A luz entrava por uma frincha escondida na madeira. Os teu cabelos abraçavam o meu pescoço, deixando a impressão da tua presença. Eu que amadureço nos teus dedos. A frincha abria um facho de luz cada vez mais forte, com o passar da manhã a morder a nossa preguiça. Parecia mais tarde, quando as horas soaram a despertar, tu, no teu movimento de princesa adormecida nas nuvens brancas do algodão. A pele escura e mordida pela noite amorosa; eras um qualquer ideal sonâmbulo e à deriva que aportou uma noite num leito junto à foz. Escondi-te nos meus sonhos tempos demais, Invernos e Primaveras consecutivas de ferrugem, a alma escondida no torniquete do óxido... e a vida tranquila no sentimento de desamor. Eras a imagem de uma rapariga que povoava os sonhos mas tão irreal como as imagens que víamos nas nuvens. As histórias que te escrevi todas desenhadas, traçadas no lápis cor de fogo da minha memória incendiária e pagã, histórias de um novo amor que mata outro inventado. Amadureci um novo amor nos teus lábios. Continuas a dormir com os teus cabelos longos, fazendo caricias dentro dos meus sonhos tranquilos. Tens um novo rosto, tão bonito e mais real do que anteriormente, agora que amadureço noutro coração.
terça-feira, abril 06, 2004
segunda-feira, abril 05, 2004
Links
Finalmente venci a preguiça e actualizei a lista de blogs da Espada Relativa. Alguns dos links já cá deviam estar à muito tempo, outros já deviam ter saído há muito. A culpa não é minha, é da preguiça.....
Duelos
As frases não me saem tão facilmente como dantes. Tenho sempre que pesar a gramagem inoportuna das palavras que caem como folhas soltas no Outono. Andas perdida numa luta de sentimentos contraditórios, e a mentira é para ti um modo de vida. O duelo que fazes entre a razão e o sentimento é o de toda a gente, só que com mais sofrimento. Não sei porque isso te causa tanta estranheza. Mas não te posso explicar. Já quase não gosto de ti.
As palavras continuam contundentes como sempre. As discussões são inevitáveis. Impingis-me o teu amor como se a reciprocidade fosse uma taxa obrigatória que eu tivesse de pagar. Querias que as palavras bonitas me saíssem da boca ao ritmo impulsivo das tuas inseguranças, como se elas fossem um creme que que te protegesse do vento seco que sopra nos dias de Novembro. As palavras bonitas não saiem, ficam presas na garganta, amarrotadas no torniquete das tuas críticas.
Se percebesses o esforço que reservo no meu silêncio...
As palavras continuam contundentes como sempre. As discussões são inevitáveis. Impingis-me o teu amor como se a reciprocidade fosse uma taxa obrigatória que eu tivesse de pagar. Querias que as palavras bonitas me saíssem da boca ao ritmo impulsivo das tuas inseguranças, como se elas fossem um creme que que te protegesse do vento seco que sopra nos dias de Novembro. As palavras bonitas não saiem, ficam presas na garganta, amarrotadas no torniquete das tuas críticas.
Se percebesses o esforço que reservo no meu silêncio...
domingo, abril 04, 2004
Hoje
Eu hoje parei para ouvir a luz e sonhar que o vento paira sobre a névoa. Sem velejar entre os espelhos as imagens discorrem em seco, sem aquele bafo molhado da manhã. Hoje não vejo o mármore das estátuas, nem o cobre ou o bronze esculpido. Paredes meias com as nuvens, a escorrer ideias em jeito de estranheza, onde sugo o alecrim derretido em sumo. Hoje já não quero, porque querer não é querer, nem desejar somente se pode. As aranhas sem teias, desnorteadas, escapam à sua própria fuga e tementes à sua covardia, se arredam. Que os caminhos que desconhecem, resguardam nos olhares silenciosos, só para maltratar a sua própria fragilidade
E hoje, hoje já é ontem...
E hoje, hoje já é ontem...
sábado, abril 03, 2004
...
Esse tempo em que não éramos nada, em que nos perdiámos na memória das coisas. Acabamento único, num quandro, uma pintura de aguarela aonde se vertia a água dos sonhos. A maldição da noite, a maldição dos tempos infindos. Doia-me a alma de Verão. Destruias-me os sonhos por dentro, a alma revirada do avesso. O amor e o desamor em contraste. Uma sinfonia de ódio latente. A vida às escuras, à espera de brilhar nos teus olhos.
quinta-feira, abril 01, 2004
100 Éter nem Eternismos: I2
Será minha a sorte de invejar-te a solidão? E prender no céu uma corda frouxa para segurar-me com a força de dois cavalos e descer por ela a todo o vapor? Será esse o direito de existir? Ou apenas a pena de um réu que nunca se livrou da inocência? Ou é já apenas só sexo o amor?
Parabéns e Champagne
Abram o champagne!! A Espada Relativa faz hoje um ano, mesmo que pareça mentira, até pelo dia de hoje, que nos tenhamos aguentado no activo durante tanto tempo. Claro que houve fases menos de menor actividade e quase não sobrevivemos às férias de Agosto. Este também não é um blog de notícias e nem sempre a inspiração desponta quando queremos. A todos os colaboradores, dos mais aos menos assiduos, eu ergo a minha taça! Aos que por aqui passam para nos lerem, as bebidas são por conta da casa. Salut!!
quarta-feira, março 31, 2004
Dias
Por vezes, os dias parecem-me excessivamente parados. Como hoje. Mesmo contigo às voltas no carrossel mágico da minha imaginação.
terça-feira, março 30, 2004
O silêncio das palavras
São como nós secos que ficam na garganta, são palavras estranguladas à porta dos lábios, são palavras retidas em bocas que se mordem... de silêncio. São palavras malditas, encarceradas, edificadas pelo medo... sempre o medo, de pronunciar palavras mal ditas.
São como nós, nódulos ásperos de uma coroa de espinhos em torno de um pescoço. São um colar de pérolas temeroso, nem de pedras nem preciosas. São só palavras surdas dirigidas de si a si, em torno do seu... silêncio! São como nós, estreitos e estranguladores, desfigurados sons amarrados à própria vergonha, à própria garganta, ao pavor, ao ser erro… errar…
Apenas palavras cerradas em hipocrisias gestuais, gestos de fuga, de ausência...
O silêncio triste das palavras mal ditas.
São como nós, nódulos ásperos de uma coroa de espinhos em torno de um pescoço. São um colar de pérolas temeroso, nem de pedras nem preciosas. São só palavras surdas dirigidas de si a si, em torno do seu... silêncio! São como nós, estreitos e estranguladores, desfigurados sons amarrados à própria vergonha, à própria garganta, ao pavor, ao ser erro… errar…
Apenas palavras cerradas em hipocrisias gestuais, gestos de fuga, de ausência...
O silêncio triste das palavras mal ditas.
segunda-feira, março 29, 2004
A sonoridade das palavras
Sabes como soletrar palavras, cadências tão ritmadas. Sentes as consoantes roçarem entre os lábios, são gritos e tão eufóricos. E ainda: os gestos de tão marcado sentimentalismo, os rituais de tão compensador hábito.
Sabes como compor as frases, sequências tão verosímeis. Sentes as vogais voarem na garganta sem atrito, são beijos e tão calorosos. E ainda: as palavras de tão sonoras, os diálogos de tão longo prazer.
