quarta-feira, julho 23, 2003

Acenos

Hoje ouvi uma música antiga dos Soft Cell, o "Say Hello, Wave Goodbye". Gosto desta música por variados motivos para além do musical. Mas hoje apeteceu-me acrescentar duas palavrinhas ao título "Say Hello (Férias), Wave Goodbye (Trabalho)". Isso, e uma esplanada e eu ia passar a acreditar na humanidade.

A Boca

A solidão devasta-nos a alma. O silêncio perfura as bocas, mas delas só sai um oco inaudível. O lábio funde-se no lábio, uma porta estanque do teu sentir. Do meu também. Dizes que não queres viver na cidade que eu te escancarei como o amplo deserto das minhas riquezas. Eu aceito num silêncio resignado que te circunda, que te abraça, envolve, mas com força, com força desmesurada até sentir o teu desconforto. A perversão de uma maldade sem a forma, com a crueza das pessoas maltratadas, criança mimada que resignada amua, mas sem mostrar a mágoa que lhe acinzenta o sorriso. Despeço-me em lágrimas, não, volto atrás e seco as lágrimas que ainda não tinham saído, enxaguo a alma. Sento-me de novo, e digo: repete. Não, não repitas. Eu oiço bem, olho nos teus olhos e oiço o teu coraçao falar da mágoa que te vai por dentro, e dói, eu sei que dói. É a mim que mais dói. Mas não somos todos vitimas do destino? Baixas os olhos como se não quisesses falar, sabes que eu te leio, um livro onde salto parágrafos que não compreendo, onde vejo texto aonde é afinal é paisagem baça e descorada de coisas que nem tu percebes. Não é fácil, escondo-me na boca de onde as palavras não saiem. Um esconderijo onde brinco sempre. Nada é certo, nada é por certo errado. Há um corropio de vocábulos a circular na cabeça, uma leve corrente de ar que rodopia, e rodopia. Eu sei aonde vai dar, o vento, o vento que sopra nos campos fazendo vendavais de palavras que deviam ser ancarceradas, em palavras temperadas no acre da boca com paladar a mágoa. Não, não queremos isso pois não? Amaino as palavras iradas da cabeça, e dou-te a mão. A simples mão de amigo que tu ainda não compreendes. Vais compreender assim saiam as palavras correctas, as que desvendam o mistério, que percorrem os teus olhos de mar até as areias movediças do meu sentir. Eu ainda guardo o teu número.

Tudo mal

Estou furibunda. Vi agora mais uma atrocidade, daquelas que nos trespassam o dia e que tentamos sempre relevar, não dar demasiada importância para não nos aborrecermos com questõesinhas. Um gato a morrer atropelado. Sim, um acontecimento tão trivial no nosso quotidiano, que já o torna um apêndice da paisagem. Mas o que tem este assunto que possa deixar-me transtornada? Simples, a constatação de que o respeito pelo que nos rodeia tem cada vez menos valor, apreender nas actitudes diárias da população uma valoração moral a roçar o maléfico. Quanto tempo mais teremos de aguentar com a subtração continua de uma qualquer consciência cívica? A moral e a deontologia terão perdido todo o valor para a sociedade em geral, sendo seguida somente por uma pequena parte da população (que muitas vezes se envergonha de querer fazer o bem, algo ridicularizado hoje em dia na nossa sociedade - não falo aqui de colectas, doacções ou outros circos televisivos)? Terá a consciência perdido toda a força argumentativa? Ou será somente que vivemos numa época desprovida de conceitos éticos?
Quantos de vós são capazes de ajudar um idoso desconhcido a levantar-se ou a sentar-se?
Quantos de vós são capazes de dar passagem a um peão na passadeira quando já estão demasiado atrasados?
Mais simples ainda, até agora quantas pessoas saudaram, mesmo as desconhecidas?

JPP

Diz JPP no seu abrupto que a palavra "abismo encerra o medo dentro", eu sempre vi esta palavra como o arquétipo do vazio, da suspensão, a sensação que nos provoca terá mais a ver com a forma de vermos o mundo, o desconhecido provoca sensações e reacções diferentes em todos nós.

Soluço

Tenho a alma presa num pendor de dor,
aguilhonada por lágrimas salgadas,
a pele tersa na agonia de te perder,
os olhos comprimidos de pranto,
os ouvidos cheios de choro,
o sangue célere em correr,
vivo na memória de ti,
e da tua pena.

