quinta-feira, janeiro 29, 2004
quarta-feira, janeiro 28, 2004
Horizonte
olho o horizonte de uma viagem esquecida, são recortes por entre as montanhas onde são abruptos os pontos de ruptura. peço-te, vem. talvez ignorando o meu nome, o meu rosto, vem irada, vem confusa e mesmo se estiveres perdida, vem. e esquece o teu passado, e esquece a tua ira. encontra-me e corresponde; ao olhar com um beijo; à palavra proferida com a mão dada e amor... acima de tudo. terás o meu poema junto à cabeceira como uma carícia. vem, vem mesmo que eu tenha partido, mesmo que isso signifique regressar a ti depois de te ter perdido no tempo das procuras. eu que era incapaz de controlar ânsias. mas peço-te, regressa. com outro nome, outro rosto. traz só uma mochila às costas, carrega pouca coisa, traz poucas recordações - não te esqueças do humor. traz o poema que ignoravas ser meu, e encontra-me. não no fim do tempo mas no princípio de uma qualquer viagem.
26.Fevereiro.1995
26.Fevereiro.1995
terça-feira, janeiro 27, 2004
As Pedras II
Essa pedra na tua mão, tão pequena e tão redonda do tamanho da palma da tua mão, tens mais pedras para atirar? Essa pedra na tua mão, tão inocente e tão presa na força que fazes, é a mim que a vais atirar? Essa pedra na tua mão tem uma mancha marcada com sangue vivo e brilhante, foi essa a que te atirei?
segunda-feira, janeiro 26, 2004
Corri
Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. Corri a mão sempre amena na boca, no peito, até apertar com a força do escândalo a tua barriga de mulher grávida. E corri de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do teu sexo, repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar a todos os olhos de outros. E no teu útero, como um toque divino,
fiz nascer-te em amor para mim.
09.Janeiro.92
fiz nascer-te em amor para mim.
09.Janeiro.92
quinta-feira, janeiro 22, 2004
O meu grito de amor
O meu grito de amor é como um salto no escuro da tua timidez. Tenho os teus segredos no meu baú, hás de acreditar. Nos beijos que negaste terás o teu desejo mais pueril. Na alma que desleixaste descobrir estará o elixir da tua felicidade. Hás de rogar e pedir a branca pomba esvoaçada, a minha mão estendida de amigo - minh’ alma desacreditada. Hás de sonhar até a perda do meu afecto, pedir de volta o olfacto, a carícia do meu perfume. Querer os beijos do meu amor, trocar lágrimas por sorrisos meus e amar o amor que distribui, que doei, em carícias mutiladas d’ amor.
O meu grito de amor é como a coragem esquecida dos beijos.
Se silenciar a minha boca ou se calar o meu olhar, mesmo que isso não toque o gesto, será sempre impossível sobre o frio do teu olhar sentir o calor do meu desejo. Sempre covarde e sempre tímido, sempre complexado e retraído; (a mais ingénua imagem do meu corpo deixa de transparecer no reflexo da tua imagem; está para sempre calada no teu sorriso, para sempre fechada na tua boca bela)
O meu grito de amor requer mais do que apenas desejo.
Este pensamento em bruto como um diamante não lapidado, só pensa na urgência,
nessa urgência que existe no medo, nesse medo da saudade por onde caminham distâncias longas. Em fiadas infinitas de cordas, nós de medo, de esperança
como que feitos de uma fé latente percorrendo em contínuo o terço. A religiosidade do temor. A irrepreensível saudade.
O meu grito de amor já prescinde da tua voz
A mente, porque a reteve - a tua voz, essa voz memória que é tua, só tua, é uma condição de especiaria como um açúcar para um doce.
O meu grito de amor largou a agonia e o vazio do meu corpo, ecoou para o exterior como um estertor. A minha pálida alegria esvoaçada. E para sempre há de doer
o seu som, em ti. Ou pelo menos, no dia em que o escutares.
O meu grito de amor é como a coragem esquecida dos beijos.
Se silenciar a minha boca ou se calar o meu olhar, mesmo que isso não toque o gesto, será sempre impossível sobre o frio do teu olhar sentir o calor do meu desejo. Sempre covarde e sempre tímido, sempre complexado e retraído; (a mais ingénua imagem do meu corpo deixa de transparecer no reflexo da tua imagem; está para sempre calada no teu sorriso, para sempre fechada na tua boca bela)
O meu grito de amor requer mais do que apenas desejo.
Este pensamento em bruto como um diamante não lapidado, só pensa na urgência,
nessa urgência que existe no medo, nesse medo da saudade por onde caminham distâncias longas. Em fiadas infinitas de cordas, nós de medo, de esperança
como que feitos de uma fé latente percorrendo em contínuo o terço. A religiosidade do temor. A irrepreensível saudade.
O meu grito de amor já prescinde da tua voz
A mente, porque a reteve - a tua voz, essa voz memória que é tua, só tua, é uma condição de especiaria como um açúcar para um doce.
O meu grito de amor largou a agonia e o vazio do meu corpo, ecoou para o exterior como um estertor. A minha pálida alegria esvoaçada. E para sempre há de doer
o seu som, em ti. Ou pelo menos, no dia em que o escutares.
Sete x
Um. Um presente envenenado: uma caricia simples fluida de água e um beijo rápido em boca inocente como uma semente não germinada num jardim recente.
Dois. Um dia após só lágrimas, só caricias a envelhecerem, talvez o começo de tormentos em mares azuis... ou sonhos perseguidos por detractores.
Três. Flores desabrocham entre espinhos como rosas oferecidas e despojadas em lixo; uma terra estragada em coberturas de rosas, talvez um jardim germinado a cansar-se, a esgotar-se em lágrimas.
Quatro. Um aniversário de descobertas, um reencontro merecido. Lágrimas reaquecidas na boca do céu. Estrelas gastas num céu de lama e beijos pedidos e não rejeitados.
Cinco. Uma desgraça imprevista; o gesto do beijo - uma traição. Um amor oferecido e outro rejeitado. Amor, fez-se amor na mente. Calcou-se o jardim,
maltrataram-se as flores, choveu, sempre a chuva ácida, o ácido das lágrimas sobre nós a queimarem-nos em labaredas como amor a criar ódio.
Seis. A morte do encanto; a estratégia do fim ou a morte da sensualidade. O jardim que recusa renascer, talvez o tédio da previsão acontecida.
Sete. Uma história por escrever... talvez um apartamento a construir-se
sobre um jardim outrora florido.
Dois. Um dia após só lágrimas, só caricias a envelhecerem, talvez o começo de tormentos em mares azuis... ou sonhos perseguidos por detractores.
Três. Flores desabrocham entre espinhos como rosas oferecidas e despojadas em lixo; uma terra estragada em coberturas de rosas, talvez um jardim germinado a cansar-se, a esgotar-se em lágrimas.
Quatro. Um aniversário de descobertas, um reencontro merecido. Lágrimas reaquecidas na boca do céu. Estrelas gastas num céu de lama e beijos pedidos e não rejeitados.
Cinco. Uma desgraça imprevista; o gesto do beijo - uma traição. Um amor oferecido e outro rejeitado. Amor, fez-se amor na mente. Calcou-se o jardim,
maltrataram-se as flores, choveu, sempre a chuva ácida, o ácido das lágrimas sobre nós a queimarem-nos em labaredas como amor a criar ódio.
Seis. A morte do encanto; a estratégia do fim ou a morte da sensualidade. O jardim que recusa renascer, talvez o tédio da previsão acontecida.