Sabes como compor as frases, sequências tão verosímeis. Sentes as vogais voarem na garganta sem atrito, são beijos e tão calorosos. E ainda: as palavras de tão sonoras, os diálogos de tão longo prazer.
As palavras certas no momento oportuno
Dies Irae
*
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
*
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
*
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
*
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)
*
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
*
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
*
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
*
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)
domingo, março 28, 2004
Dos estranhos, a voz
Falava com a alma inundada em lágrimas. "A alma chora mais que os olhos" – alguém pensou. Olhava para baixo, para a a mesa tão solitária, como poderia olhar o tecto e sentir o vazio.
Tudo era-lhe indiferente… até eu. Como o seria qualquer outro, não se importava de tão desesperada de que eu, sim: eu! lhe escutava as palavras e a voz, tão triste… como destino.
Falava. E eu escutava suas lágrimas, as mágoas. E ouvia, sim: sei ouvir! o sofrimento alheio, algo que
não fica indiferente em mim porque eu: eu sou amigo de alguém!
Tudo era-lhe indiferente… até eu. Como o seria qualquer outro, não se importava de tão desesperada de que eu, sim: eu! lhe escutava as palavras e a voz, tão triste… como destino.
Falava. E eu escutava suas lágrimas, as mágoas. E ouvia, sim: sei ouvir! o sofrimento alheio, algo que
não fica indiferente em mim porque eu: eu sou amigo de alguém!
sábado, março 27, 2004
Deste amor impossível
O grito. Voz surda que reclama direitos. Que não tem. Que nãos abe se quer ter. ainda grita. E gritara, enquanto durar a dor. Todo o prazer, e ainda: a dor. Quer; não pode. Amar. Ouve-se um grito: de dor? De prazer? Raciocina, conjuga as palavras. Não sabe, não conhece a resposta. Dor pelo prazer; ou, prazer pela dor? Sabe que está preso. Que se enredou numa teia, num bosque de árvores densas. Não pode sair, não pode escapar: daí, desse local recôndito, a floresta, ouve-se partir um grito. Este amor impossível. Incomum. Um amor por descobrir. Que é amor e não é. Amor. Existe, e no entanto não se concretiza. A voz grita, já como vício. Amor sem regras, sem estereótipos. Impossível, tanto é. Hoje. Tanto não é. Amanhã. Foi e deixou de o ser. Tantas vezes. A memória esqueceu-se da própria memória. Abandonou-se. Já se esqueceu. O tempo. Já não se quer lembrar. O amor. Impossível. Que se reencontra em sucessivas aventuras. Separadas por um tempo. Ainda quer esquecer o tempo, o grito. Preenchido por palavras... de palavras de amor. As quais se tomam por um outro sentimento. Falso. Para enganar. O sentimento. A voz ainda grita, o amor impossível. E grita, com toda a força que possui, para não ter de ouvir... o próprio grito.
quinta-feira, março 25, 2004
De pensar as palavras
Falava com uma certa angústia, saiam-lhe palavras azedas pelo céu da boca mas não ligava a esse paladar amargo que lhe ficava sobre a língua. Era uma linda boca – alguém pensou. Falava com o desprezo que a estranhos se dá, com o olhar gelado desse tom frio e azul que longamente espreitava. o infinito. Eram uns lindos olhos – alguém pensou. Falava como só ebriamente se fala, num rodopio louco de palavras e nem se apercebia do seu discurso. Sincero. E que tão ingrata seria a indiferença. Que linda sensação - alguém pensou.
De recordar o amor
este amor confuso que erra sem destino, tanto é o medo do amor. amor, o amor ainda receia amar. esse passado recordado que perturba sempre, e são tantas as mágoas. ainda recorda a dor. o amor, esse acto preferido que os amantes procuram. tanto é o prazer, mas amor, ainda prefiro amar. nesse tempo guardado que a memória relembra. são tantas as recordações, amor, ainda guardo lembranças...
o amor ainda escreve:
que o amor que sente é impossível de se fazer esquecer. que é essa a dor. que sentiu o sofrimento, esmagador, de tão cegamente amar. e que essa é a sua fuga. e ainda diz: que ninguém lhe merece... amor. de tanta ser a maldade lembrada. que essa é a verdade. e diz, que amar é interdito, agora, por outros amores lembrados. que é essa a sua confusão.
o amor ainda escreve:
que o amor que sente é impossível de se fazer esquecer. que é essa a dor. que sentiu o sofrimento, esmagador, de tão cegamente amar. e que essa é a sua fuga. e ainda diz: que ninguém lhe merece... amor. de tanta ser a maldade lembrada. que essa é a verdade. e diz, que amar é interdito, agora, por outros amores lembrados. que é essa a sua confusão.
...
As palavras? Perdi-as. Os gestos? Esqueci-os... A saudade? Quem me dera ainda saber como é.....
quarta-feira, março 24, 2004
...
O amor é, decididamente, um lugar estranho.....
terça-feira, março 23, 2004
Poema à rapariga que não era poesia II
A história tem teu rosto gravado no projecto da memória. Tu cativas mas não comoves. Julgas que a poesia faz milagres, que os sonhos podem ser sonhados mas, repara: a realidade não é apenas fruta podre que se engole. Tu, rapariga nua, despiste a poesia do teu corpo e vives agora apagada de deslumbramento, uma sombra de desilusão. Tu, rapariga nua, perdeste as palavras que cobriam teu corpo, adjectivos que se colavam à tua pele e te adornavam como uma rainha.
Deusa lírica da epopeia do amor, tu, rapariga nua, és uma velha estrela ainda cintilante mas vestida de um brilho apagado, à custa dos versos sumidos, dos poemas amarrotados, do lixo em que te transformaste.
Deusa lírica da epopeia do amor, tu, rapariga nua, és uma velha estrela ainda cintilante mas vestida de um brilho apagado, à custa dos versos sumidos, dos poemas amarrotados, do lixo em que te transformaste.
poema à rapariga que não era poesia
quem faz uma frase faz tua a canção. curtos e tresloucados versos são teus cabelos com rimas redondas no canto dos olhos. quem faz um verso faz tua a sedução. a tua simpatia afável livre como as palavras, a sonoridade marcante do lirismo do teu corpo. quem faz uma estrofe faz tua a paixão. cativar e comover, essa pretensa poesia de deslumbramento e desilusão - o verdadeiro teatro. quem faz um poema faz tua a decisão. nasce morto o amor, morre viva a paixão, enfim o prazer saciado em teu corpo de palavras nuas.
Memórias
-Antes o sol punha-se ali...
-Para mim, o sol põe-se ali, numa casa com um terraço, onde te vejo desaparecer todos os dias...
-Para mim, o sol põe-se ali, numa casa com um terraço, onde te vejo desaparecer todos os dias...
sábado, março 20, 2004
sexta-feira, março 19, 2004
Feliz Dia do Pai... ;)
A um pai
*
É um Pai o calor de toda a frieza,
O despertar suave do mais leve dos sonhos;
O doce no amargo, mais meigo na dureza,
Andar sem receio de fechar os olhos.
*
Ter mão na dor, suficiência na calma,
Amar acima da razão do ser
Beijar um rosto como quem beija a alma,
Ter Pai é ser rei, mesmo sem o saber;
*
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior...
Mas um Pai tem o orgulho de ser superior
Ao falar aos outros da experiência vivida...