O vento corre,
deixa-me um pouco de ti,
tombando delicadamante,
leve como és,
não podes mais ferir.
Então porque magoa a tua ausência?

Nunca passa tempo demais,
o antes e o agora comungam,
como tu e eu fazíamos,
na longinqua vida de antanho.

O meu nome é agora a tua essência,
o meu ser tua descendência.

terça-feira, julho 22, 2003

Azar dos azares

Espero que nunca vos aconteça isto: estive mais de meia hora a escrever um post sobre uma aventura por blogs estrangeiros. Fiquei admirado de ter escrito tanto, e não é que, quando cliquei no botão do Post & Publish a m#$%a da Netcabo falhou e o post perdeu-se por completo. Como diz o anúncio da Frize "Tou que nem posso!". Lembrem-se antes de fazer Publish, façam CTRL-C. Melhor escrevam sempre no notepad e nunca directamente no Blogger Edit. Como li algures, "Dis Phukin' Thing Sux".

O começo da escrita

Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aó onde tu não estás - é o começo da escrita.
Roland Barthes, "Fragmentos de um discurso amoroso"

How low can you go?

Cada vez que começo a ler os diversos jornais on-line, fico atónita. Temos de ler um par deles de diferentes cores politicas, para poder filtrar todas as informações. Cada vez mais sinto-me como um Indiana Jones para tentar vislumbrar umas luzes do que se passa no mundo. O recente caso Dr. Kelly é mais uma prova de que, cada vez mais, temos de ter atenção ao que lemos.

Yhicks!

Há dias em que acordamos com uma disposição... Hoje se me dizem algo que não goste, estou capaz de escarafunchar a cara do interlocutor com socos.
Boa, encontrei uma nova qualidade para aqui escrever, serve de excelente "punchingbag" espiritual.

segunda-feira, julho 21, 2003

Os olhos

Os olhos? Os olhos têm pedrinhas lá dentro... Sáfiras brilhantes. São pequenos pedaços de magia quando brilham nas primeiras gotas da aurora. Choveu durante a noite, dizes tu com o desencanto de um sentir que ecoa nas paredes que preferimos desertas. O dia é como os outros dias em que o sol nos compromete, a chuva debita de mansinho uma melodia no vidro. Desenha quadros do Pollock que são efémeros e prateados, uma filigrana de mar que serpenteia em unissono com a minha preguiça. Tu abraças-me com os dedos, e vemos um filme escondido no silêncio perdido do olhar que se prolonga até a pele doer. O teu corpo é quente e frio o dia que nasce, frios os passos apressados das pessoas que se desviam da chuva que nos abrilhanta a manhã com um espectáculo na nossa janela. Não dizemos uma palavra, comemos os vocábulos nos beijos e as bocas saciadas são um jardim de flores murchas. Não sei se é do sono de uma noite incompleta de descanso, ou dos teus olhos... os teus olhos de sáfiras brilhantes não são para estes dias.

Desconcertante

Ia tomar café como fazia todos os dias, saia de casa automáticamente; pegar nas chaves de casa e colocar no bolso, óculos escuros na cabeça, um jeito ao cabelo, fechar a porta suavemente, chamar o elevador e aguardar olhando para a luzinha encarnada indicativa do real funcionamento do engenho. Dar o passo, sempre estranho, para dentro da caixa (as estórias que sempre ouvira de portas que se abrem no vazio, faziam que aquele fosse um passo arriscado e um acto de coragem) e deixar-se levar em pensamentos estranhos (achava que fazia parte da situação, a caixa do elevador tinha a condição de espaço diferente e convidativo a explorações dementes). Saiu da porta do prédio com o usual "Bom dia" ao porteiro. Seguiu para o café e quando chegou sentou-se na sua mesa, estava sempre limpa e com o cinzeiro à sua espera.
Sorriu para o empregado do café, pediu o jornal do dia para se lembrar de que existia algo mais à sua volta, antes de pegar no jornal sentia-se egoísticamente o ponto de partida para o mundo. Depois de ler achava sempre que era um pequeno ponto do nada. Sabia-lhe bem ser colocada assim na perspectiva global, pertencer a algo.
Nunca trocava mais do que duas ou três palavras durante as suas saídas. Levantava-se e dirigia-se de novo para o prédio. Entrava enquanto acenava gentilmente ao proteiro (parecia-lhe indelicado dizer bom dia num espaço temporal tão reduzido, optara à muito pelo trajeito de cabeça) e no hall decidia se ia pelas escadas ou se esperaria pelo elevador. Uma vez chegado ao apartamento, novo ritual inverso, colocar as chaves no recipiente, os óculos na caixa. Dirigia-se depois para a sala e no sofá deleitava-se com mais uma passagem do dia. O seu dia a dia consistia na saída para o café, o resto do dia era passado em deambulações hipotéticas sobre o que poderia acontecer de diferente no trajecto. Mais não esperava da vida.

