentro, a alma revirada do avesso. O amor e o desamor em contraste. Uma sinfonia de ódio latente. A vida às escuras, à espera de brilhar nos teus olhos.

quinta-feira, abril 01, 2004

100 Éter nem Eternismos: I2

Será minha a sorte de invejar-te a solidão? E prender no céu uma corda frouxa para segurar-me com a força de dois cavalos e descer por ela a todo o vapor? Será esse o direito de existir? Ou apenas a pena de um réu que nunca se livrou da inocência? Ou é já apenas só sexo o amor?

Parabéns e Champagne

Abram o champagne!! A Espada Relativa faz hoje um ano, mesmo que pareça mentira, até pelo dia de hoje, que nos tenhamos aguentado no activo durante tanto tempo. Claro que houve fases menos de menor actividade e quase não sobrevivemos às férias de Agosto. Este também não é um blog de notícias e nem sempre a inspiração desponta quando queremos. A todos os colaboradores, dos mais aos menos assiduos, eu ergo a minha taça! Aos que por aqui passam para nos lerem, as bebidas são por conta da casa. Salut!!

quarta-feira, março 31, 2004

Dias

Por vezes, os dias parecem-me excessivamente parados. Como hoje. Mesmo contigo às voltas no carrossel mágico da minha imaginação.

terça-feira, março 30, 2004

O silêncio das palavras

São como nós secos que ficam na garganta, são palavras estranguladas à porta dos lábios, são palavras retidas em bocas que se mordem... de silêncio. São palavras malditas, encarceradas, edificadas pelo medo... sempre o medo, de pronunciar palavras mal ditas.

São como nós, nódulos ásperos de uma coroa de espinhos em torno de um pescoço. São um colar de pérolas temeroso, nem de pedras nem preciosas. São só palavras surdas dirigidas de si a si, em torno do seu... silêncio! São como nós, estreitos e estranguladores, desfigurados sons amarrados à própria vergonha, à própria garganta, ao pavor, ao ser erro… errar…

Apenas palavras cerradas em hipocrisias gestuais, gestos de fuga, de ausência...

O silêncio triste das palavras mal ditas.

segunda-feira, março 29, 2004

A sonoridade das palavras

Sabes como soletrar palavras, cadências tão ritmadas. Sentes as consoantes roçarem entre os lábios, são gritos e tão eufóricos. E ainda: os gestos de tão marcado sentimentalismo, os rituais de tão compensador hábito.

Sabes como compor as frases, sequências tão verosímeis. Sentes as vogais voarem na garganta sem atrito, são beijos e tão calorosos. E ainda: as palavras de tão sonoras, os diálogos de tão longo prazer.

As palavras certas no momento oportuno

Dies Irae
*
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
*
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
*
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
*
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)

domingo, março 28, 2004

Dos estranhos, a voz

Falava com a alma inundada em lágrimas. "A alma chora mais que os olhos" – alguém pensou. Olhava para baixo, para a a mesa tão solitária, como poderia olhar o tecto e sentir o vazio.
Tudo era-lhe indiferente… até eu. Como o seria qualquer outro, não se importava de tão desesperada de que eu, sim: eu! lhe escutava as palavras e a voz, tão triste… como destino.

Falava. E eu escutava suas lágrimas, as mágoas. E ouvia, sim: sei ouvir! o sofrimento alheio, algo que
não fica indiferente em mim porque eu: eu sou amigo de alguém!

sábado, março 27, 2004

Deste amor impossível

O grito. Voz surda que reclama direitos. Que não tem. Que nãos abe se quer ter. ainda grita. E gritara, enquanto durar a dor. Todo o prazer, e ainda: a dor. Quer; não pode. Amar. Ouve-se um grito: de dor? De prazer? Raciocina, conjuga as palavras. Não sabe, não conhece a resposta. Dor pelo prazer; ou, prazer pela dor? Sabe que está preso. Que se enredou numa teia, num bosque de árvores densas. Não pode sair, não pode escapar: daí, desse local recôndito, a floresta, ouve-se partir um grito. Este amor impossível. Incomum. Um amor por descobrir. Que é amor e não é. Amor. Existe, e no entanto não se concretiza. A voz grita, já como vício. Amor sem regras, sem estereótipos. Impossível, tanto é. Hoje. Tanto não é. Amanhã. Foi e deixou de o ser. Tantas vezes. A memória esqueceu-se da própria memória. Abandonou-se. Já se esqueceu. O tempo. Já não se quer lembrar. O amor. Impossível. Que se reencontra em sucessivas aventuras. Separadas por um tempo. Ainda quer esquecer o tempo, o grito. Preenchido por palavras... de palavras de amor. As quais se tomam por um outro sentimento. Falso. Para enganar. O sentimento. A voz ainda grita, o amor impossível. E grita, com toda a força que possui, para não ter de ouvir... o próprio grito.