*
Traz no rosto a memória do que entrou mas não sai,
No olhar a alegria de ser chamado Pai,
E no peito a saudade, o lado triste da vida...
*
*
É um Pai o calor de toda a frieza,
O despertar suave do mais leve dos sonhos;
O doce no amargo, mais meigo na dureza,
Andar sem receio de fechar os olhos.
*
Ter mão na dor, suficiência na calma,
Amar acima da razão do ser
Beijar um rosto como quem beija a alma,
Ter Pai é ser rei, mesmo sem o saber;
*
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior...
Mas um Pai tem o orgulho de ser superior
Ao falar aos outros da experiência vivida...
*
Traz no rosto a memória do que entrou mas não sai,
No olhar a alegria de ser chamado Pai,
E no peito a saudade, o lado triste da vida...
*
Ausencia
Eu gosto de falar dela, de contar as suas aventuras. Gosto de envaidecer as suas qualidades, de brincar com os seus defeitos. Gosto, sobretudo, de a recordar, de a ter comigo em todos os instantes. Nem sempre posso estar com ela, e isso impele-me a falar dela, ou então como agora, de escreve-la, de retrata-la por adjectivos, que é o mesmo que esculpi-la de uma outra forma que não a física. É o poder das palavras, esse poder que as palavras têm para despertar imagens, que me faz falar dela, permite-me subtrair a sua ausência.
O toque
Ela poisou a mão no meu peito. Fê-lo somente com o desejo de me cumprimentar. Não chegou a ser o toque fascinante da carícia. Mas apesar de ela apenas me ter tocado no peito, tocou-me muito mais fundo, e talvez… de uma forma bem mais fascinante. Tocou-me na memória.
quinta-feira, março 18, 2004
às vezes é preciso pensar
Com os meus resumidos 17 anos, vejo que já aprendi muito com o amor.
Aprendi a pensar em mim própria antes de me lembrar dos outros.
Aprendi que não pode haver expectativas porque corre sempre tudo ao contrário. Que não se pode ter esperança nem sonhar porque acaba por nos partir o coração. O sol também se apaga e a Lua perde o encanto quando estamos assim.
Aprendi que os beijos, o roçar de pele e o calor do que nos une acaba sempre por chegar ao fim, mas as palavras ficam para sempre no peito de quem as ouve.
E no arrependimento de quem as diz.
Aprendi que os horizontes que avistamos juntos são imaginários e mais tarde parecem-nos tristemente ridículos, que o mar passa de vasto a inútil e que a vida é muito mais curta do que pensamos saber.
Que todas as lágrimas são em vão e todas também acabam por secar.
O tempo não cura tudo, longe disso, mas traz-nos outros pontos de vista.
Aprendi que o orgulho, ou pelo menos a dignidade, são o mais importante e tudo o que nos resta no final.
Aprendi a pensar em mim própria antes de me lembrar dos outros.
Aprendi que não pode haver expectativas porque corre sempre tudo ao contrário. Que não se pode ter esperança nem sonhar porque acaba por nos partir o coração. O sol também se apaga e a Lua perde o encanto quando estamos assim.
Aprendi que os beijos, o roçar de pele e o calor do que nos une acaba sempre por chegar ao fim, mas as palavras ficam para sempre no peito de quem as ouve.
E no arrependimento de quem as diz.
Aprendi que os horizontes que avistamos juntos são imaginários e mais tarde parecem-nos tristemente ridículos, que o mar passa de vasto a inútil e que a vida é muito mais curta do que pensamos saber.
Que todas as lágrimas são em vão e todas também acabam por secar.
O tempo não cura tudo, longe disso, mas traz-nos outros pontos de vista.
Aprendi que o orgulho, ou pelo menos a dignidade, são o mais importante e tudo o que nos resta no final.
...
"The days are bright and filled with pain
Enclose me in your gentle rain
The time we ran was too insane
We'll meet again, we'll meet again..."
(The Doors)
Enclose me in your gentle rain
The time we ran was too insane
We'll meet again, we'll meet again..."
(The Doors)
sexta-feira, março 12, 2004
...
A gente com peste e a raiva cega dos cães
os esgotos aldrabados
meia laranja cortada na areia
na praia: uma balada
os esgotos aldrabados
meia laranja cortada na areia
na praia: uma balada
Frase Conclusiva: E Eu Proprio Tambem, e Alias Bem
Quando o pano cai e a nódoa fica
neste fim teatral desta farsa carmim
tom de carne rosada disfarçada de teia
e aranha estranha de vida estragada
Predador e caçador da urbe capital
dos pecados amaldiçoados dos cegos da fé
em cafés sóbrios de gente ébria
e um tudo quase nada mal exigente do bem
na sua homogénea de um ténue radicalismo
de aparências e ares artificiais
a gente quase ébria da loucura latente
que pensa e sente como quem não o faz
nesse juízo incapaz de ajuizar
e perceber o erro crasso que fazem
sem saber, que eu não me esqueço
da maçada desta farsa teatral
de gente que ri tão só por fora
as tristezas e avarezas interiores e em si
25maio90, 11h15mns.
neste fim teatral desta farsa carmim
tom de carne rosada disfarçada de teia
e aranha estranha de vida estragada
Predador e caçador da urbe capital
dos pecados amaldiçoados dos cegos da fé
em cafés sóbrios de gente ébria
e um tudo quase nada mal exigente do bem
na sua homogénea de um ténue radicalismo
de aparências e ares artificiais
a gente quase ébria da loucura latente
que pensa e sente como quem não o faz
nesse juízo incapaz de ajuizar
e perceber o erro crasso que fazem
sem saber, que eu não me esqueço
da maçada desta farsa teatral
de gente que ri tão só por fora
as tristezas e avarezas interiores e em si
25maio90, 11h15mns.
quinta-feira, março 11, 2004
passos ao luar
Sentada na minha pedra, vou desfiando lágrimas ao luar
e escuto o que ele diz.
O mar é calmo hoje, tem todas as tuas qualidades
mas também os teus defeitos,
e quem me dera ser poeta para os poder descrever.
Desfolho pétalas de uma rosa antiga
e desfolho segredos também.
Ninguém me ouve,
que importa?
Só os passos do luar me acompanham
e tu já não estás comigo.
As palavras perdem-se assim, e tanto tu como eu
já não sabemos delas...
As lembranças que caminham por aqui roubam passos ao luar
a quem os dá
e não tenta viver sob uma estrela.
Os astros são sempre assim, frios
(também a tua existência continuou sem mim,
eras o meu sol),
resta um marulho lá no fundo que permita recordar...
Dói-me a alma
e a coragem que não tive de ser feliz.
*
e escuto o que ele diz.
O mar é calmo hoje, tem todas as tuas qualidades
mas também os teus defeitos,
e quem me dera ser poeta para os poder descrever.
Desfolho pétalas de uma rosa antiga
e desfolho segredos também.
Ninguém me ouve,
que importa?
Só os passos do luar me acompanham
e tu já não estás comigo.
As palavras perdem-se assim, e tanto tu como eu
já não sabemos delas...
As lembranças que caminham por aqui roubam passos ao luar
a quem os dá
e não tenta viver sob uma estrela.
Os astros são sempre assim, frios
(também a tua existência continuou sem mim,
eras o meu sol),
resta um marulho lá no fundo que permita recordar...
Dói-me a alma
e a coragem que não tive de ser feliz.
*
mais uma vez sem título...