Sete. Uma história por escrever... talvez um apartamento a construir-se
sobre um jardim outrora florido.
terça-feira, janeiro 20, 2004
O Favo
Ela reluziu o espelho azul nos seus olhos, incendiou-lhe os olhos, sempre os olhos; em chamas vagas de amor, de cortesias bem simuladas. Reage com a pele ao seu tacto, sempre a pele; toques suaves. Resta-lhe um pouco de felicidade... ainda… de derrota em derrota derrotado, a tentar almejar a luz rutilante, em beijos e ternuras cansadas. De sempre a sempre, beijos beijados em bocas de mel… boca de abelha. E retirou do seu corpo - como se de um favo fosse - o açúcar em fusão… derretido; em calores de fogo. E no seu corpo – o favo amado - soube lamber o xarope, a geleia açucarada como se bebesse no seu sexo apenas a lágrima de ontem. O seu passado de dores e desventuras desfiguradas - a fogueira - o seu corpo em fogueira doce aonde ele se despede da recordação.
domingo, janeiro 18, 2004
quinta-feira, janeiro 15, 2004
O Banho
Quero lavar-me em lágrimas e deixar para ti a minha alma limpa. Retirar o pó escuro de recordações passadas e dos bocados dispersos dos remendos de um coração. E nessa água de lama, nessa mistura viscosa de decepções que não se misturam no correr límpido do tempo que, ainda disperso, já é nosso, adorar as canções dos teu suspiros de mel a escorrer pela parede táctil do meu rosto. Amar a vibração tépida dis sons de África; o ribombar do teus lábios a baterem eufóricos sobre os meus, pateticamente trémulos e desejosos. Acordar de manhã no lugar que agora sonho e nessa ilusão de te ver difusa, perder-me na inconstância do passado, tão sujo, mas que eu limpo suavemente agarrando as tuas lágrimas com as minhas. E entrelaçadas nesse querer hão-de transformar água em ácido e derreter a sólida e inamovível montanha do passado. Formando um rio que corre numa direcção serena de aleatoriedade mas carregando uma água cristalina de um sentimento nascente.
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Beco
Está escuro, um frio sibilante sopra pelo meu ombro fazendo um sussurro. Vai acontecer alguma coisa, estou rodeado numa rua estreita e sinuosa, com água correndo entre canais de pedras escorridas. Sinto-me espremido por um medo e uma ânsia enorme como se o assalto de mim acontecesse já. Já, mesmo agora antes de acontecer. Ouço passos de um chegar que me faz querer partir, mas que não saio com os pés. Colados que eles estão, tão fixos de uma vontade de fugir. Estou preparado para o assalto de mim, pelo beco estreito de só existir uma brecha que se abre numa entrega. Mais fuga que apetite de pele. Áspero e rugoso o toque na parede do sabor, um querer que arde em labaredas de um fogo já dito invisível. E eu sei que vai acontecer o assalto de mim. Não me roubes, peço-te quando chegas, quando já sei que o estreito é demasiado estreito, quando não há laterais de refúgio mas apenas a tua palavra a declamar um querer pesado e demasiado e impossível de resistir. Uma arma fria esses teus olhos que não cuidam em mim. Vais dar-te em oferenda de uma salvação inoportuna, o teu beijo vai acontecer na minha boca e esse beijo matará e morrerá na minha boca.
E mesmo que a minha boca não descreva nada do teu beijo nem mesmo no extremo dos tempos resgatados, sinto-me roubado das palavras da minha boca.
E mesmo que a minha boca não descreva nada do teu beijo nem mesmo no extremo dos tempos resgatados, sinto-me roubado das palavras da minha boca.
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Nunca Sereia
Casa de um estranho caracol que na lentidão do tempo, com a preguiça redonda dos relógios se mostra envolvendo na sua saliva doce. São perfumes libertados por palavras e ternuras escondidas em olhos apagados de ausência. Ausência pronunciada por uma voz calada, ouvidos surdos que só amam elogios. E uma inteligência perturbadora que intimida como o sibilar dos guizos de uma cobra cascavel, ou uma cobra real que se endireita ao som de uma flauta - um encantamento que eu tentava erigir como uma obra primaveril cheia de odores e feno, e flores de molas de uma cama e um lençol; do leito de sonhos que fiz para te deitar e me afundar num paraíso secreto debaixo da água azul felicidade dos teus olhos. olhinhos que beijam como peixinhos fazendo boquinhas e bolinhas pequenas de ar, muito ar para respirar, debaixo da água da minha, da nossa, muito escondida vida.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
A circunferencia do tempo
Não era preciso perderes-te no tempo porque os ponteiros já já nada marcavam no meu interior. Circunferência da vida dos regressos não esperes do tempo a partida sem retorno. Só os boomerangs são como pêndulos e, se não voltam, é porque matam. Não foi na guerra dos tempos sucessivos que lutamos desde o começo das canções, as canções que fiz à tua porta e em tua esperança. Tu, lá dentro e adormecida sobre um querer já gasto do gosto de eu te querer. Fiz do dormente desejo do amor a mão dada de uma aliança escondida, esse convite que negaste no instante, no mesmo segundo da oferenda. Resposta faísca e relâmpago e cheia de luz, tão forte e intensa de cegueira, de raiva bruta e amor desfeito. E outra vez os ponteiros circularam sobre mim como queda em abismo de nada.
A resposta do tempo
Apetece-me esconder-te do mundo.
Parar o tempo nas nove de horas de uma das manhãs mais frias que me ocorre lembrar, a minha mão a segurar na tua sem podermos sentir o tacto da pele, impedidos pelas luvas que nos negavam o aconchego. A luz dos teus olhos entrando nos meus, no mesmo tom e brilho do céu azul e já luminoso da manhã. Parava os relógios do mundo e celebrava o momento com um beijo nos teus lábios de vermelho e riso. Se me fosse permitido. Se fosse uma vontade também tua. Mas, talvez o frio congelasse a acção e eu, não mais do que uma covardia exposta, encalhava nos teus olhos de mar. Mas o tempo não parava nem mesmo que eu forçasse um silêncio sobre ti. A tua mão fugia sobre a minha como um adeus que viria a seguir. Eu deslizava pelos segundos amarrado ainda à maré vibrante dos teus olhos de mar.
É tudo mentira.
Eu queria que o tempo corresse, lentamente sim, mas que me desses a mão ainda com mais força, que a tua mão deslizasse sobre a minha como uma carícia sem tempo nem limite de tempo. Que os teus olhos se fechassem como quando se fecham na esperança de um beijo que nos ilumina o interior. Que o beijo sossegasse o sofrer da alma como se um sol novo e de verão surgisse por dentro e virasse o sentir do avesso. Que a tua beleza me mostrasse uma outra forma de acordar. Uma outra forma de adormecer. Que o teu riso fosse um despertador do tédio do quotidiano. Que todas as ilusões que criaste em mim fossem apenas as verdades do tempo futuro, que vagueando na maré dos teus olhos de mar, deixei acovardadas na resposta do tempo de dizer adeus.
