Andávamos sempre de mão dada num pensamento sobre uma certa filosofia de vida. Um mundo encantado, quase privado e só para nós. Olhava-me com sabedoria com uma presença que sabia só sua. Nunca mentíamos. A verdade, por vezes, parecia um carrossel que nos punha tontos e que, por vezes, doía como se nos estivessem a picar agulhas. Obrigava-me à sinceridade fazendo-me vergar à sua doçura. Falava com desenvoltura num despique de palavras muito especial, uma guerra que amávamos e que nunca ninguém ganhava. Não era preciso ninguém vencer. Um combate de esgrima onde nunca se marcavam pontos, a pontuação ficava nas frases. Ela nunca se impunha mas defendia o seu querer com muito mais querer que o meu. Tinha dela essa impressão. Chegávamos a falar de coisas desnecessárias mas muito importantes. Tinha sempre a sua razão mesmo quando queria que ela não a tivesse razão nenhuma. A sua inteligência era sexy. Dava vontade de acreditar que as pessoas não ligavam à beleza física. Até parecia possível. Não que com ela fosse preciso.
segunda-feira, setembro 29, 2003
A mao pelo corpo
Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. No corpo de latente cadáver, corri, a mão sempre amena: na boca, no peito, até apertar
com a força do escândalo a barriga de mulher grávida. E corri, de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do sexo repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar; a todos os olhos de outros. E no teu útero,
como um toque divino, fiz nascer-te em amor para mim.
com a força do escândalo a barriga de mulher grávida. E corri, de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do sexo repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar; a todos os olhos de outros. E no teu útero,
como um toque divino, fiz nascer-te em amor para mim.
Maos
Mãos de aranha. O gesto dos dedos, reflectem-me imagens. Dedos quebradiços, longos, perspicazes. O gesto dos dedos tem a doçura feminina do fascínio…
domingo, setembro 21, 2003
Ha de haver uma outra realidade
Tinha a certeza de termos morrido. O carro irreconhecível, numa amalgama de metais retorcidos e contorcidos eram prova disso. Havia uma série de líquidos viscosos a escorrerem entre as peças fumegantes do motor e por debaixo do carro, um fluído vermelho fazia um pequeno riacho. Lá dentro estavam os nossos corpos, mas eu não tive coragem para olhar. Tínhamos decidido nessa noite voltar ao quarto da sua prima. Conseguira-me convencer de que se libertara dos seus fantasmas e que agora me queria. Quero-te dentro do meu corpo, disse ela como argumento final. Um excesso de ansiedade apoderou-se de mim. Às vezes, a verdadeira realidade da vida esconde-se por detrás de omissões, ou apenas de pequenas coisas que desconhecemos. Disse-me ela quando entrou no carro. Eu apenas respondi, é natural que hajam outras realidades. Agora, de mão dada com ela, estou a flutuar dez metros acima do meu corpo. Decidimos ir embora. Não tínhamos ali mais nada que fazer, mas apenas, muitas coisas por descobrir.
quarta-feira, setembro 17, 2003
BlogoInterrupcao
Não sei o que deu a este blog que ficou em silêncio quase uma semana. Depois da tão propalada silly season será que nos voltámos para uma silent season?
Uma coisa esquisita no meu coracao
Estava a trabalhar quando ouvi a sua voz, num além que julguei não ser possível de acontecer. Acordei com ele num murmúrio que parecia ao meu lado, ao meu lado ou dentro de mim. Sussurrou o seu amor por mim que eu tinha medo de acreditar, medo de sentir verdade. Galgou comigo essa noite de trabalho que não queria ter fim. Tens sorte em ter um amor como o meu, disse-me na sua ausência com a sua voz de mel de novo na minha cabeça. Tinha o espirito dele a falar comigo, como se a sua alma estivesse em contacto etéreo, buscando a nossa alegria, o arrepio na pele. Tentou de tudo para provar ser ele quem ali estava, não em carne e osso, mas o seu espirito de luz. Deu-me um número, depois disse-me ainda ausente, amanhã telefona-me! Telefonei-lhe no dia seguinte como me propusera, perguntei-lhe se ele sabia o sentido daquele número, sem medo algum de desmascarar a minha possível loucura. A sonhar com fantasmas. Logo eu. A sonhar com o seu espirito. Ele respondeu, sim, é o número do meu bilhete de identidade mas, como sabes? Como dizer-lhe que tinha sido ele, a sua alma enquanto ele dormia, quando num sonho qualquer soltou palavras de amor, num sonho que como muitos outros se esquece ao acordar. Senti uma coisa esquisita no meu coração um formigueiro tal qual uma mão dormente, uma coisa que se sente e não se sente. Tinhas razão poeta!