Foi sal em vão todo o que chorei
Por ti, por passos que acabam no chão
Por marcas de sonho e saudade onde andei,
Por gotas que me desfolham a fragmentação
*
Foi trilho de mágoa, sem pedaço de céu
Espada que aos teus olhos quase me obrigou
Entrego ao luar o que a minha dor perdeu,
Vou chorando com o mar tudo o que me marcou
*
E quanto mais choro mais o meu mundo cai...
Os passos do luar que de mim já não sai
E o beijo na sombra que o teu tempo me deu...
*
Tentei alcançar o espaço sem mar,
Mas a cor do céu no instante a acabar
E a lágrima que fica p'ra sempre, sou eu...
*
Catarina Inês
Por ti, por passos que acabam no chão
Por marcas de sonho e saudade onde andei,
Por gotas que me desfolham a fragmentação
*
Foi trilho de mágoa, sem pedaço de céu
Espada que aos teus olhos quase me obrigou
Entrego ao luar o que a minha dor perdeu,
Vou chorando com o mar tudo o que me marcou
*
E quanto mais choro mais o meu mundo cai...
Os passos do luar que de mim já não sai
E o beijo na sombra que o teu tempo me deu...
*
Tentei alcançar o espaço sem mar,
Mas a cor do céu no instante a acabar
E a lágrima que fica p'ra sempre, sou eu...
*
Catarina Inês
quarta-feira, março 10, 2004
KelkeXosElektroNiK
Depois de uma ausência prolongada o KelkeXOse volta com uma nova mistura desta vez dedicada a momentos menos ritmados. Uma sessão Lounge para ouvir até ao inicio da Primavera.
Para ouvir o link está no lado direito.
Playlist:
01. Brandi Ifgray - Stranglehold [4:52]
02. Aqua Bassino - Time To Go [7:36]
03. Miro - Emotions Of Paradise [7:58]
04. Troublemakers - Too Old To Die [4:39]
05. Sven Van Hees - Seasonal Bounty (Smooth '94) [4:45]
06. The Amalgamation Of Soundz - Enchant Me (Original Version) [6:23]
07. Butti - Brasilikum [5:08]
08. Lais - Dorothea (Buscemi Remix) [4:16]
09. Gabin - Terra Pura [5:16]
10. Gare Du Nord - Tune Up [5:18]
11. Miguel Migs - One [4:44]
12. D-Note - D-Votion [7:02]
Para ouvir o link está no lado direito.
Playlist:
01. Brandi Ifgray - Stranglehold [4:52]
02. Aqua Bassino - Time To Go [7:36]
03. Miro - Emotions Of Paradise [7:58]
04. Troublemakers - Too Old To Die [4:39]
05. Sven Van Hees - Seasonal Bounty (Smooth '94) [4:45]
06. The Amalgamation Of Soundz - Enchant Me (Original Version) [6:23]
07. Butti - Brasilikum [5:08]
08. Lais - Dorothea (Buscemi Remix) [4:16]
09. Gabin - Terra Pura [5:16]
10. Gare Du Nord - Tune Up [5:18]
11. Miguel Migs - One [4:44]
12. D-Note - D-Votion [7:02]
terça-feira, março 09, 2004
Já não vale
Já não vale olhar para trás
Já não vale sequer o prazer de recordar
Já não vale mais nada; a não ser a razão de não se objectivar
Sou como uma metamorfose surrealista e as minhas palavras, uma osmose de não sei quê
Já não vale sequer o prazer de recordar
Já não vale mais nada; a não ser a razão de não se objectivar
Sou como uma metamorfose surrealista e as minhas palavras, uma osmose de não sei quê
segunda-feira, março 08, 2004
Tales of Oblivion.03
I surrender myself to your knees, it is an entire jailed sun in your sight that bends me down. In that time a forget the honor as I fall in the abyss fulfilled of shyness. Next second all is forgiveness, and I restart to dare you.
Entrego-me a teus pés no momento da procura, é o sol inteiro aprisionado nos teus olhos que me verga. Num instante esqueço-me da honra e tombo no abismo da covardia o meu olhar. No segundo seguinte já esqueci, e recomeço o confronto.
Entrego-me a teus pés no momento da procura, é o sol inteiro aprisionado nos teus olhos que me verga. Num instante esqueço-me da honra e tombo no abismo da covardia o meu olhar. No segundo seguinte já esqueci, e recomeço o confronto.
quarta-feira, março 03, 2004
Conversa entre amigos
Transcrevo com o devido consentimento um pequenissimo excerto de uma conversa que tive com uns amigos.
- Ó pá, acredita... Eu não ando lá muito bem.
- Só tenho de acreditar, em menos de uma hora de conversa, já utilizaste expressões como "ando com o coração ao pé da boca", "tenho o estomâgo colado às costas" e "parece que tenho a cabeça a funcionar nos genitais"... não admira.
- ah, ah! Já vi Frankenstein's com melhor aspecto.
- Ó pá, acredita... Eu não ando lá muito bem.
- Só tenho de acreditar, em menos de uma hora de conversa, já utilizaste expressões como "ando com o coração ao pé da boca", "tenho o estomâgo colado às costas" e "parece que tenho a cabeça a funcionar nos genitais"... não admira.
- ah, ah! Já vi Frankenstein's com melhor aspecto.
terça-feira, março 02, 2004
Tales of Oblivion.02
All the times I hold my thoughts away from you, your blinking eyes are calling me to your mouth. Smiles swirls like a carrousel in a mighty fair, and I as the clown lost in the Mirror House. Sometimes, I forget you. It's a painted trail wished and in permanent drink drawed, but it only lasts a little yearn.
De todas as vezes que os meus pensamentos fogem de ti, os teus olhos reluzentes parecem chamar-me de novo para a tua boca. Os sorrisos rodopiam como um carrossel de uma feira popular, e eu o palhaço na casa dos espelhos. As vezes, não me lembro de ti. É um negro que eu queria riscado a tinta permanente, mas que dura apenas a fracção de um suspiro.
De todas as vezes que os meus pensamentos fogem de ti, os teus olhos reluzentes parecem chamar-me de novo para a tua boca. Os sorrisos rodopiam como um carrossel de uma feira popular, e eu o palhaço na casa dos espelhos. As vezes, não me lembro de ti. É um negro que eu queria riscado a tinta permanente, mas que dura apenas a fracção de um suspiro.
segunda-feira, março 01, 2004
Tales of oblivion.01
When the sun sparks frostly through the wide window who exposes my body to the cold, is when your beauty appeals me most. The images unstable as leafs falling down thru oblivion. The cells are dying in me as they are being done of use, the use of leaving you inside my eyes.
Quando o sol raia numa manhã gelada e da janela aberta com o corpo exposto ao frio é quando mais aprecio a tua beleza. As imagens não ficam e são perenes folhas outonais destacadas da árvore do esquecimento. São células que morrem posta a sua última utilidade, a de eu fechar os olhos contigo lá dentro.
Quando o sol raia numa manhã gelada e da janela aberta com o corpo exposto ao frio é quando mais aprecio a tua beleza. As imagens não ficam e são perenes folhas outonais destacadas da árvore do esquecimento. São células que morrem posta a sua última utilidade, a de eu fechar os olhos contigo lá dentro.
quarta-feira, fevereiro 18, 2004
Silêncio
O silêncio é muito relativo, mesmo quando é uma espada gélida que corta a meio uma conversação.
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
...