Parar o tempo nas nove de horas de uma das manhãs mais frias que me ocorre lembrar, a minha mão a segurar na tua sem podermos sentir o tacto da pele, impedidos pelas luvas que nos negavam o aconchego. A luz dos teus olhos entrando nos meus, no mesmo tom e brilho do céu azul e já luminoso da manhã. Parava os relógios do mundo e celebrava o momento com um beijo nos teus lábios de vermelho e riso. Se me fosse permitido. Se fosse uma vontade também tua. Mas, talvez o frio congelasse a acção e eu, não mais do que uma covardia exposta, encalhava nos teus olhos de mar. Mas o tempo não parava nem mesmo que eu forçasse um silêncio sobre ti. A tua mão fugia sobre a minha como um adeus que viria a seguir. Eu deslizava pelos segundos amarrado ainda à maré vibrante dos teus olhos de mar.
É tudo mentira.
Eu queria que o tempo corresse, lentamente sim, mas que me desses a mão ainda com mais força, que a tua mão deslizasse sobre a minha como uma carícia sem tempo nem limite de tempo. Que os teus olhos se fechassem como quando se fecham na esperança de um beijo que nos ilumina o interior. Que o beijo sossegasse o sofrer da alma como se um sol novo e de verão surgisse por dentro e virasse o sentir do avesso. Que a tua beleza me mostrasse uma outra forma de acordar. Uma outra forma de adormecer. Que o teu riso fosse um despertador do tédio do quotidiano. Que todas as ilusões que criaste em mim fossem apenas as verdades do tempo futuro, que vagueando na maré dos teus olhos de mar, deixei acovardadas na resposta do tempo de dizer adeus.
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Ai
Descobri que os chineses utilizam o termo "ai" para simbolizar amor ou afeição. Só me apetece dizer, ai ai isto não é um bom prenúncio!
terça-feira, dezembro 23, 2003
sábado, dezembro 20, 2003
...
É tudo tão sem nexo e tu não o mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces
sexta-feira, dezembro 19, 2003
Toujours vencu
Simplesmente horrível. O sentimento de derrota que nos assola face ao inevitável da doença. Não se podem glorificar os predicados, se o espírito está submetido ao pulsar congestionate do sangue.
Estória de um mestre
Por ventura foi nesse espaço de tempo que o mestre se afogueou perante a aldeia recoberta de neve.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.
quinta-feira, dezembro 18, 2003
Changes
A sensação de ondas que nos trespassam o ventre quando temos decisões importantes para tomar, podem ser viciantes. Espero não ficar dependente, mas a verdade é que já quase só funciono sob pressão. Se as coisas acalmam, fico sem saber como agir. Porque é que nos transformamos nestas pilhas de nervos frenéticas?
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.
As tascas
Em honra de quem chegou até nós via "Bebia porque queria afogar as mágoas" voltamos a publicar esta pequena história.
Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.
Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.
Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.
Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.
Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.
Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.
Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.
Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.
Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.
Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.
Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.
Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?
Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.
Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.
Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.
Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.
Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.
Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.
Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.
Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.
Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.
Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.
Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.
Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?
Cheio
Reparo agora que enches a minha vida. Já não tenho espaço na caixa postal do telemóvel, tenho o arquivo do mail completo com o que me envias. Não gosto de me desfazer de nada que te diga respeito. Parece que estaria a deitar fora um pouco de ti. O amor é assim, egoista.
Sensação Nitida
"O amor tem muitas sortes.
A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.
A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."
in "Nitida", um romance por acabar
A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.
A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."
in "Nitida", um romance por acabar
Pensamento de um outro dia
Há tantas coisas que desconhecemos. E ainda temos coragem de acreditar no que julgamos conhecer.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
O Ciume
O ciúme. O ciúme, diz-se, é uma prova de amor. O ciúme é a experiência da perda. Por isso, diz-se do ciúme que ele é uma prova de amor. Que é um reconhecimento daquilo que possuímos. O reconhecimento da existência de um amor. A prova. É a prova de necessidade de exclusão de qualquer outra identidade numa relação. É a exaltação de uma exclusividade. Por isso, ele é uma experiência de perda. É uma vez mais uma experiência motivada pelo medo. Quantas relações já se afundaram por causa desse medo de perda? Quantas vezes esse sentimento de possessão, de exclusividade, foi tão exarcebadamente fictício que arruinou relações estáveis? Quem é alvo do ciúme, da pessoa enciumada, é alvo da desconfiança. O ciúme, em si, não é corrosivo como um veneno (ou não é ele uma prova de amor?), mas a desconfiança que ele provoca, que ele imiscui na relação é algo verdadeiramente corrosivo. Ou o amor, não é ele também feito de confiança?".
terça-feira, dezembro 16, 2003
Narcisismos
Nesta quadra sobressalta o repentino cariz bom samaritano que pulula em todas as catedrais de consumo.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.
Triste
Nem a alegria matinal de ver o Enzo mais animado (a cirurgia correu bem, mas dado o peso dele, a recuperação vai ser estremamente lenta...), consegue afastar a aura de tristeza que me sorve. O Natal nem sempre é uma época de alegria. Não quando o celebramos mais sós. Há vazios que não se podem preencher.
Esquartejar
Num movimento brusco
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.
Mil e uma cores,
dançam dentro.
O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.
Voam doces cheiros
em sonhos vistos.
Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.
Suave toque em mãos
que nunca recusam.
Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.
Agreste paladar,
que se vê sucumbir.
Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.
Mil e uma cores,
dançam dentro.
O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.
Voam doces cheiros
em sonhos vistos.
Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.
Suave toque em mãos
que nunca recusam.
Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.
Agreste paladar,
que se vê sucumbir.
Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.
...
Como sabes?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?
...
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates
segunda-feira, dezembro 15, 2003
Sometimes
Aguardar que as situações aconteçam nunca foi o meu forte. Perfiro um golpe forte e seco que me derrube a estar cambaleante à espera da queda. Não me dou bem com espectativas.
Ao Porto de ti.13
maio parece querer acabar com a utopia. as palavras comidas no seu da boca, secam. os dentes sibilam uma dor branca, são corrupios de texto debaixo da frincha da porta. não tenho para onde ir. jorram palavras vermelhas na fonte do amanhã a ponto de formarem um rio de borboletas ainda presas no casulo do sentir. trigésimo segundo dia do mês de maio, já partiu o dia que sucede à mesma noite. as palavras fazem cócegas na língua do amor. saiem finalmente as borboletas no oco da boca voando como pétalas arrancadas à flor.
Ao Porto de ti.12
Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que flutua ao vento e arranha as braçadeiras lassas do meu coração. Procuro a verdade no tapete de seixos maduros; por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou e o nevoeiro é um tear onde se tece a pele: o embrulho esfarrapado das veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo: para ti, ou qualquer outra coisa sem guarida
Ao Porto de Ti.11
Nas nuvens, no húmido do ar, um sol torrado feito brasão da angústia. Nas nuvens, permanece o grão de gelo da loucura sem a forma disforme do arvoredo. Danço na folia do vento proibido enquanto o mar salva-me outra vez pela manhã. De onda em onda se repete o mandamento. A chuva tilinta nos canos do céu e eu no ralo, no redemoinho que esvai o sonho.
sexta-feira, dezembro 12, 2003
Acqua
Olhar. Sentir. Estranha a sensação que ficamos quando lembramos os melhores mergulhos da nossa vida. O Altíssimo encontra-se também guardado na nossa memória, nas recordações estéticas.
Descobertas
Quando não tenho um papel para apontar uma frase que me surja na cabeça, utilizo o telemóvel para a guardar. Claro que muitas das vezes nunca mais me lembro de as ir ver e vão ficando por ali mesmo por tempos infindos. Desta vez descobri esta: "O mundo é um destino cor de rosa suspenso nas brumas do teu sentir". Isto só pode ter sido escrito numa daquelas noites de desvario que só terminam pela manhã. Argggg!!!
quinta-feira, dezembro 11, 2003
Un'altra volta
Estou espalmada. Sem forças. Há alturas em que, por muito que desejemos, não conseguimos reagir. Estou assim. Neste limbo de quem ainda não percebeu a realidade em toda a sua dimensão. Faço uma pausa. Tento focar toda a situação. Continuo sem perceber.