quinta-feira, março 25, 2004

De pensar as palavras

Falava com uma certa angústia, saiam-lhe palavras azedas pelo céu da boca mas não ligava a esse paladar amargo que lhe ficava sobre a língua. Era uma linda boca – alguém pensou. Falava com o desprezo que a estranhos se dá, com o olhar gelado desse tom frio e azul que longamente espreitava. o infinito. Eram uns lindos olhos – alguém pensou. Falava como só ebriamente se fala, num rodopio louco de palavras e nem se apercebia do seu discurso. Sincero. E que tão ingrata seria a indiferença. Que linda sensação - alguém pensou.

De recordar o amor

este amor confuso que erra sem destino, tanto é o medo do amor. amor, o amor ainda receia amar. esse passado recordado que perturba sempre, e são tantas as mágoas. ainda recorda a dor. o amor, esse acto preferido que os amantes procuram. tanto é o prazer, mas amor, ainda prefiro amar. nesse tempo guardado que a memória relembra. são tantas as recordações, amor, ainda guardo lembranças...

o amor ainda escreve:

que o amor que sente é impossível de se fazer esquecer. que é essa a dor. que sentiu o sofrimento, esmagador, de tão cegamente amar. e que essa é a sua fuga. e ainda diz: que ninguém lhe merece... amor. de tanta ser a maldade lembrada. que essa é a verdade. e diz, que amar é interdito, agora, por outros amores lembrados. que é essa a sua confusão.

...

As palavras? Perdi-as. Os gestos? Esqueci-os... A saudade? Quem me dera ainda saber como é.....

quarta-feira, março 24, 2004

terça-feira, março 23, 2004

Poema à rapariga que não era poesia II

A história tem teu rosto gravado no projecto da memória. Tu cativas mas não comoves. Julgas que a poesia faz milagres, que os sonhos podem ser sonhados mas, repara: a realidade não é apenas fruta podre que se engole. Tu, rapariga nua, despiste a poesia do teu corpo e vives agora apagada de deslumbramento, uma sombra de desilusão. Tu, rapariga nua, perdeste as palavras que cobriam teu corpo, adjectivos que se colavam à tua pele e te adornavam como uma rainha.
Deusa lírica da epopeia do amor, tu, rapariga nua, és uma velha estrela ainda cintilante mas vestida de um brilho apagado, à custa dos versos sumidos, dos poemas amarrotados, do lixo em que te transformaste.

poema à rapariga que não era poesia

quem faz uma frase faz tua a canção. curtos e tresloucados versos são teus cabelos com rimas redondas no canto dos olhos. quem faz um verso faz tua a sedução. a tua simpatia afável livre como as palavras, a sonoridade marcante do lirismo do teu corpo. quem faz uma estrofe faz tua a paixão. cativar e comover, essa pretensa poesia de deslumbramento e desilusão - o verdadeiro teatro. quem faz um poema faz tua a decisão. nasce morto o amor, morre viva a paixão, enfim o prazer saciado em teu corpo de palavras nuas.

Memórias

-Antes o sol punha-se ali...
-Para mim, o sol põe-se ali, numa casa com um terraço, onde te vejo desaparecer todos os dias...

sexta-feira, março 19, 2004

Feliz Dia do Pai... ;)

A um pai
*
É um Pai o calor de toda a frieza,
O despertar suave do mais leve dos sonhos;
O doce no amargo, mais meigo na dureza,
Andar sem receio de fechar os olhos.
*
Ter mão na dor, suficiência na calma,
Amar acima da razão do ser
Beijar um rosto como quem beija a alma,
Ter Pai é ser rei, mesmo sem o saber;
*
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior...
Mas um Pai tem o orgulho de ser superior
Ao falar aos outros da experiência vivida...
*
Traz no rosto a memória do que entrou mas não sai,
No olhar a alegria de ser chamado Pai,
E no peito a saudade, o lado triste da vida...
*