A voz

Eu podia ser a voz do teu corpo. Podia ser a palavra mar a sair dos teus olhos, a catarata de lágrimas que o teu sorriso de gozo acompanhava na sonoridade infantil das tuas gargalhadas. Podia ser a palavra terra da amostra de pele que me oferecias nos momentos que te desnudavas no pudor de uma luz entreaberta na cortina da manhã. Podia ser o astrónomo que desvendava o mapa cósmico dos teus sinais castanhos, o desenhador das constelações que marcavam o teu corpo. Era o meu dedo a dar-lhes voz, como quem indica um trajecto numa estrada para a aventura, com rotas pré-programadas que te guiavam ao prazer. Eu podia ser a voz que prolongava os teus suspiros abafados na noite quente que nós faziámos incendiar. Eu podia ser a palavra fogo que vinha do teu corpo, podia ser a labareda vermelha dos teus lábios mordicados. Era a língua que falava de palavras que vinham da almofada dos lábios. Era a língua que cruzava com uma palavra silenciosa que ficava escondida e presa no teu olhar, banhado na luz baça da noite que parecia não acabar. Eu queria ser a voz da tua voz, queria ser o verbo do amor que no silêncio da resposta te mantiveste fechada. Eu que fui voz de mim e do meu corpo num mês de Primavera tão parecido com o teu nome.

domingo, julho 20, 2003

Blog

Uma das razões de criar um blog foi tentar recriar um ritmo de escrita que tinha acabado desde que deixei a faculdade. Não tem resultado muito, já que muita das coisas que tenho colocado aqui são do "arquivo". Vou esforçar-me um bocado mais, apesar de a preguiça ser uma coisa incontornável...

A lampada do mestre

Um mestre Zen e o seu discípulo seguiam por um caminho a meio da noite. O mestre tinha uma lanterna.
- Mestre - perguntou o discípulo - é verdade que podes ver no escuro?
- Sim, é verdade.
- Então para que é a lanterna?
- Para que os outros não choquem comigo.

Jean-Claude Carriére, in "Tertúlia de Mentirosos, Contos Filosóficos do Mundo Inteiro"

Raparigas bonitas

Alguém chegou até nós à procura no Google por raparigas bonitas, ele(s) não sabe(m), mas por isso temos a Brisa. Deus escreve certo por procuras extraviadas...

sábado, julho 19, 2003

Catarina: O que e um cemiterio?