Metter sotto
Tiro uns minutinhos para agradecer todo o cuidado e preocupação demonstrada na busca do Enzo.
Os esforços não foram em vão. Foi encontrado, encontra-se de momento internado num veterinário, vítima de atropelo. Uma bacia partida é o quadro clínico mais grave.
De qualquer forma não posso deixar de expressar a minha alegria pelas constantes demostrações de apoio recebidas.
É bom saber que tantos se preocupam.
Os esforços não foram em vão. Foi encontrado, encontra-se de momento internado num veterinário, vítima de atropelo. Uma bacia partida é o quadro clínico mais grave.
De qualquer forma não posso deixar de expressar a minha alegria pelas constantes demostrações de apoio recebidas.
É bom saber que tantos se preocupam.
Proximidade
Às vezes queremos encurtar distâncias com as pessoas. Queremos ser próximos. Podemos até querer ser intimos. Chegamos mesmo a manifestar as nossas intenções em palavras. Às vezes, muitas vezes, a outra parte não correponde, e nós sentimos como injutiças as outras pessoas. Sentimos isso muitas vezes, como se fossemos uma parte rejeitada do universo. Quando sentimos esse desejo, esse desejo de estar mais próximo do outro, esquecemos tanta vez que também o outro está longe de nós, que somos ambos distantes e que só o desejo não basta para preencher esse espaço que fica escuro e enevoado de permeio. O nosso desejo não deve destruir o espaço e roubar a distância de um segundo ao outro. Querer ser próximo de alguém, desejar alguém, é esse romance de nos irmos aproximando. Esse pode ser um sentido para a vida. Obrigado pela lição.
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Desapareceu
Ok, pode não ser tão famoso como um cão desaparecido um dia na Lapa mas é-nos muito mais querido. Desapareceu na zona de Cristo Rei, perto da Avenida Marechal Gomes da Costa, Porto. Pesa 65 kgs de ternura apesar do aspecto imponente de um Mastim Napolitano. Quem o achar que não fique todo babado de o ter. A recompensa é a melhor de sempre, o nosso eterno agradecimento. Dá-se pelo nome de Enzo, mas podem trata-lo por Enzini ou qualquer outra coisa afectuosa. Desde já agradecidos.
terça-feira, dezembro 09, 2003
A escrita
No blog Os Espelhos Velados, um dos meus homónimos que leio com a mesma frequência em que há posts ;), pergunta-se sobre a existência da escrita: "onde estamos quando não escrevemos?". Eu por mim estou a divertir-me, desenganem-se quem julga pelos textos que escrevo que a vida é só um estado de sofrimento, a escrita sim. A escrita é um grito da alma, um bater do coração que se quer fazer ouvir. "Escrever é não querer morrer"*.
*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.
*Não sei de quem é esta frase mas subscrevo.
Google Search
Há muito que não verificava de onde porvinham os que até aqui chegam, desta vez um visitante chegou por "simpatias afastar amantes". Com tantos textos de amantes afastados, só podem vir enganados.
A Razão do Poeta
à C.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.
Às vezes, estamos tão próximos que tento silenciar o troar do meu coração para que tu não o ouças. A minha mão estende-se sobre a tua, mas só na riqueza da minha imaginação. Um lago instala-se por detrás dos olhos e só uma força qualquer, uma força que não domino, o impede de galgar as pálpebras e correr no leito de pele da minha face. Por vezes, quando permites que me demore um segundo mais no teu olhar, quando fico sem perceber se é a minha alma que sai pelos meu olhos, ou se é o teu olhar silencioso que empareda a acção, a música continua continua como num filme intimista e de reflexão. Um teledisco patético do meu sentir. Tantas vezes faço filmes onde tudo se mexe, onde tudo se transforma, onde as tuas palavras vem de encontro às minhas, se colam nas minhas como num abraço; onde os desejos se unificam e a música soe num unissono que só termina nas nossas bocas. Nessas vezes, poeta, nessas vezes em que o filme não se desenrola a compasso com o desejo, penso na tua razão, é mesmo uma dor que desatina.
Embuste
Muito se fala da antipatia dos Espanhóis para com os Portugueses. Este fim de semana confirmámos em absoluto que este embuste só pode vir dos velhos do Restelo que ainda pululam por cá. Com simpatia e profissionalismo fomos atendidos por todo o lado. A civilidade é um sinal de progresso, sem dúvida.
sexta-feira, dezembro 05, 2003
Escorial
Neste prenuncio de visita aos nuestros hermanos (eu digo sempre primos...), lembro uma das mais deliciosas e impressionantes incursões, o Escorial com o imponente e dramático Vale dos Caídos. Aí temos uma perfeita noção da grandeza da beleza e do sacrificio para a alcançar.
Trocadilhos
Ontem, em conversa com uma rapariga que acabara de conhecer a determinada altura ela pergunta-me se me pode fazer uma pergunta indiscreta, eu respondo-lhe que sim, que pode, que na realidade até gosto que me ponham entre a espada e a parede. Ao que ela me contesta com um "relativamente a quê?". Eu só me perguntei: será que ela lê blogs?!
Xacobeo
Numa viagem de aparente peregrinação, lembro que as nossas missivas apostólicas nem sempre são bem sucedidas. Uma oferenda feita, em tempos idos, ao santo casamenteiro com uma das antigas moedas de cinco "duros" (daquelas que tinham um buraco no meio), serviu como condutor para uma estória de amor de fim infeliz. O que faz lembrar que é sempre necessário o máximo de excelência, mesmo nas petições menores.
Odisseia: a um ou outro amor não consagrado
I
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta
II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem
III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura
IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários
V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava
VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste
VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão
VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista
IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu
X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor
XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor
XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento
XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada
XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...