Entre os lírios entreabertos e a verdejante doçura do brilho celeste, abre-se a áurea colmeia de sonhos e morre lentamente na boca o sorriso. Entre a fraternidade esquecida dos beijos e a colmeia de hexagonos doces, derrete-se em mel a luz e posso querer compreender, compreender acima de tudo a loucura patente.
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Conversas
Extracto de uma conversa que ouvi nesta noite de Sábado.
- Não achas que ela é um bocado novinha para ti?
- Isso passa-lhe.
Não há dúvida o tempo cura tudo.
- Não achas que ela é um bocado novinha para ti?
- Isso passa-lhe.
Não há dúvida o tempo cura tudo.
quinta-feira, janeiro 29, 2004
quarta-feira, janeiro 28, 2004
Horizonte
olho o horizonte de uma viagem esquecida, são recortes por entre as montanhas onde são abruptos os pontos de ruptura. peço-te, vem. talvez ignorando o meu nome, o meu rosto, vem irada, vem confusa e mesmo se estiveres perdida, vem. e esquece o teu passado, e esquece a tua ira. encontra-me e corresponde; ao olhar com um beijo; à palavra proferida com a mão dada e amor... acima de tudo. terás o meu poema junto à cabeceira como uma carícia. vem, vem mesmo que eu tenha partido, mesmo que isso signifique regressar a ti depois de te ter perdido no tempo das procuras. eu que era incapaz de controlar ânsias. mas peço-te, regressa. com outro nome, outro rosto. traz só uma mochila às costas, carrega pouca coisa, traz poucas recordações - não te esqueças do humor. traz o poema que ignoravas ser meu, e encontra-me. não no fim do tempo mas no princípio de uma qualquer viagem.
26.Fevereiro.1995
26.Fevereiro.1995
terça-feira, janeiro 27, 2004
As Pedras II
Essa pedra na tua mão, tão pequena e tão redonda do tamanho da palma da tua mão, tens mais pedras para atirar? Essa pedra na tua mão, tão inocente e tão presa na força que fazes, é a mim que a vais atirar? Essa pedra na tua mão tem uma mancha marcada com sangue vivo e brilhante, foi essa a que te atirei?
segunda-feira, janeiro 26, 2004
Corri
Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. Corri a mão sempre amena na boca, no peito, até apertar com a força do escândalo a tua barriga de mulher grávida. E corri de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do teu sexo, repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar a todos os olhos de outros. E no teu útero, como um toque divino,
fiz nascer-te em amor para mim.
09.Janeiro.92
fiz nascer-te em amor para mim.
09.Janeiro.92
quinta-feira, janeiro 22, 2004
O meu grito de amor
O meu grito de amor é como um salto no escuro da tua timidez. Tenho os teus segredos no meu baú, hás de acreditar. Nos beijos que negaste terás o teu desejo mais pueril. Na alma que desleixaste descobrir estará o elixir da tua felicidade. Hás de rogar e pedir a branca pomba esvoaçada, a minha mão estendida de amigo - minh’ alma desacreditada. Hás de sonhar até a perda do meu afecto, pedir de volta o olfacto, a carícia do meu perfume. Querer os beijos do meu amor, trocar lágrimas por sorrisos meus e amar o amor que distribui, que doei, em carícias mutiladas d’ amor.
O meu grito de amor é como a coragem esquecida dos beijos.
Se silenciar a minha boca ou se calar o meu olhar, mesmo que isso não toque o gesto, será sempre impossível sobre o frio do teu olhar sentir o calor do meu desejo. Sempre covarde e sempre tímido, sempre complexado e retraído; (a mais ingénua imagem do meu corpo deixa de transparecer no reflexo da tua imagem; está para sempre calada no teu sorriso, para sempre fechada na tua boca bela)
O meu grito de amor requer mais do que apenas desejo.
Este pensamento em bruto como um diamante não lapidado, só pensa na urgência,
nessa urgência que existe no medo, nesse medo da saudade por onde caminham distâncias longas. Em fiadas infinitas de cordas, nós de medo, de esperança
como que feitos de uma fé latente percorrendo em contínuo o terço. A religiosidade do temor. A irrepreensível saudade.
O meu grito de amor já prescinde da tua voz
A mente, porque a reteve - a tua voz, essa voz memória que é tua, só tua, é uma condição de especiaria como um açúcar para um doce.
O meu grito de amor largou a agonia e o vazio do meu corpo, ecoou para o exterior como um estertor. A minha pálida alegria esvoaçada. E para sempre há de doer
o seu som, em ti. Ou pelo menos, no dia em que o escutares.
O meu grito de amor é como a coragem esquecida dos beijos.
Se silenciar a minha boca ou se calar o meu olhar, mesmo que isso não toque o gesto, será sempre impossível sobre o frio do teu olhar sentir o calor do meu desejo. Sempre covarde e sempre tímido, sempre complexado e retraído; (a mais ingénua imagem do meu corpo deixa de transparecer no reflexo da tua imagem; está para sempre calada no teu sorriso, para sempre fechada na tua boca bela)
O meu grito de amor requer mais do que apenas desejo.
Este pensamento em bruto como um diamante não lapidado, só pensa na urgência,
nessa urgência que existe no medo, nesse medo da saudade por onde caminham distâncias longas. Em fiadas infinitas de cordas, nós de medo, de esperança
como que feitos de uma fé latente percorrendo em contínuo o terço. A religiosidade do temor. A irrepreensível saudade.
O meu grito de amor já prescinde da tua voz
A mente, porque a reteve - a tua voz, essa voz memória que é tua, só tua, é uma condição de especiaria como um açúcar para um doce.
O meu grito de amor largou a agonia e o vazio do meu corpo, ecoou para o exterior como um estertor. A minha pálida alegria esvoaçada. E para sempre há de doer
o seu som, em ti. Ou pelo menos, no dia em que o escutares.
Sete x
Um. Um presente envenenado: uma caricia simples fluida de água e um beijo rápido em boca inocente como uma semente não germinada num jardim recente.
Dois. Um dia após só lágrimas, só caricias a envelhecerem, talvez o começo de tormentos em mares azuis... ou sonhos perseguidos por detractores.
Três. Flores desabrocham entre espinhos como rosas oferecidas e despojadas em lixo; uma terra estragada em coberturas de rosas, talvez um jardim germinado a cansar-se, a esgotar-se em lágrimas.
Quatro. Um aniversário de descobertas, um reencontro merecido. Lágrimas reaquecidas na boca do céu. Estrelas gastas num céu de lama e beijos pedidos e não rejeitados.
Cinco. Uma desgraça imprevista; o gesto do beijo - uma traição. Um amor oferecido e outro rejeitado. Amor, fez-se amor na mente. Calcou-se o jardim,
maltrataram-se as flores, choveu, sempre a chuva ácida, o ácido das lágrimas sobre nós a queimarem-nos em labaredas como amor a criar ódio.
Seis. A morte do encanto; a estratégia do fim ou a morte da sensualidade. O jardim que recusa renascer, talvez o tédio da previsão acontecida.
Sete. Uma história por escrever... talvez um apartamento a construir-se
sobre um jardim outrora florido.
Dois. Um dia após só lágrimas, só caricias a envelhecerem, talvez o começo de tormentos em mares azuis... ou sonhos perseguidos por detractores.
Três. Flores desabrocham entre espinhos como rosas oferecidas e despojadas em lixo; uma terra estragada em coberturas de rosas, talvez um jardim germinado a cansar-se, a esgotar-se em lágrimas.