Ausencia

Eu gosto de falar dela, de contar as suas aventuras. Gosto de envaidecer as suas qualidades, de brincar com os seus defeitos. Gosto, sobretudo, de a recordar, de a ter comigo em todos os instantes. Nem sempre posso estar com ela, e isso impele-me a falar dela, ou então como agora, de escreve-la, de retrata-la por adjectivos, que é o mesmo que esculpi-la de uma outra forma que não a física. É o poder das palavras, esse poder que as palavras têm para despertar imagens, que me faz falar dela, permite-me subtrair a sua ausência.

O toque

Ela poisou a mão no meu peito. Fê-lo somente com o desejo de me cumprimentar. Não chegou a ser o toque fascinante da carícia. Mas apesar de ela apenas me ter tocado no peito, tocou-me muito mais fundo, e talvez… de uma forma bem mais fascinante. Tocou-me na memória.

quinta-feira, março 18, 2004

às vezes é preciso pensar

Com os meus resumidos 17 anos, vejo que já aprendi muito com o amor.
Aprendi a pensar em mim própria antes de me lembrar dos outros.
Aprendi que não pode haver expectativas porque corre sempre tudo ao contrário. Que não se pode ter esperança nem sonhar porque acaba por nos partir o coração. O sol também se apaga e a Lua perde o encanto quando estamos assim.
Aprendi que os beijos, o roçar de pele e o calor do que nos une acaba sempre por chegar ao fim, mas as palavras ficam para sempre no peito de quem as ouve.
E no arrependimento de quem as diz.
Aprendi que os horizontes que avistamos juntos são imaginários e mais tarde parecem-nos tristemente ridículos, que o mar passa de vasto a inútil e que a vida é muito mais curta do que pensamos saber.
Que todas as lágrimas são em vão e todas também acabam por secar.
O tempo não cura tudo, longe disso, mas traz-nos outros pontos de vista.
Aprendi que o orgulho, ou pelo menos a dignidade, são o mais importante e tudo o que nos resta no final.

...

"The days are bright and filled with pain
Enclose me in your gentle rain
The time we ran was too insane
We'll meet again, we'll meet again..."
(The Doors)

sexta-feira, março 12, 2004

...

A gente com peste e a raiva cega dos cães
os esgotos aldrabados
meia laranja cortada na areia
na praia: uma balada

Frase Conclusiva: E Eu Proprio Tambem, e Alias Bem

Quando o pano cai e a nódoa fica
neste fim teatral desta farsa carmim
tom de carne rosada disfarçada de teia
e aranha estranha de vida estragada
Predador e caçador da urbe capital
dos pecados amaldiçoados dos cegos da fé
em cafés sóbrios de gente ébria
e um tudo quase nada mal exigente do bem
na sua homogénea de um ténue radicalismo
de aparências e ares artificiais
a gente quase ébria da loucura latente
que pensa e sente como quem não o faz
nesse juízo incapaz de ajuizar
e perceber o erro crasso que fazem
sem saber, que eu não me esqueço
da maçada desta farsa teatral
de gente que ri tão só por fora
as tristezas e avarezas interiores e em si
25maio90, 11h15mns.

quinta-feira, março 11, 2004

passos ao luar

Sentada na minha pedra, vou desfiando lágrimas ao luar
e escuto o que ele diz.
O mar é calmo hoje, tem todas as tuas qualidades
mas também os teus defeitos,
e quem me dera ser poeta para os poder descrever.
Desfolho pétalas de uma rosa antiga
e desfolho segredos também.
Ninguém me ouve,
que importa?
Só os passos do luar me acompanham
e tu já não estás comigo.
As palavras perdem-se assim, e tanto tu como eu
já não sabemos delas...
As lembranças que caminham por aqui roubam passos ao luar
a quem os dá
e não tenta viver sob uma estrela.
Os astros são sempre assim, frios
(também a tua existência continuou sem mim,
eras o meu sol),
resta um marulho lá no fundo que permita recordar...
Dói-me a alma
e a coragem que não tive de ser feliz.
*

mais uma vez sem título...