à saida do cais, procurando a bolina, o barco partiu sem saber que partia nem ele queria acredita-lo; amor acabado amor começado. no outono do seu coração começava uma nova étapa, neste novo inverno - que era essa a estação - dava-se o início da tempestade, um novo amor a acreditar. vieram ventos suaves, apenas o pricípio, só mais tarde em alto mar, o buliço. e no seu coração zumbia ainda a malícia, ainda se lhe recordava na boca da memória a boca amada hexagonalmente beijada; nessa altura de nevoeiros quando as paixões se sobrepunham como duas imagens transparentes, o leme do seu coração desgovernava-se e parecia voar como as aves planando ao sabor do vento das paixões. não tinha medo, estava distraído nessa sua ignorância que era só sua, pois era ele o seu próprio ventre. a preocupação estava arredia e até parecia brilhar um grande raio de sol que funcionava como um farol evitando-lhe o tremendo embate nas costas duras da desilusão. era um grande mar, um mar grande de paixões e muita água ainda não descoberta
II
o tempo traz sempre erros. e este tempo foi como todos os outro tempos, não um pequeno tempo apenas um grande temporal. na sua ignorância, no seu desprendimento, não soube ler os mapas, traçar rotas seguras. era um mau marinheiro para um mar tão traiçoeiro. e assim, na sua ingenuidade de infante, julgou possível a conquista do primeiro estreito, julgou possível passar de permeio entre as margens da sedução e da conquista. e ao tentar aportar, foi embater na margem pontiaguda da sedução e não foi possível evitar o rasgão do casco. a água começou a entrar e por pouco o navio não se afundou. foi preciso sangue frio, trabalho árduo, temperança, paciência e esperança mas isso foi fatal, nunca mais ele se podia afastar dessa costa espinhosa e imprevisível da sedução e só de longe podia espreitar a outra margem
III
Mas como herói destemido fingiu não ouvir as vozes amigas dos golfinhos que o feriam na sua linguagem e cantavam-lhe cantigas de amores impossíveis. ele passava por cima desses avisos como um gigante por cima das formigas e continuava a amar o seu amor, tratava dele como um louco germina a semente da loucura
IV
um dia, um belo dia de inverno, fez-se tanta luz dentro de si que olhou para o sol e sentiu-o todo dentro dos seus olhos. essa sensação de envolvimento deu-lhe coragem, o seu coração encheu-se tanto de paixão que a própria palavra da paixão lhe saiu da boca e da sua boca direitinha aos ouvidos da sereia que ele amava. ela corou até ficar um botão de rosa para acabar a mergulhar no mar onde sempre se protegia. quando olhou para a superfície do mar e o viu a borbulhar sentiu-se triste e sentiu-se alegre, no mesmo tom em que ela se sentia alegre e se sentia triste. ela demorou muito tempo a vir à superfície, tanto tempo ela demorou que o mar que ele olhava lhe passou para os olhos até eles se transformarem em aquários
V
quando ela voltou à superfície, passava o tempo a brincar com as outras sereias, nadava velozmente fazendo coreografias risonhas com os seus lábios risonhos. ele postrava-se no mastro o tempo todo, tomara o lugar de vigia agora que o seu barco estava ancorado, abraçado na margem da sedução; imóvel e perene, ele, no lugar de vigia, divertia-se longamente com o seu olhar apaixonado rindo-se das coreografias traquinas das ninfas até que começou a reparar que de tempos em tempos imprevistos quando ela se encontrava lá longe, quando ela o julgava distraído, os seus olhos fitavam-no como que observando-o. ele cada vez mais fingia estar distraído e lentamente, como quem tem medo, ela foi-se aproximando. aproximando-se dele e do amor que ela desconfiava
VI
tantas luas ele viu no seu mastro de vigia, tantos dias se deitaram sobre a noite sem ela lhe dar um sinal que fosse que o tédio e a tristeza nostálgica dos dias nublados capturaram-lhe o semblante cinzento. ele desceu ao convés do seu navio e tentou manobra-lo mas ele não se moveu. ele não se moveu porque continuava agarrado às margens pontiagudas da sedução. ele sentiu-se condenado, sentiu-se condenado a viver ali, naquele local, continuamente a olhar de longe a margem da conquista mas, sentindo-se outra vez herói destemido, deitou-se ao mar e com braçadas de luz tentou escapar daquele estreito de amor que cada vez parecia mais triste e feio. os seus amigos golfinhos que eram cor-de-rosa como uma bela boca de dentes brancos, cantavam-lhe canções de encorajamento. as canções faziam-no sorrir e cada vez sentia-se mais forte e sentiu-se afastar daquele estreito de amor que se tornara triste
VII
passara a noite iluminando o seu caminho com braçadas de luz. já ele tinha percorrido mais de metade do caminho. nessa noite, ela disse às suas companheiras que ele lhe era indiferente. parecia estar tudo bem no estreito do amor mas como amor é magia e não há magia sem amor encontraram-se sem saber como em mar-alto. fazia a lua no céu um sorriso brilhante como luar e naquele cinzento que era o mar nocturno havia brilhos de prata que mais não eram que bocadinhos da ternura que existia nos olhares tanto de um como de outro. havia um bem-estar inefável que sobrevoava todo o estreito. os golfinhos e as sereias fitavam-nos, uns desconfiados outros contentes. estavam todos aturdidos naquela ilusão
VIII
sem saber como, sem ter feito esforço algum, o esforço que ele fizera em braçadas de luz parecia não ter tido qualquer efeito e ele encontrava-se de novo no navio, de novo ancorado junto à margem da sedução. e no seu mastro de vigia, ele passava o tempo a recordar, uma só noite na ilha da conquista
IX
ela continuava temerosamente junto às suas companheiras mas novamente, de tempos em tempos imprevistos, ela nadava no seu jeito ondulante de sereia como uma elegante serpente. aproximava-se do navio e lançava-lhe um sorriso. era assim que ela evitava que naquele estreito de amor, as núvens cinzentas e espessas da tristeza fizessem ali a sua paragem. no fim daquele sorriso, mais depressa do que viera partia no seu ondular tímido. ele habituara-se àquela vida de cárcere e não mais se entristeceu
X
as imagens que ele tinha dela eram constantemente recicladas, cada vez mais bela ela lhe parecia, as palavras dela tinham um som especial e tudo nela ele amava. foi quando ele lhe deu um presente, um presente de amor, palavras... palavras desse amor
XI
a essas palavras nunca conheceu bem a sua reacção por muito que lhe perguntasse. ela mergulhava no mar onde se protegia e a água da superfície voltava a borbulhar. ele nunca esperou nada dessas palavras que lhe deu e foi esse mesmo nada que dela recebeu. até que lhe começou a dar ciúme, atitudes mesquinhas, atitudes contraditórias, palavras confusas e sempre muito medo no seu silêncio. o mar azul onde se protegia escureceu e uma força giratória circundava-ª. A princípio era invisível mas ela não pode evitar que ele visse o remoinho. que se construira ao seu redor
XII
aquele remoinho tornara o mar agitado. já não era seguro aquele navio ancorado na sedução e mais uma vez ele lançou-se ao mar. só um marinheiro louco se lança num mar que parece querer engolir tudo à sua volta. insanamente ele foi apanhado naquel vórtice, a sua cabeça embateu milhares de vezes em rochas, ou em animais grotescos. e de tantas vezes embater, desfaleceu. quando recuperou os sentidos, pela manhã, tinha o sorriso congelado e lágrimas petrificadas no rosto. julgou-se morto pois sentia-se muito bem, sem peso, sem matéria mas à medida que ia acordando, e revisitando todos os pequenos episódios que ele viu durante o remoinho, julgou-se mesmo morto. mas afinal estava vivo, vivo como morto. primeiro limpou o sorriso, era o sorriso que tinha ficado que ele tinha aprendido naqueles momentos em que mais uma vez este com ela na ilha da conquista. depois, a lágrima, que era apenas um símbolo da traição. traição sem haver traído; era apenas o símbolo da amargura. era vermelha como o sangue jorrado num apunhalamento
XIII
quando ele começou a caminhar, a margem da sedução estava desfeita. tinha crateras enormes cobertas até cima de um líquido negro oleoso, cheia de bichos assustadores. a ilha da conquista era apenas um montículo onde duas pessoas mal se podiam equilibrar. e a toda a volta, só mar. só um mar alaranjado com grandes manchas vermelhas. e por todo ele, borbulhas donde saia um vapor muito quente. aquilo fervia e parecia querer possuir tudo à sua volta. havia uma pequena ilha entre a margem da sedução - quase desfeita, entre a ilha da conquista - quase inexistente. nesta ilha inominável morava a sereia amada
XIV
como no amor há magia e magia há só com amor. mais uma vez eles se encontraram talvez em sonho ou uma reminiscência desse estreito de amor que existiu. mas como era difícil o equilíbrio naquele pequeno montículo e como ele parecia uma terra de pântano, todo o monte foi engolido pelo mar laranja e vermelho. esse mar que queria engolir tudo, esse mar que muitos só lhe dão um nome, e um só nome se lhe pode dar, desilusão...
quinta-feira, dezembro 04, 2003
Le silence de la mer
A aparente calma faz-me sempre desconfiar. Quanto mais sossegadas são as pessoas, mais tumultuosa lhes adivinho a alma.
terça-feira, dezembro 02, 2003
Dimenticare
Será de esquecer o que se diz no pico da fúria? Ou não será este o momento da verdade, em que estamos mais próximos da nossa verdadeira natureza?