quinta-feira, setembro 11, 2003
Zapping
No zapping de hoje apanhei a seguinte frase numa das telenovelas basileiras: "Jornal é tudo a mesma coisa, a gente espreme, espreme e só sai sangue". E eles que ainda não conhecem o telejornal da TVI.
Os caracteres chineses
Não há muitas raparigas que façam disparar assim o meu coração. Podes ter certeza disso. Se um sorriso teu o faz bater assim tão forte e desgovernado, nalguma coisa as nossas almas comunicam. Somos feitos de uma qualquer essência supra-natural e há qualquer coisa de kármico no nosso encontro. Como se as estrelas tivessem escrito uma qualquer história, e nós, marionetas desse romance, somos impotentes para fugirmos ou traçarmos uma qualquer outra rota. Não faz mal, assim está bem. Chega-te a mim. Assim juntos de mão dada para fazer funcionar a união. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Repetiste tu, como se esse eco fosse uma extensão de mim. Chega-te mais a mim mas mantém-te onde estás. Disseste tu, imitando um paradoxo budista. Há um qualquer caracter chinês que explica muito bem a nossa relação. Pois há, disse ela, mas não to digo. Depois disse-mo mesmo sem me o dizer. (1995)
quarta-feira, setembro 10, 2003
A rapariga com os pes na agua
Tinha acabado de perder o irmão. Molhou os pés na berma de um lago ladeado de árvores altas que davam amplas sombras e que filtravam o sol fazendo-o vibrar cintilante na água tépida. Estava sozinha e ainda mais sozinha. Um grito de dor soltou-se-lhe da boca afugentando os pássaros que bateram asas, voaram um pouco sobre o lago e, já sem medo do grito triste da rapariga, voltaram a poisar nos ramos que haviam abandonado. Havia telefonado a todos os seus amigos para que não ficasse sozinha, mas continuava sozinha. Porque quis. Porque quis encontrar o seu irmão numa qualquer água. A água que era o símbolo da perda do seu irmão, porque aí o tinha perdido. Encheram-se de água cristalina e salgada os seus olhos quando lentamente mergulhou desfalecida num lago pouco profundo.
segunda-feira, setembro 08, 2003
A rapariga e o desassossego
Eu também nunca soube o que era estar parado. Andava sempre a correr sobre florestas encantadas. A pensar em coisas que não existem. A viver momentos com pessoas que apenas eram fantasias minhas. Nunca tive coragem para bater à porta de ninguém. Sei o que dói a pessoa não estar, ou não nos querer receber. Essa dor já passou.
Isto para falar dela.
Andava preenchida com vontade de mudar, por isso bateu à minha porta. Eu abri, não somente a porta de casa mas todas as portas que servissem para alguma coisa na minha vida e mesmo as que não serviam para nada, as que eram apenas empecilhos. Eu tinha sempre muito mais medo do que vontade. Embora existisse sempre muita vontade a pulsar no interior. Haviam gestos ou olhares que me faziam acreditar no desejo dela. O seu corpo dançando sobre o meu fazia-me acreditar no desejo dela. O meu corpo no corpo dela era prova disso, dizia-me ela. Andava em desassossego o dia todo sempre a querer mudar o rumo da minha vida. Da vida dela na minha vida. Mas tê-la por ali, ainda que andando à volta como uma borboleta, era um conforto. Tão reconfortante como um abraço de pele. Da pele branca dela. Muita branca. A vida andava muito cheia, eu sempre a pensar nela, a resolver os problemas que ela arranjava à minha, e os momentos a dois que pareciam sempre poucos. Viver parecia um frémito. E era. E era inquietante, mas por estúpido que possa parecer, deixava-me sossegado. Só ela é que não sossegava. Queria o que não queria como se isso estivesse certo. Era uma pessoa nova a cada segundo que dobrava o tempo nos ponteiros. Nunca soube se isso era bom. Talvez por momentos demasiado curtos tivesse acreditado que sim, que era bom. Tentava de tudo para por a vida direita mas saia-lhe tudo muito torto, diria mesmo que demasiado torto. Houve um dia que se foi embora como uma tempestade, fez muito barulho, gesticulou muito, culpou-me de todos os erros que ela própria cometeu, chegou mesmo a dizer que eu era culpado de um dia ela se ter apaixonado por mim. Quando saiu de minha casa, apertou o meu coração com a selvajaria de quem não tem pena, como um furacão que passa insensível e destroi tudo até sussurrar numa acalmia. Que sossego!