Quatro. Um aniversário de descobertas, um reencontro merecido. Lágrimas reaquecidas na boca do céu. Estrelas gastas num céu de lama e beijos pedidos e não rejeitados.
Cinco. Uma desgraça imprevista; o gesto do beijo - uma traição. Um amor oferecido e outro rejeitado. Amor, fez-se amor na mente. Calcou-se o jardim,
maltrataram-se as flores, choveu, sempre a chuva ácida, o ácido das lágrimas sobre nós a queimarem-nos em labaredas como amor a criar ódio.
Seis. A morte do encanto; a estratégia do fim ou a morte da sensualidade. O jardim que recusa renascer, talvez o tédio da previsão acontecida.
Sete. Uma história por escrever... talvez um apartamento a construir-se
sobre um jardim outrora florido.
terça-feira, janeiro 20, 2004
O Favo
Ela reluziu o espelho azul nos seus olhos, incendiou-lhe os olhos, sempre os olhos; em chamas vagas de amor, de cortesias bem simuladas. Reage com a pele ao seu tacto, sempre a pele; toques suaves. Resta-lhe um pouco de felicidade... ainda… de derrota em derrota derrotado, a tentar almejar a luz rutilante, em beijos e ternuras cansadas. De sempre a sempre, beijos beijados em bocas de mel… boca de abelha. E retirou do seu corpo - como se de um favo fosse - o açúcar em fusão… derretido; em calores de fogo. E no seu corpo – o favo amado - soube lamber o xarope, a geleia açucarada como se bebesse no seu sexo apenas a lágrima de ontem. O seu passado de dores e desventuras desfiguradas - a fogueira - o seu corpo em fogueira doce aonde ele se despede da recordação.
domingo, janeiro 18, 2004
quinta-feira, janeiro 15, 2004
O Banho
Quero lavar-me em lágrimas e deixar para ti a minha alma limpa. Retirar o pó escuro de recordações passadas e dos bocados dispersos dos remendos de um coração. E nessa água de lama, nessa mistura viscosa de decepções que não se misturam no correr límpido do tempo que, ainda disperso, já é nosso, adorar as canções dos teu suspiros de mel a escorrer pela parede táctil do meu rosto. Amar a vibração tépida dis sons de África; o ribombar do teus lábios a baterem eufóricos sobre os meus, pateticamente trémulos e desejosos. Acordar de manhã no lugar que agora sonho e nessa ilusão de te ver difusa, perder-me na inconstância do passado, tão sujo, mas que eu limpo suavemente agarrando as tuas lágrimas com as minhas. E entrelaçadas nesse querer hão-de transformar água em ácido e derreter a sólida e inamovível montanha do passado. Formando um rio que corre numa direcção serena de aleatoriedade mas carregando uma água cristalina de um sentimento nascente.
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Beco
Está escuro, um frio sibilante sopra pelo meu ombro fazendo um sussurro. Vai acontecer alguma coisa, estou rodeado numa rua estreita e sinuosa, com água correndo entre canais de pedras escorridas. Sinto-me espremido por um medo e uma ânsia enorme como se o assalto de mim acontecesse já. Já, mesmo agora antes de acontecer. Ouço passos de um chegar que me faz querer partir, mas que não saio com os pés. Colados que eles estão, tão fixos de uma vontade de fugir. Estou preparado para o assalto de mim, pelo beco estreito de só existir uma brecha que se abre numa entrega. Mais fuga que apetite de pele. Áspero e rugoso o toque na parede do sabor, um querer que arde em labaredas de um fogo já dito invisível. E eu sei que vai acontecer o assalto de mim. Não me roubes, peço-te quando chegas, quando já sei que o estreito é demasiado estreito, quando não há laterais de refúgio mas apenas a tua palavra a declamar um querer pesado e demasiado e impossível de resistir. Uma arma fria esses teus olhos que não cuidam em mim. Vais dar-te em oferenda de uma salvação inoportuna, o teu beijo vai acontecer na minha boca e esse beijo matará e morrerá na minha boca.
E mesmo que a minha boca não descreva nada do teu beijo nem mesmo no extremo dos tempos resgatados, sinto-me roubado das palavras da minha boca.
E mesmo que a minha boca não descreva nada do teu beijo nem mesmo no extremo dos tempos resgatados, sinto-me roubado das palavras da minha boca.
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Nunca Sereia
Casa de um estranho caracol que na lentidão do tempo, com a preguiça redonda dos relógios se mostra envolvendo na sua saliva doce. São perfumes libertados por palavras e ternuras escondidas em olhos apagados de ausência. Ausência pronunciada por uma voz calada, ouvidos surdos que só amam elogios. E uma inteligência perturbadora que intimida como o sibilar dos guizos de uma cobra cascavel, ou uma cobra real que se endireita ao som de uma flauta - um encantamento que eu tentava erigir como uma obra primaveril cheia de odores e feno, e flores de molas de uma cama e um lençol; do leito de sonhos que fiz para te deitar e me afundar num paraíso secreto debaixo da água azul felicidade dos teus olhos. olhinhos que beijam como peixinhos fazendo boquinhas e bolinhas pequenas de ar, muito ar para respirar, debaixo da água da minha, da nossa, muito escondida vida.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
A circunferencia do tempo
Não era preciso perderes-te no tempo porque os ponteiros já já nada marcavam no meu interior. Circunferência da vida dos regressos não esperes do tempo a partida sem retorno. Só os boomerangs são como pêndulos e, se não voltam, é porque matam. Não foi na guerra dos tempos sucessivos que lutamos desde o começo das canções, as canções que fiz à tua porta e em tua esperança. Tu, lá dentro e adormecida sobre um querer já gasto do gosto de eu te querer. Fiz do dormente desejo do amor a mão dada de uma aliança escondida, esse convite que negaste no instante, no mesmo segundo da oferenda. Resposta faísca e relâmpago e cheia de luz, tão forte e intensa de cegueira, de raiva bruta e amor desfeito. E outra vez os ponteiros circularam sobre mim como queda em abismo de nada.
A resposta do tempo
Apetece-me esconder-te do mundo.
Parar o tempo nas nove de horas de uma das manhãs mais frias que me ocorre lembrar, a minha mão a segurar na tua sem podermos sentir o tacto da pele, impedidos pelas luvas que nos negavam o aconchego. A luz dos teus olhos entrando nos meus, no mesmo tom e brilho do céu azul e já luminoso da manhã. Parava os relógios do mundo e celebrava o momento com um beijo nos teus lábios de vermelho e riso. Se me fosse permitido. Se fosse uma vontade também tua. Mas, talvez o frio congelasse a acção e eu, não mais do que uma covardia exposta, encalhava nos teus olhos de mar. Mas o tempo não parava nem mesmo que eu forçasse um silêncio sobre ti. A tua mão fugia sobre a minha como um adeus que viria a seguir. Eu deslizava pelos segundos amarrado ainda à maré vibrante dos teus olhos de mar.
É tudo mentira.