Senses
On skin relives,
of silky feellings
I've found your touch.
Warm tender kisses
promised the moon.
In rage stormy words
that ravished the dreams.
Sand castles built
in cotton clouds,
will provide hostage
to the pilgrim soul.
Tides of fury crashing
the tenderness
of sweet words
whispered.
I stand still, waiting
for your redemption.
of silky feellings
I've found your touch.
Warm tender kisses
promised the moon.
In rage stormy words
that ravished the dreams.
Sand castles built
in cotton clouds,
will provide hostage
to the pilgrim soul.
Tides of fury crashing
the tenderness
of sweet words
whispered.
I stand still, waiting
for your redemption.
Ao Porto de ti.07
fui passear pela tarde. apeteceu-me. vi flores bonitas mas não as peguei por ser proibido.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.
eram para te oferecer, mesmo que eu nunca ofereça flores. agarrei a água do lago que como sempre escapou entre os dedos; a eterna e patética metáfora da nossa relação. tenho-te dentro de mim aonde não queres pernoitar, tens medo dos sonhos mesmo quando a realidade te dói. fiquei até o sol se pôr enquanto tu vieste pela noite com o brilho de sempre, o sorriso postiço de alegria redesenhado nos lábios e as mão trémulas de um nervoso miudinho, contagioso. persigo o teu olhar no escuro da nossa timidez, envergonhas que te ame, envergonhaste da minha ausência no teu coração. é a ultima vez que saímos, adivinho o teu percurso de palavras enquanto trilho um qualquer destino que nos é imposto. vou dar uma curva obrigatória, tu já deste meia volta ao meu sentir.
Ao Porto de ti.06
vem. o amor existe eu sei. já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos nós um do outro ou mesmo do mundo?
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.
vem. o amor vai-te contar uma história eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face, e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse. foi só preciso um sinal dos teus olhos. eu estupidamente resisti. por isso agora digo: vem.
Regresso
É sempre bom voltar a casa e ver que no correio, sim aquela coisa tradicional feita de comunocação em papel, e ver que temos um bilhete que diz "Esta cidade não é a mesma sem ti" mesmo que não diga mais nada nem venha identificado. Apesar de gostar do contéudo da mensagem não gosto de mensagens escondidas na máscara do anonimato. Espero que seja só uma questão de suspense, é que gosto de pessoas que dão a cara e se assumem, sem jogos podres ou mentiras.
sexta-feira, novembro 28, 2003
They've taken us over!
Damn! Na hora que escrevo este post, o blog está tomado por forças externas (ainda nem vi se inimigas...).
Enfim, aguardamos a cavalaria (aka - Shinho)!
Enfim, aguardamos a cavalaria (aka - Shinho)!
Down the road
Uma vez mais o blog encerra para fim de semana. Desta feita desloca-se para a capital. Have fun wherever you are!
quinta-feira, novembro 27, 2003
Direito ao ultraje
Em resposta ao comentário e ao post no seu blog, quero somente lembrar ao Manhoso, que eu não pretendo culpabilizar os jornalistas por uma situação cuja conclusão sai notoriamente do seu alcance. A vitória de Valencia não foi consequência das notícias apresentadas sobre a situação de Portugal. Quero apenas lembrar que a qualidade jornalística já viu melhores dias neste país. Quando vemos os jornalistas portugueses em Valencia a pressionarem os pescadores para se revoltarem com a possibilidade de terem, como os colegas portugueses, de ser realojados, que me desculpem, mas dá-me nauseias.
A resposta dos pescadores espanhóis foi sempre calma (perante o normal entusiasmo infanto-debilóide dos jornalistas pátrios) e conclusiva : "Se é para o bem de Espanha, acho bem." Não me interpretem mal, eu penso que todos temos direito à dignidade e ao trabalho. Mas temos de ter em atenção que as atitudes que tomamos e a forma como apresentamos as notícias (e acho que a generalidade actual, se baseia no trash-news), vai influenciar tanto a imagem que temos de nós como a imagem que têm de nós. É que notícias em prime-time dadas com alegre espalhafato como se faz de momento (e friso isto), não contribuem de forma alguma para a elevação do espírito nacional. Eu por exemplo sinto-me incapaz de ver um noticiário nacional na televisão, e bem tento todos os dias. É só fazer um zapping pelos noticiários dos outros países para se ver a diferença. Eu tenho o maior respeito por pescadores (ao contrário da maior parte da população, eu já estive numa traineira e sempre tive contacto e amizades com pescadores), por isso mesmo acho que eles só tinham a ganhar, como todos nós, com a realização da prova em Portugal. Muito mais fica por dizer, mas o exílio de tanto trabalho assim obriga.
A resposta dos pescadores espanhóis foi sempre calma (perante o normal entusiasmo infanto-debilóide dos jornalistas pátrios) e conclusiva : "Se é para o bem de Espanha, acho bem." Não me interpretem mal, eu penso que todos temos direito à dignidade e ao trabalho. Mas temos de ter em atenção que as atitudes que tomamos e a forma como apresentamos as notícias (e acho que a generalidade actual, se baseia no trash-news), vai influenciar tanto a imagem que temos de nós como a imagem que têm de nós. É que notícias em prime-time dadas com alegre espalhafato como se faz de momento (e friso isto), não contribuem de forma alguma para a elevação do espírito nacional. Eu por exemplo sinto-me incapaz de ver um noticiário nacional na televisão, e bem tento todos os dias. É só fazer um zapping pelos noticiários dos outros países para se ver a diferença. Eu tenho o maior respeito por pescadores (ao contrário da maior parte da população, eu já estive numa traineira e sempre tive contacto e amizades com pescadores), por isso mesmo acho que eles só tinham a ganhar, como todos nós, com a realização da prova em Portugal. Muito mais fica por dizer, mas o exílio de tanto trabalho assim obriga.
quarta-feira, novembro 26, 2003
Ultraje
Deixo este meu exilio somente para um pequeno apontamento, espero que a maravilhosa classe jornalística esteja feliz com a realização da "America's Cup" em Valencia... É, os "coitados" dos 30 pescadores vão sofrer muito, pena que não pensem nos 1000 novos empregos que se poderiam ter ganho... Vale mais a "noticia" do que a dignidade nacional.
terça-feira, novembro 25, 2003
Ao Porto de Ti.05
Faz frio. Vejo-te andar na rua cinco andares abaixo, aprecio o teu andar. Sou um voyeur que me aqueço no teu corpo... Duras pouco na paisagem mas eu segredo-te que ainda aqui estás.
Ao Porto de ti.04
Faz tempo que procuro sangue novo na lua mas nem todos os dias o sol nasce nas palavras. Raros são os dias em que a lua sonha mesmo que me agrade que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. O tempo arrasta-se na baba do caracol, o tempo não sabe nada do que está para trás; o passado é apenas grão posto a ser desfeito na mó do teu coração.