Isto para falar dela.
Andava preenchida com vontade de mudar, por isso bateu à minha porta. Eu abri, não somente a porta de casa mas todas as portas que servissem para alguma coisa na minha vida e mesmo as que não serviam para nada, as que eram apenas empecilhos. Eu tinha sempre muito mais medo do que vontade. Embora existisse sempre muita vontade a pulsar no interior. Haviam gestos ou olhares que me faziam acreditar no desejo dela. O seu corpo dançando sobre o meu fazia-me acreditar no desejo dela. O meu corpo no corpo dela era prova disso, dizia-me ela. Andava em desassossego o dia todo sempre a querer mudar o rumo da minha vida. Da vida dela na minha vida. Mas tê-la por ali, ainda que andando à volta como uma borboleta, era um conforto. Tão reconfortante como um abraço de pele. Da pele branca dela. Muita branca. A vida andava muito cheia, eu sempre a pensar nela, a resolver os problemas que ela arranjava à minha, e os momentos a dois que pareciam sempre poucos. Viver parecia um frémito. E era. E era inquietante, mas por estúpido que possa parecer, deixava-me sossegado. Só ela é que não sossegava. Queria o que não queria como se isso estivesse certo. Era uma pessoa nova a cada segundo que dobrava o tempo nos ponteiros. Nunca soube se isso era bom. Talvez por momentos demasiado curtos tivesse acreditado que sim, que era bom. Tentava de tudo para por a vida direita mas saia-lhe tudo muito torto, diria mesmo que demasiado torto. Houve um dia que se foi embora como uma tempestade, fez muito barulho, gesticulou muito, culpou-me de todos os erros que ela própria cometeu, chegou mesmo a dizer que eu era culpado de um dia ela se ter apaixonado por mim. Quando saiu de minha casa, apertou o meu coração com a selvajaria de quem não tem pena, como um furacão que passa insensível e destroi tudo até sussurrar numa acalmia. Que sossego!
domingo, setembro 07, 2003
O tempo dos sonhos
Acordo no teu rosto, os teus olhos na minha boca. Soluçar umas palavras pela manhã, a voz presa do cansaço, do teu corpo. O teu olhar sereno e o contraste da tua maquilhagem esborarratada, o negro a sair do verde dos teus olhos. Abro a portada para deixar entrar a manhã, a janela para recuperar o ar queimado no ardor do sexo. São as últimas horas que passas aqui. Não o sabemos, mas no ar o silêncio já o pronuncia. Volto a deitar-me contigo, os corpos ainda quentes, ainda muito quente a desafiarem o frio da manhã que irrompe da janela aberta. A vida acorda a nossa volta, nós ainda mortos, do cansaço do amor, da noite por dormir, de nos perdermos na imagem de uma lua redonda. Conto-te histórias nos teus cabelos, histórias vividas tempos antes, histórias inventadas de um futuro que tudo fará para não se cumprir. O futuro contra mim, contra nós. É essa a luta, tu também sabes. Que o tempo se saboreia no tempo, no tempo todo em que os sonhos ainda são possíveis. Não muito depois, tu já cá não estás.