No outro dia fui ao cemitério… ia dizer que fui ver a minha irmã, mas já não a posso ver. Foi a minha consciência que me levou lá. Tinha uma história que ela não devia ouvir para contar-lhe. Fiquei cerca de quinze minutos a olhar para aquela caixa de pedra com as flores que eu trouxera por cima e uma vela acesa por quem não faço ideia. Não tive coragem de falar para uma caixa, logo eu que falo pouco. Peguei no caderno que anda sempre comigo, daqueles de capa rígida e lombada forte como eu gosto. Oferta do meu ex-namorado. Mais um caso em que a matéria é mais forte do que os sentimentos. Peguei na caneta porque nunca escrevo a lápis e escrevi-lhe uma carta como se ela estivesse com os olhos pousados sobre a caneta a ver as letras contar a minha história quando ela se cruzou com a dela, com a pessoa que eu amava que era a pessoa que ela amava. Um segredo que nunca tive coragem de contar-lhe.
É a primeira vez que venho sozinha a um cemitério. Ainda por cima para te ver. Trouxe-te flores. Begónias. Aquelas flores que tu nunca viste, que sempre quiseste que te oferecessem… só pelo nome, porque achavas que era bonito.
Quero falar-te do Abel.
Quando saiamos muito os três e íamos ao cinema ou à discoteca nunca foi para que isto acontecesse. Estava sozinha porque já não estava apaixonada pelo André e o tinha deixado a chorar três dias até ter decidido nunca mais me ver para me esquecer. Nunca mais o vi, isso é certo. Comecei a achar graça ao Abel porque era a única pessoa que me fazia rir e esquecer um pouco a frustração de mais uma relação falhada. Estava desapaixonada do mundo e o Abel pegou-me ao colo… naquela noite que fomos aos anos da Bé, disse-me ao ouvido, eu no colo do Abel, com a voz a sair-lhe quente na minha orelha e a ouvir que ele queria falar comigo porque já não estava apaixonado por ti. Flávia, o meu coração assustou-se, só pensei na tua felicidade, e depois enquanto a minha mão e a do Abel se desprendiam do calor da pele e ficaram desprotegidas naquela noite fria, o meu coração emocionou-se com o calor do corpo do Abel, aquele calor de ternura que tinha começado a percorrer os meus sonhos. Os meus sonhos… todos os dias sonhava com o Abel e contigo. Tu, Flávia, lá ao fundo enevoada e triste, a chorar por esses teus olhos tão meigos.
Tentei deixar de sair convosco mas vocês insistiam sempre e eu não tinha razões para não ir. Só sabia que o Abel já não gostava de ti e essa esperança fazia-me olhar para ele de maneira diferente e eu não queria isso. Chegava a casa e ia chorar para a casa de banho debaixo do chuveiro para que ninguém percebesse que eu chorava, chegava ao teu lado porque me chamavas, eu com os olhos vermelhos a dizer que era do sabão e depois subia para a parte de cima do beliche esforçando-me para que nenhum sussurro da minha alma se escapasse para tu não perceberes a infelicidade em que eu vivia. Isto durou um mês.
Na festa de anos do Abel estávamos todos um pouco eufóricos e tu dizias que era culpa do álcool. Foi quando o Abel pegou-me outra vez ao colo porque dizia que eu andava aos tombos e perguntou se me lembrava do que ele me tinha dito quando me pegou ao colo da outra vez. Eu fiz entender que sim. Então, tu ias lá à frente com o resto do grupo, e ele disse que já não estava apaixonada por ti porque se tinha apaixonado por outra rapariga. Ficou a olhar para mim com aquele olhar apaixonado e eu percebi, o meu coração pulou mais alto que a razão e dei-lhe um beijo. Fugi a correr do colo dele para te abraçar como se te estivesse a proteger. Chegámos a casa e tu meteste-me na banheira porque eu estava bêbeda. Foi quando eu puxei o chuveiro para cima da cabeça e por debaixo daquela água tépida pus-me a chorar à tua frente sem que te apercebesses. Tu só te rias de mim…

Estrela

Queria ser a tua estrela no percurso da noite

Aberracoes

A argumentação de muita gente no que concerne ao comportamento humano parece levar sempre o timbre do esquecimento do facto de o ser humano pertencer ao género animal. É pena, isso só me faz pensar ainda com menos parcimónia de que somos uma aberração da natureza.

sexta-feira, julho 18, 2003

Tres horas da manha e uma estrada deserta

Abracei-me a ti de tal maneira que parecias um cobertor. Continuavas meiga e fofa como sempre, o que eu não estranhei. O nosso amigo estava morto entre aquilo que parecia ser o teu automóvel que felizmente não ias a conduzir. Nada mais podíamos fazer do que chorar as lágrimas que saltavam cá para fora pelos olhos com que tu me vias, e tu numa angústia tão grande que eu era capaz de sentir. Muito para além da minha. Não tiveste coragem de olhar para ele e eu muito menos. Abraçamo-nos uma vez mais como quem quer escapar para fora do seu corpo. Tu metias-te em mim com um sofrer que me doía. Moldavas-te a mim e eu julguei que era por nos conhecermos tão bem, mas parecia que o teu corpo queria entrar ainda mais dentro do que dantes. Um aperto em que eu sentia o teu coração, não a bater no meu peito, mas dentro dele ao ritmo do meu num compasso de dor que era brutalmente assustador. De repente ficámos sozinhos numa solidão indefinida com um sabor a perda que não queria sair da boca. Três horas da manhã e uma estrada deserta. Tínhamos algo em mãos mais duro de engolir do que a morte. A angústia do momento fez-te falar e eu ouvi-te como sempre te ouvi, profundamente, a tentar perceber aquilo que querias mesmo dizer na tua trôpega linguagem. Gostavas muito dele e eu sabia, mas não sabia o quanto.

Please....

Porque é que em Portugal se acha normal um grupo chamado "Cabeças no Ar" feito por alguns talentosos e outros menos deve estar destinado ao sucesso? É terrivel a amalgama de música que daqui sai, e o talento fica reduzido ao banal. Haja um pouco mais de respeito por nós e exijamos melhor!