Ao Porto de Ti.03
Não tinha necessidade disto, podia chorar com a facilidade de uma lágrima só mas o coração esvai-se na fadiga das palavras e é só um sentir desencontrado que me prende às entrelinhas donde suspendem páginas cor de rosa de sonhos desfeitos.
segunda-feira, novembro 24, 2003
Ao Porto de ti. 02
Agarra-me devagar, eu vou cair. São os teus abraços que me empurram e as mãos lassas que me seguram? Estou enganado e não menos perdido, é a loucura que se esvai nos poros da alma. Sinto-me correr longe de mim, como a fuga às lágrimas que escondi nas núvens. O pé na poça, na poça escavada na estrada. A lama escorre, uns quantos grãos de terra sujos do medo. Quase sufoco no arfar do pré-choro. São os olhos que se escapam da sua orbita no ponto geocêntrico dado à fuga. Podes dizer. De qualquer maneira vou morrer.
Ao Porto de ti. 01
Já quase dentro dos teus olhos o pincel da noite fez a traço negro uma lágrima. São os teus olhos de fumo o espesso nevoeiro da minha alma, e o teu sorriso remexido na espuma alva a lama fofa do meu desespero. Ergue-se o dia por uma pitada de vento, a aragem desfaz a areia no teu corpo, esse molde imperfeito dos meus sonhos. Orgulho-me de te sentir na borda esquerda da vida, no convés torto aonde baloiça o mar, aonde cai o crepúsculo na corrida com as estrelas. Não faço desejos de ter ter, outra vez. A noite adormece sem sonhos.
Dantes
Lembro-me de quando eu era um bloguista mais assíduo e diariamente escrevia posts. Bem, as férias vieram e uma dose extra de trabalho e uma fase menos literária foram-me deixando menos activo aqui na Espada Relativa. Lembro-me de que quando nos ausentávamos logo diziámos que iriámos estar ausentes. Bem, esta semana vou estar ausente e impossibilitado de escrevinhar qualquer coisa. Pode ser que, depois desta avalanche de trabalho que culmina nesta semana, Dezembro traga uma nova aragem e uma nova assiduidade. Quem sabe.
sexta-feira, novembro 21, 2003
Redenção
Está largamente incompreendida a capacidade redentora de um "plastron". Muitas vezes a besta interior só é domada após uns constantes socos.
quarta-feira, novembro 19, 2003
Nonsense
Pergunto ao empregado do restaurante oriental :
- Tem gambas em ananás?
Ele olha sobranceiro para mim e responde irónico no seu melhor sotaque:
- Não, mas se quiser pode ir até à cozinha explicar como se faz cozinha chinesa...
Acho que fiquei mais corada que os pagodes da decoração. Nem tive coragem de explicar que pensava tratar-se de um prato tailandês.
- Tem gambas em ananás?
Ele olha sobranceiro para mim e responde irónico no seu melhor sotaque:
- Não, mas se quiser pode ir até à cozinha explicar como se faz cozinha chinesa...
Acho que fiquei mais corada que os pagodes da decoração. Nem tive coragem de explicar que pensava tratar-se de um prato tailandês.
Cumpleaños feliz!
Em dias assim é o que se pode desejar e em duplicado no dia de hoje! Espero que passem um excelente dia. Gosto deste desejo secreto, uma vez que a quem as felicitações são dirigidas, jamais irão passar os olhos por este blog!
terça-feira, novembro 18, 2003
Radicalismos
Tendo uma visão particular em determinados assuntos, vejo que os radicalismos que suportam as mesmas causas que eu subscrevo me colocam em rota de colisão com esses mesmos radicais. Senão vejamos, não compreendo as acções dos activistas "pro-choice", no entanto não sou favorável à legalização indescriminada do aborto. Abomino os anti-tabagistas, mas creio que os fumadores devem respeito a todos (e vice versa...). Sou uma fervorosa adepta do respeito que os animais merecem, mas arrepio caminho se me vejo perante a Liga Protectora.
Defendo que temos que preservar e resguardar o meio ambiente, e o Green Peace causa-me calafrios.
É, penso que a maior parte destes movimentos consegue adeptos incondicionais para as suas fileiras, mas perde parte importante de seguidores pela visão unilateral que preconizam.
Defendo que temos que preservar e resguardar o meio ambiente, e o Green Peace causa-me calafrios.
É, penso que a maior parte destes movimentos consegue adeptos incondicionais para as suas fileiras, mas perde parte importante de seguidores pela visão unilateral que preconizam.
Límpido despertar
Entre o aconchego morno da cama, abrem-se os olhos para um dia brilhante, claro e frio. Saímos de casa com o eucalipto fresco a chocar-nos na pele, nos tons que lembram menta quando inspiramos. Parece sempre que vão correr bem, os dias assim translúcidos. Lembramos os dias de escola, quando no nosso pequeno universo pensávamos que finalmente íamos brincar livres no recreio, sem a clausura da chuva.
Pensamos como éramos felizes e despreocupados. Mas é engano. Recordo que estava muitas vezes angustiada. Crescer custa. E perceber a vida em todas as suas vertentes e condicionalismos sempre me pareceu um grande desafio. Por isso agradeço a ajuda que tive. Da família. De ti.
Pensamos como éramos felizes e despreocupados. Mas é engano. Recordo que estava muitas vezes angustiada. Crescer custa. E perceber a vida em todas as suas vertentes e condicionalismos sempre me pareceu um grande desafio. Por isso agradeço a ajuda que tive. Da família. De ti.
segunda-feira, novembro 17, 2003
Mimo
Nada como a debilidade física para fazermos valer a nossa condição da velha infância. Quem pode recusar todas as vontades a uns olhos febris?
sexta-feira, novembro 14, 2003
quinta-feira, novembro 13, 2003
Circo
Primeiro pensei que o amor era feito de uma luta transparente mas com o respirar confuso e sofrido do passar dos dias a aliança que unia as relações ficava baça e descorada, ou mesmo com a brancura de uma folha de papel sem palavras. Essa altura rasante do amor como uma planície de distâncias visíveis que só serviam para ocultar o querer e o amar; todo ele feito de conquista e engano e jogo, e de muito querer mas pouco querer de amor. A vida foi-se escorrendo entre o coador do tempo e filtrava-se entre as dores que não diluíam, nem facilmente as mais pequenas que se mantinham à tona nem as grandes que caiam como pedras que rolavam montanha abaixo. Era o precipício de uma zanga pelos amantes escarpada e, entre essas encostas profundas de iras sombrias, o vale fundia-se cada vez mais marcando linhas e linhas nessa curva de desnível. de afinidades já esquecidas de um amor falseado.
Mas no segundo que te conheci...
Foi como tornar pequenas todas as serras e altas montanhas, no alto desse estado de espírito tremendo de um frio feito de temor e imobilidade, de uma ânsia forte como uma âncora, aportava-me ao teu olhar doce e, encostado a esse porto, esse leito calmo da esperança do teu desejo o meu beijo imaginável desprendia-se do meu silêncio vogando num ar de olhares fugidios e quereres escondidos de encontro a uma boca imaginada, grande fofa e quente; um algodão doce numa feira de fantasia de um circo em nosso redor capaz de nos fazer rir, de nos fazer rir o risco de um trapézio sem dor nem rede. E nós, palhaços dessa covardia que é falar com um olhar e afastar da boca a palavra que faz do querer a verdade; a verdade do querer e de isso acontecer.