sábado, setembro 06, 2003
A rapariga e as flores
Deve ter sido uma saudade bruta aquela, porque de repente foi tomado por uma vontade imensa de oferecer-lhe flores. Uma por cada dia que não estiveram juntos como se fosse uma compensação divina ou mesmo que a ausência e afastamento um do outro pudesse ser compensada de alguma forma na essência de um conforto material ou um carinho na alma. Nem mesmo era possível contar os dias que se perdiam no tempo disperso e confuso dos dia, nem havia assim tantas flores na loja. Não se importou. Não valia a pena zangar-se com o mundo. Foi o que pensou, a olhar para a empregada da loja ainda incrédula com o seu pedido. Muito tempo não estiveram juntos, tinha agora a certeza. Continuava a gostar dela com o mesmo carinho, com a mesma sensação de que a água dos sentimentos escorreria ainda como um rio sobre o seu coração. O tempo demora a passar sobre as pedras, é uma erosão que só faz cócegas. Havia sempre um sorriso no coração dela bem mais poético que uma desculpa. Escreveu-lhe uma carta em papel cor de rosa sem intenção. Era o único papel que tinha por perto. Gostava destas coincidências. Faziam-no acreditar num qualquer acto mágico. Um acaso é uma demonstração metafísica, pensou. Às vezes o mundo bate certo na sua engrenagem esquisita, disse-lhe a ela. Faz muito tempo que não conversam, faz muito tempo que a voz não se faz sentir, que os olhos não pousam sobre os mãos como mãos inseparáveis dos dedos. Embora continuem a falar da mesma maneira. Sempre a tentarem perceber o mundo mas sem se explicarem a si próprios. Só pode ser assim, dizem um para o outro. Já não se envolvem. O que é bom. Ficavam sempre demasiado perto e ao mesmo tempo demasiado longe. Ele de um lado da margem de um qualquer rio imaginário e ela da outra. Ficam bem a passearem um de cada lado. Às vezes o rio estreita e podem dar a mão, mas só por dois ou três passos. Está certo que seja assim.
quinta-feira, setembro 04, 2003
A rapariga da praia
Ia para casa sem destino a pensar no sentido da vida. Passava muitas noites em claro. Dormia pouco por causa da ânsia de querer viver muito e morrer depressa. Uma noite sob uma lua indefinida cima passeou na praia. Deu a mão a uma rapariga. Andaram de onda em onda gladiando-se com uma maré que os empurrava para a praia. Ele tentava salvar-se do naufrágio que se tornara a sua vida. A rapariga parecia uma âncora, pensou ele. Tirara-lhe o coração da deriva louca e sem rumo de um mar de sentimentos confusos e errantes. Descansaram os dois um pouco, sentados sobre uma rocha, abraçados os dois com os olhos postos no infinito da penumbra da noite frente ao mar. Ele olhou por algum tempo o rosto calmo dela. Era mais bonita do que um convite, do que a porta de um quarto aberta. Falaram de carinho e de outras tentações, mas nunca de amor. Se fizeram amor era porque não arranjaram outra maneira de o dizer. Mas não importava ser assim. Nunca quiseram saber o que faziam quando não estavam um com o outro. Eram bons os momentos que conseguiam estar juntos e isso, era por si só, um exagero. Uma felicidade demasiado grande. Podiam viver juntos se quisessem. Tinham um quarto alugado onde tantas vezes se encontravam. Nunca nenhum deles teve essa intenção. Não viviam um com um outro, mas não podiam viver um sem o outro. Estava certo ser assim, pensava ele. Dizia que ela o tinha sarado de muitas dores, que não tinha sido preciso salvar-se no corpo de muitas mulheres. Que tinha bastado o dela. Às vezes sorria quando pensava nela. Nunca pensava porquê que sorria, mas também não o tinha de fazer. Só queria saber se ela estava bem, mas jamais lhe perguntou. Sabia que quando estavam juntos estavam bem os dois. Uma sintonia que o fazia vibrar como a corda agitada de uma guitarra. Isso era já de si um bom consolo. Nunca pensou o que ela era no seu coração, agradava-lhe apenas pensar que ela estava lá sossegada como estavam muitas outras coisas. A importância de isso ser assim não fazia sentido, mas ele deixara-se de se importar com a razão das coisas, com os motivos complexos que a natureza lhes escondia. Bastava-lhe essa caricia que era tê-la no coração.
segunda-feira, setembro 01, 2003
Regresso
As férias já se foram e o primeiro dia de trabalho não me deixa grande ânimo para a escrita. Vou repôr a informação de como anda o mundo. Presumo que não tenha mudado muito, tudo questões de pormenor, as grandes notícias sabem-se logo. Vou confirmar.
quarta-feira, agosto 27, 2003
terça-feira, agosto 26, 2003
O Cupido Apaixonado
Cúpido, porque choras?