Foi sal em vão todo o que chorei
Por ti, por passos que acabam no chão
Por marcas de sonho e saudade onde andei,
Por gotas que me desfolham a fragmentação
*
Foi trilho de mágoa, sem pedaço de céu
Espada que aos teus olhos quase me obrigou
Entrego ao luar o que a minha dor perdeu,
Vou chorando com o mar tudo o que me marcou
*
E quanto mais choro mais o meu mundo cai...
Os passos do luar que de mim já não sai
E o beijo na sombra que o teu tempo me deu...
*
Tentei alcançar o espaço sem mar,
Mas a cor do céu no instante a acabar
E a lágrima que fica p'ra sempre, sou eu...
*
Catarina Inês

quarta-feira, março 10, 2004

KelkeXosElektroNiK

Depois de uma ausência prolongada o KelkeXOse volta com uma nova mistura desta vez dedicada a momentos menos ritmados. Uma sessão Lounge para ouvir até ao inicio da Primavera.
Para ouvir o link está no lado direito.

Playlist:
01. Brandi Ifgray - Stranglehold [4:52]
02. Aqua Bassino - Time To Go [7:36]
03. Miro - Emotions Of Paradise [7:58]
04. Troublemakers - Too Old To Die [4:39]
05. Sven Van Hees - Seasonal Bounty (Smooth '94) [4:45]
06. The Amalgamation Of Soundz - Enchant Me (Original Version) [6:23]
07. Butti - Brasilikum [5:08]
08. Lais - Dorothea (Buscemi Remix) [4:16]
09. Gabin - Terra Pura [5:16]
10. Gare Du Nord - Tune Up [5:18]
11. Miguel Migs - One [4:44]
12. D-Note - D-Votion [7:02]

terça-feira, março 09, 2004

Já não vale

Já não vale olhar para trás
Já não vale sequer o prazer de recordar
Já não vale mais nada; a não ser a razão de não se objectivar

Sou como uma metamorfose surrealista e as minhas palavras, uma osmose de não sei quê

segunda-feira, março 08, 2004

Tales of Oblivion.03

I surrender myself to your knees, it is an entire jailed sun in your sight that bends me down. In that time a forget the honor as I fall in the abyss fulfilled of shyness. Next second all is forgiveness, and I restart to dare you.

Entrego-me a teus pés no momento da procura, é o sol inteiro aprisionado nos teus olhos que me verga. Num instante esqueço-me da honra e tombo no abismo da covardia o meu olhar. No segundo seguinte já esqueci, e recomeço o confronto.

quarta-feira, março 03, 2004

Conversa entre amigos

Transcrevo com o devido consentimento um pequenissimo excerto de uma conversa que tive com uns amigos.

- Ó pá, acredita... Eu não ando lá muito bem.
- Só tenho de acreditar, em menos de uma hora de conversa, já utilizaste expressões como "ando com o coração ao pé da boca", "tenho o estomâgo colado às costas" e "parece que tenho a cabeça a funcionar nos genitais"... não admira.
- ah, ah! Já vi Frankenstein's com melhor aspecto.

terça-feira, março 02, 2004

Tales of Oblivion.02

All the times I hold my thoughts away from you, your blinking eyes are calling me to your mouth. Smiles swirls like a carrousel in a mighty fair, and I as the clown lost in the Mirror House. Sometimes, I forget you. It's a painted trail wished and in permanent drink drawed, but it only lasts a little yearn.

De todas as vezes que os meus pensamentos fogem de ti, os teus olhos reluzentes parecem chamar-me de novo para a tua boca. Os sorrisos rodopiam como um carrossel de uma feira popular, e eu o palhaço na casa dos espelhos. As vezes, não me lembro de ti. É um negro que eu queria riscado a tinta permanente, mas que dura apenas a fracção de um suspiro.

segunda-feira, março 01, 2004

Tales of oblivion.01

When the sun sparks frostly through the wide window who exposes my body to the cold, is when your beauty appeals me most. The images unstable as leafs falling down thru oblivion. The cells are dying in me as they are being done of use, the use of leaving you inside my eyes.

Quando o sol raia numa manhã gelada e da janela aberta com o corpo exposto ao frio é quando mais aprecio a tua beleza. As imagens não ficam e são perenes folhas outonais destacadas da árvore do esquecimento. São células que morrem posta a sua última utilidade, a de eu fechar os olhos contigo lá dentro.