Eu queria que o tempo corresse, lentamente sim, mas que me desses a mão ainda com mais força, que a tua mão deslizasse sobre a minha como uma carícia sem tempo nem limite de tempo. Que os teus olhos se fechassem como quando se fecham na esperança de um beijo que nos ilumina o interior. Que o beijo sossegasse o sofrer da alma como se um sol novo e de verão surgisse por dentro e virasse o sentir do avesso. Que a tua beleza me mostrasse uma outra forma de acordar. Uma outra forma de adormecer. Que o teu riso fosse um despertador do tédio do quotidiano. Que todas as ilusões que criaste em mim fossem apenas as verdades do tempo futuro, que vagueando na maré dos teus olhos de mar, deixei acovardadas na resposta do tempo de dizer adeus.
Parar o tempo nas nove de horas de uma das manhãs mais frias que me ocorre lembrar, a minha mão a segurar na tua sem podermos sentir o tacto da pele, impedidos pelas luvas que nos negavam o aconchego. A luz dos teus olhos entrando nos meus, no mesmo tom e brilho do céu azul e já luminoso da manhã. Parava os relógios do mundo e celebrava o momento com um beijo nos teus lábios de vermelho e riso. Se me fosse permitido. Se fosse uma vontade também tua. Mas, talvez o frio congelasse a acção e eu, não mais do que uma covardia exposta, encalhava nos teus olhos de mar. Mas o tempo não parava nem mesmo que eu forçasse um silêncio sobre ti. A tua mão fugia sobre a minha como um adeus que viria a seguir. Eu deslizava pelos segundos amarrado ainda à maré vibrante dos teus olhos de mar.
É tudo mentira.
Eu queria que o tempo corresse, lentamente sim, mas que me desses a mão ainda com mais força, que a tua mão deslizasse sobre a minha como uma carícia sem tempo nem limite de tempo. Que os teus olhos se fechassem como quando se fecham na esperança de um beijo que nos ilumina o interior. Que o beijo sossegasse o sofrer da alma como se um sol novo e de verão surgisse por dentro e virasse o sentir do avesso. Que a tua beleza me mostrasse uma outra forma de acordar. Uma outra forma de adormecer. Que o teu riso fosse um despertador do tédio do quotidiano. Que todas as ilusões que criaste em mim fossem apenas as verdades do tempo futuro, que vagueando na maré dos teus olhos de mar, deixei acovardadas na resposta do tempo de dizer adeus.
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Ai
Descobri que os chineses utilizam o termo "ai" para simbolizar amor ou afeição. Só me apetece dizer, ai ai isto não é um bom prenúncio!
terça-feira, dezembro 23, 2003
sábado, dezembro 20, 2003
...
É tudo tão sem nexo e tu não o mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces
sexta-feira, dezembro 19, 2003
Toujours vencu
Simplesmente horrível. O sentimento de derrota que nos assola face ao inevitável da doença. Não se podem glorificar os predicados, se o espírito está submetido ao pulsar congestionate do sangue.
Estória de um mestre
Por ventura foi nesse espaço de tempo que o mestre se afogueou perante a aldeia recoberta de neve.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.
quinta-feira, dezembro 18, 2003
Changes
A sensação de ondas que nos trespassam o ventre quando temos decisões importantes para tomar, podem ser viciantes. Espero não ficar dependente, mas a verdade é que já quase só funciono sob pressão. Se as coisas acalmam, fico sem saber como agir. Porque é que nos transformamos nestas pilhas de nervos frenéticas?
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.
As tascas
Em honra de quem chegou até nós via "Bebia porque queria afogar as mágoas" voltamos a publicar esta pequena história.
Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.
Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.
Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.
Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.
Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.
Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.
Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.
Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.
Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.
Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.
Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.
Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?
Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.
Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.
Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.
Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.
Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.
Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.
Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.
Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.
Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.
Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.
Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.
Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?
Cheio
Reparo agora que enches a minha vida. Já não tenho espaço na caixa postal do telemóvel, tenho o arquivo do mail completo com o que me envias. Não gosto de me desfazer de nada que te diga respeito. Parece que estaria a deitar fora um pouco de ti. O amor é assim, egoista.
Sensação Nitida
"O amor tem muitas sortes.
A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.
A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."
in "Nitida", um romance por acabar
A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.
A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."
in "Nitida", um romance por acabar
Pensamento de um outro dia
Há tantas coisas que desconhecemos. E ainda temos coragem de acreditar no que julgamos conhecer.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
O Ciume
O ciúme. O ciúme, diz-se, é uma prova de amor. O ciúme é a experiência da perda. Por isso, diz-se do ciúme que ele é uma prova de amor. Que é um reconhecimento daquilo que possuímos. O reconhecimento da existência de um amor. A prova. É a prova de necessidade de exclusão de qualquer outra identidade numa relação. É a exaltação de uma exclusividade. Por isso, ele é uma experiência de perda. É uma vez mais uma experiência motivada pelo medo. Quantas relações já se afundaram por causa desse medo de perda? Quantas vezes esse sentimento de possessão, de exclusividade, foi tão exarcebadamente fictício que arruinou relações estáveis? Quem é alvo do ciúme, da pessoa enciumada, é alvo da desconfiança. O ciúme, em si, não é corrosivo como um veneno (ou não é ele uma prova de amor?), mas a desconfiança que ele provoca, que ele imiscui na relação é algo verdadeiramente corrosivo. Ou o amor, não é ele também feito de confiança?".
terça-feira, dezembro 16, 2003
Narcisismos
Nesta quadra sobressalta o repentino cariz bom samaritano que pulula em todas as catedrais de consumo.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.
Triste
Nem a alegria matinal de ver o Enzo mais animado (a cirurgia correu bem, mas dado o peso dele, a recuperação vai ser estremamente lenta...), consegue afastar a aura de tristeza que me sorve. O Natal nem sempre é uma época de alegria. Não quando o celebramos mais sós. Há vazios que não se podem preencher.
Esquartejar
Num movimento brusco
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.
Mil e uma cores,
dançam dentro.
O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.
Voam doces cheiros
em sonhos vistos.
Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.
Suave toque em mãos
que nunca recusam.
Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.
Agreste paladar,
que se vê sucumbir.
Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.
Mil e uma cores,
dançam dentro.
O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.
Voam doces cheiros
em sonhos vistos.
Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.
Suave toque em mãos
que nunca recusam.
Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.
Agreste paladar,
que se vê sucumbir.
Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.
...
Como sabes?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?
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I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates
segunda-feira, dezembro 15, 2003
Sometimes
Aguardar que as situações aconteçam nunca foi o meu forte. Perfiro um golpe forte e seco que me derrube a estar cambaleante à espera da queda. Não me dou bem com espectativas.
Ao Porto de ti.13
maio parece querer acabar com a utopia. as palavras comidas no seu da boca, secam. os dentes sibilam uma dor branca, são corrupios de texto debaixo da frincha da porta. não tenho para onde ir. jorram palavras vermelhas na fonte do amanhã a ponto de formarem um rio de borboletas ainda presas no casulo do sentir. trigésimo segundo dia do mês de maio, já partiu o dia que sucede à mesma noite. as palavras fazem cócegas na língua do amor. saiem finalmente as borboletas no oco da boca voando como pétalas arrancadas à flor.
Ao Porto de ti.12
Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que flutua ao vento e arranha as braçadeiras lassas do meu coração. Procuro a verdade no tapete de seixos maduros; por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou e o nevoeiro é um tear onde se tece a pele: o embrulho esfarrapado das veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo: para ti, ou qualquer outra coisa sem guarida
Ao Porto de Ti.11
Nas nuvens, no húmido do ar, um sol torrado feito brasão da angústia. Nas nuvens, permanece o grão de gelo da loucura sem a forma disforme do arvoredo. Danço na folia do vento proibido enquanto o mar salva-me outra vez pela manhã. De onda em onda se repete o mandamento. A chuva tilinta nos canos do céu e eu no ralo, no redemoinho que esvai o sonho.
sexta-feira, dezembro 12, 2003
Acqua
Olhar. Sentir. Estranha a sensação que ficamos quando lembramos os melhores mergulhos da nossa vida. O Altíssimo encontra-se também guardado na nossa memória, nas recordações estéticas.