Sempre de vi tão feliz, que névoa triste poisou sobre ti e te fez parar, impossibilitando-te de bater as asas e vibrar na melodia intrigante de tuas canções? Tu criatura alada que me fizeste feliz vejo-te agora assim e sinto, sim, sinto que sou eu também que me afogo, que me amarelece o meu rosto de dor profunda, que também estou eu sofrendo dessa doença nostálgica.
Cúpido, porque choras?
Tu que me atiraste uma seta e com ela, apesar do sangue que jorrou, fizeste a minha intensa felicidade. Tu que me inebriaste com o melhor dos vinhos, que me tornaste imortal no pensamento da que amo e que me ama. Tu que me deste tanto, que posso eu fazer por ti? Pede-me tudo, quero ser eu a cumprir o teu desejo, farei a viagem mais longa pelos desterros do mundo, roubarei e matarei se necessário for para ter de volta o teu sorriso mágico, para ver de novo as tuas asas baterem, tão hábeis, tão rápidas e felizes como uma pequena libelinha no seu vôo livre da manhã. Quero ouvir de novo o som do teu arco, ouvi-lo de novo a vibrar como uma harpa, e depois, depois ouvir aquele som seco e brutal da seta a cravar-se na carne, cada vez mais dentro, mais adormecida no interior do corpo e ver então os amantes sorrirem, felizes.
Cúpido, porque choras? De que necessitas tu?
- Devolve-me a tua, a minha última seta?
Sempre de vi tão feliz, que névoa triste poisou sobre ti e te fez parar, impossibilitando-te de bater as asas e vibrar na melodia intrigante de tuas canções? Tu criatura alada que me fizeste feliz vejo-te agora assim e sinto, sim, sinto que sou eu também que me afogo, que me amarelece o meu rosto de dor profunda, que também estou eu sofrendo dessa doença nostálgica.
Cúpido, porque choras?
Tu que me atiraste uma seta e com ela, apesar do sangue que jorrou, fizeste a minha intensa felicidade. Tu que me inebriaste com o melhor dos vinhos, que me tornaste imortal no pensamento da que amo e que me ama. Tu que me deste tanto, que posso eu fazer por ti? Pede-me tudo, quero ser eu a cumprir o teu desejo, farei a viagem mais longa pelos desterros do mundo, roubarei e matarei se necessário for para ter de volta o teu sorriso mágico, para ver de novo as tuas asas baterem, tão hábeis, tão rápidas e felizes como uma pequena libelinha no seu vôo livre da manhã. Quero ouvir de novo o som do teu arco, ouvi-lo de novo a vibrar como uma harpa, e depois, depois ouvir aquele som seco e brutal da seta a cravar-se na carne, cada vez mais dentro, mais adormecida no interior do corpo e ver então os amantes sorrirem, felizes.
Cúpido, porque choras? De que necessitas tu?
- Devolve-me a tua, a minha última seta?
segunda-feira, agosto 25, 2003
Recorrência
É engraçado como esta frase escrita em 1992 tem uma recorrência extraordinária na minha vida:
Já consigo, em paz, olhar o verde.
Já consigo, em paz, olhar o verde.
Vem
vem. o amor existe, eu sei e já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal, que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos um do outro ou mesmo do mundo? vem. vai ser o amor a contar uma história, eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse, como se ao primeiro toque com qualquer coisa essa doença nos tomasse. foi só preciso um sinal claro dos teus olhos e eu não resisti. por isso digo. vem.
o tempo
faz tempo que procuro sangue novo na lua. a lua todos os dias sabe que o sol nasce nas palavras
mas raros são os dias em que a lua sonha. agrada-me que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. o tempo arrasta-se na baba do caracol, mas o caracol não sabe nada do que está para trás. o passado é apenas grão pronto a ser desfeito na mó do teu coração.
mas raros são os dias em que a lua sonha. agrada-me que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. o tempo arrasta-se na baba do caracol, mas o caracol não sabe nada do que está para trás. o passado é apenas grão pronto a ser desfeito na mó do teu coração.
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