E mesmo eu fazendo-te sorrir do nosso espectáculo; eu, de lugar em lugar, eu a mostrar que usavas a máscara de tinta branca e mimo de graça, e lábios vermelhos de engano, e o nariz redondo e grande, e a cabeleira laranja do pôr do sol do final da nossa caminhada. Nessa esplanada de um ar livre que nos prendeu não soubemos retirar a máscara que nos fazia sorrir, ainda que incomodados por esse sorrir do querer e do desejo. Até os palhaços que nós éramos sem percebermos que o espectáculo feito de máscaras de ocultar em vez de falarem o desejo que se calava nos nossos olhos de amar, e ficava sem poder respirar escondido na máscara triste e sem magia da covardia.
Mas no segundo que te conheci...
Foi como tornar pequenas todas as serras e altas montanhas, no alto desse estado de espírito tremendo de um frio feito de temor e imobilidade, de uma ânsia forte como uma âncora, aportava-me ao teu olhar doce e, encostado a esse porto, esse leito calmo da esperança do teu desejo o meu beijo imaginável desprendia-se do meu silêncio vogando num ar de olhares fugidios e quereres escondidos de encontro a uma boca imaginada, grande fofa e quente; um algodão doce numa feira de fantasia de um circo em nosso redor capaz de nos fazer rir, de nos fazer rir o risco de um trapézio sem dor nem rede. E nós, palhaços dessa covardia que é falar com um olhar e afastar da boca a palavra que faz do querer a verdade; a verdade do querer e de isso acontecer.
E mesmo eu fazendo-te sorrir do nosso espectáculo; eu, de lugar em lugar, eu a mostrar que usavas a máscara de tinta branca e mimo de graça, e lábios vermelhos de engano, e o nariz redondo e grande, e a cabeleira laranja do pôr do sol do final da nossa caminhada. Nessa esplanada de um ar livre que nos prendeu não soubemos retirar a máscara que nos fazia sorrir, ainda que incomodados por esse sorrir do querer e do desejo. Até os palhaços que nós éramos sem percebermos que o espectáculo feito de máscaras de ocultar em vez de falarem o desejo que se calava nos nossos olhos de amar, e ficava sem poder respirar escondido na máscara triste e sem magia da covardia.
Deliruim tremens
É a patologia que sofro quando reparo na forma como as notícias são feitas neste país.
Correr
O tempo que se encurta será mesmo fruto de escassez, ou não será mera consequência directa de procurarmos no exterior a sua passagem em vez de nos voltarmos para nós? A dialéctica interna despoleta incompatibilidades com a vivência moderna.
Em branco
Depois das tentativas frustradas para o sono chegar, acendeu a luz e ficou a olhar para o tecto. Ainda ouvia as vozes que ecoavam na memória. Eram aquelas vozes distantes, que nos trazem as recordações de momentos vividos, mas que por uma estranha razão não compreendemos. Quanto mais se esforçava para ouvir o que diziam as vozes, mais distantes elas pareciam estar.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.
quarta-feira, novembro 12, 2003
Iceberg (a S.)
Se eu tivesse uma alma forte que te içasse mostrava ao mundo o iceberg da tua beleza.
Magia
O mágico Luis de Matos propôs-se a adivinhar o resultado do jogo particular entre o FC Porto e o Barcelona para a inauguração do Estádio do Dragão. Não seria nada mágico que ele conseguisse adivinhar os resultados dos próximos jogos da Superliga.
terça-feira, novembro 11, 2003
Estratagema
Já com dois cães vejo-me agora mãe de acolhimento de uma Serra da Estrela de 8 semanas. A incompatibilidade de raças fica provada. Nenhum dos cães se suporta e tenho de recorrer a artifícios vários para conseguir tirar a cachorrinha de casa nas suas visitas ao veterinário. É espantosa a ira de um mastim no auge do ciúme (principalmente quando provido de vantagem física em relação a mim...).
Montanha
A relação com o divino sai sempre estracinhada quando vivemos na projecção do nosso bem em função dos demais. Quem é que pode dizer que o altruísmo não é uma forma pura de gozo individual?
Vale
Procuramos atingir o mínimo de satisfação pessoal até no mais absurdo que fazemos. Só assim se pode compreender os prasenteiros passeios de fim de semana nos centros comerciais.
Planície
Estamos quietos e sossegados no nosso cantinho quando o mundo se despeja sobre nós na forma mais bárbara, temos de seguir o designio diário da labuta.
segunda-feira, novembro 10, 2003
Non-stop
Ontem, na viagem de Lisboa -Porto, considerções várias assaltaram-me a mente sobre o futuro destas viagens já sob os auspícios do AVE (não utilizo a designação francesa). Qual não foi a minha surpresa ao verificar que alguém que muito admiro já tinha feito um texto sobre o assunto! Imperdivel.
sexta-feira, novembro 07, 2003
Interregno
Viver no constante abafo das certezas, engolindo as verdades escondidas. Momentos de loucura em que podemos libertar o que nos corrói. A pureza dos sentimentos camuflados em simpatias várias. Extrapolar razões sem sentido. Suspirar por alma. Respirar por sentir. A verdade é que somos uma pálida sombra do que gostariamos de ser.
quinta-feira, novembro 06, 2003
terça-feira, novembro 04, 2003
Sombras
raras sombras sobrevoaram o meu quarto com tão vasta e intensa penumbra, deixando acre o paladar apagado no céu da boca. eu, já esquecido do trago húmido do teu último beijo com a minha mão estendida, os olhos abertos à torneira do choro. entretendo-me nesse espaço oco, percorrendo o fim da cama alugada onde só uma saudade porosa o poderia preencher e um grilo cantor trazia lembranças fantasmas com os seus delírios translúcidos. o calor doía só de respirar uma ausência
ainda que mais de um verão depois.
ainda que mais de um verão depois.
Rodopio
Olho em todas as direcções, num movimento rápido e zonzo, de cores fugidias. Não estás. Paro. Penso com mais calma. Continua a vertigem do tempo que passa num ápice. Espero. Rasgos de vermelho ainda me piscam na memória. Amarelo fugaz. Sigo o instinto que me direcciona para ti. Tento alcançar-te, toco levemente na tua roupa, quase que te agarro. Segues o teu caminho, não me sentes, não me vês.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.
segunda-feira, novembro 03, 2003
Nuvens
Nunca tinha percebido que eras uma nuvem, nem mesmo quando o meu coração pingava, sim, um gotejar constante que fazia eco quando as gotas embatiam no chão de cristal. Dentro do meu corpo para me enternecer o sangue rejubilava. Nem mesmo depois da lua cheia, sim, quando nos deitamos na praia e o amargo sentir inundava-me na sua água. Só nessa altura reparei que os teus olhos choravam, sim, nunca tinha reparado no seu azul, no que do brilho estranho e visível era apenas o colorir vítreo e raiado do choro. Sim, tu fazias aquários nos teus olhos e de sorriso fingido sempre mentias com a boca pequena. A tua boca amada presa naquele arfar silencioso do amor. O teu silêncio destruía uma vida escondida; a tua, entregue a um acovardar, ao medo de um acabar algo nunca havido. E gelada ficava a promessa de uma união, como uma gota aprisionada no alto de uma nuvem. A tua vida com a minha, atada num torniquete de vontade que te infligia a medieval tortura de um dilacerar. Eu nunca descongelava a água aprisionada nos meus olhos mas passou a chover todos os dias.
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