Descobertas
Quando não tenho um papel para apontar uma frase que me surja na cabeça, utilizo o telemóvel para a guardar. Claro que muitas das vezes nunca mais me lembro de as ir ver e vão ficando por ali mesmo por tempos infindos. Desta vez descobri esta: "O mundo é um destino cor de rosa suspenso nas brumas do teu sentir". Isto só pode ter sido escrito numa daquelas noites de desvario que só terminam pela manhã. Argggg!!!
quinta-feira, dezembro 11, 2003
Un'altra volta
Estou espalmada. Sem forças. Há alturas em que, por muito que desejemos, não conseguimos reagir. Estou assim. Neste limbo de quem ainda não percebeu a realidade em toda a sua dimensão. Faço uma pausa. Tento focar toda a situação. Continuo sem perceber.
Metter sotto
Tiro uns minutinhos para agradecer todo o cuidado e preocupação demonstrada na busca do Enzo.
Os esforços não foram em vão. Foi encontrado, encontra-se de momento internado num veterinário, vítima de atropelo. Uma bacia partida é o quadro clínico mais grave.
De qualquer forma não posso deixar de expressar a minha alegria pelas constantes demostrações de apoio recebidas.
É bom saber que tantos se preocupam.
Os esforços não foram em vão. Foi encontrado, encontra-se de momento internado num veterinário, vítima de atropelo. Uma bacia partida é o quadro clínico mais grave.
De qualquer forma não posso deixar de expressar a minha alegria pelas constantes demostrações de apoio recebidas.
É bom saber que tantos se preocupam.
Proximidade
Às vezes queremos encurtar distâncias com as pessoas. Queremos ser próximos. Podemos até querer ser intimos. Chegamos mesmo a manifestar as nossas intenções em palavras. Às vezes, muitas vezes, a outra parte não correponde, e nós sentimos como injutiças as outras pessoas. Sentimos isso muitas vezes, como se fossemos uma parte rejeitada do universo. Quando sentimos esse desejo, esse desejo de estar mais próximo do outro, esquecemos tanta vez que também o outro está longe de nós, que somos ambos distantes e que só o desejo não basta para preencher esse espaço que fica escuro e enevoado de permeio. O nosso desejo não deve destruir o espaço e roubar a distância de um segundo ao outro. Querer ser próximo de alguém, desejar alguém, é esse romance de nos irmos aproximando. Esse pode ser um sentido para a vida. Obrigado pela lição.
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Desapareceu
Ok, pode não ser tão famoso como um cão desaparecido um dia na Lapa mas é-nos muito mais querido. Desapareceu na zona de Cristo Rei, perto da Avenida Marechal Gomes da Costa, Porto. Pesa 65 kgs de ternura apesar do aspecto imponente de um Mastim Napolitano. Quem o achar que não fique todo babado de o ter. A recompensa é a melhor de sempre, o nosso eterno agradecimento. Dá-se pelo nome de Enzo, mas podem trata-lo por Enzini ou qualquer outra coisa afectuosa. Desde já agradecidos.
terça-feira, dezembro 09, 2003
A escrita
No blog Os Espelhos Velados, um dos meus homónimos que leio com a mesma frequência em que há posts ;), pergunta-se sobre a existência da escrita: "onde estamos quando não escrevemos?". Eu por mim estou a divertir-me, desenganem-se quem julga pelos textos que escrevo que a vida é só um estado de sofrimento, a escrita sim. A escrita é um grito da alma, um bater do coração que se quer fazer ouvir. "Escrever é não querer morrer"*.
*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.
*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.
Google Search
Há muito que não verificava de onde porvinham os que até aqui chegam, desta vez um visitante chegou por "simpatias afastar amantes". Com tantos textos de amantes afastados, só podem vir enganados.
A Razão do Poeta
à C.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.
Embuste
Muito se fala da antipatia dos Espanhóis para com os Portugueses. Este fim de semana confirmámos em absoluto que este embuste só pode vir dos velhos do Restelo que ainda pululam por cá. Com simpatia e profissionalismo fomos atendidos por todo o lado. A civilidade é um sinal de progresso, sem dúvida.
sexta-feira, dezembro 05, 2003
Escorial
Neste prenuncio de visita aos nuestros hermanos (eu digo sempre primos...), lembro uma das mais deliciosas e impressionantes incursões, o Escorial com o imponente e dramático Vale dos Caídos. Aí temos uma perfeita noção da grandeza da beleza e do sacrificio para a alcançar.
Trocadilhos
Ontem, em conversa com uma rapariga que acabara de conhecer a determinada altura ela pergunta-me se me pode fazer uma pergunta indiscreta, eu respondo-lhe que sim, que pode, que na realidade até gosto que me ponham entre a espada e a parede. Ao que ela me contesta com um "relativamente a quê?". Eu só me perguntei: será que ela lê blogs?!
Xacobeo
Numa viagem de aparente peregrinação, lembro que as nossas missivas apostólicas nem sempre são bem sucedidas. Uma oferenda feita, em tempos idos, ao santo casamenteiro com uma das antigas moedas de cinco "duros" (daquelas que tinham um buraco no meio), serviu como condutor para uma estória de amor de fim infeliz. O que faz lembrar que é sempre necessário o máximo de excelência, mesmo nas petições menores.
Odisseia: a um ou outro amor não consagrado
I
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta
II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem
III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura
IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários
V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava
VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste
VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão
VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista
IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu
X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor
XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor
XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento
XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada
XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta
II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem
III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura
IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários
V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava
VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste
VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão
VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista
IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu
X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor
XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor
XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento
XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada
XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...
quinta-feira, dezembro 04, 2003
Le silence de la mer
A aparente calma faz-me sempre desconfiar. Quanto mais sossegadas são as pessoas, mais tumultuosa lhes adivinho a alma.
terça-feira, dezembro 02, 2003
Dimenticare
Será de esquecer o que se diz no pico da fúria? Ou não será este o momento da verdade, em que estamos mais próximos da nossa verdadeira natureza?
Senses
On skin relives,
of silky feellings
I've found your touch.
Warm tender kisses
promised the moon.
In rage stormy words
that ravished the dreams.
Sand castles built
in cotton clouds,
will provide hostage
to the pilgrim soul.
Tides of fury crashing
the tenderness
of sweet words
whispered.
I stand still, waiting
for your redemption.
of silky feellings
I've found your touch.
Warm tender kisses
promised the moon.
In rage stormy words
that ravished the dreams.
Sand castles built
in cotton clouds,
will provide hostage
to the pilgrim soul.
Tides of fury crashing
the tenderness
of sweet words
whispered.
I stand still, waiting
for your redemption.
Ao Porto de ti.07
fui passear pela tarde. apeteceu-me. vi flores bonitas mas não as peguei por ser proibido.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.
Ao Porto de ti.06
vem. o amor existe eu sei. já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos nós um do outro ou mesmo do mundo?
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.
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