sábado, dezembro 20, 2003

...

Não há acidentalmente nada a dizer
... só lamentar um prazer efémero

...

É tudo tão sem nexo e tu não o mereces
É tudo tão pó tão volátil como álcool e tu não o mereces
É tudo tão azul, tão céu só a minha recordação é verde
É tudo tão brilhante, tão sol
Há tanta luz, mesmo durante a noite
E podemos mesmo sentirmo-nos ofuscados
mas tu não me mereces

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Toujours vencu

Simplesmente horrível. O sentimento de derrota que nos assola face ao inevitável da doença. Não se podem glorificar os predicados, se o espírito está submetido ao pulsar congestionate do sangue.

Estória de um mestre

Por ventura foi nesse espaço de tempo que o mestre se afogueou perante a aldeia recoberta de neve.
Ele dizia que eram flocos de prazer, que toda a gente que se molhava naquela água congelada, se promiscuía, que não se lavava, antes pelo contrário, se conspurcava.
O velho mestre não sabia que se enganava.
Não há prazeres que caiam do céu e toda a aldeia sabia disso.

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Changes

A sensação de ondas que nos trespassam o ventre quando temos decisões importantes para tomar, podem ser viciantes. Espero não ficar dependente, mas a verdade é que já quase só funciono sob pressão. Se as coisas acalmam, fico sem saber como agir. Porque é que nos transformamos nestas pilhas de nervos frenéticas?
Adorava quando era catraia e ficava contemplativa durante horas a fio. Encontrava maravilhosos padrões numa parede branca, qualquer mancha servia de fio condutor a uma estória. Agora olho e dois segundos depois já estou a pensar no que poderia ter feito nesse tempo! Agora entendo plenamente a necessidade de todas as religiões preconizarem um dia somente para contemplação. A verdadeira visão interior só pode acontecer depois de expurgados todos os vícios externos.

As tascas

Em honra de quem chegou até nós via "Bebia porque queria afogar as mágoas" voltamos a publicar esta pequena história.

Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim com uma voz rouca e infiel, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.

Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.

Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.

Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.

Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.

Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.

Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.

Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.

Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.

Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.

Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.

Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?

Cheio

Reparo agora que enches a minha vida. Já não tenho espaço na caixa postal do telemóvel, tenho o arquivo do mail completo com o que me envias. Não gosto de me desfazer de nada que te diga respeito. Parece que estaria a deitar fora um pouco de ti. O amor é assim, egoista.

Sensação Nitida

"O amor tem muitas sortes.

A sorte deste foi eu não ser o apaixonado, antes o amado. Quando acaba assim de forma abrupta, há sempre alguém que se magoa. Sempre aquele que ama. Para além de ser o que ama tem de ser o que sofre. Para mim foi um alivio.

A vida é mesmo ingrata para quem ama, mas são os que têm as melhores compensações quando são amados. O que até está justo."

in "Nitida", um romance por acabar

Pensamento de um outro dia

Há tantas coisas que desconhecemos. E ainda temos coragem de acreditar no que julgamos conhecer.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

O Ciume

O ciúme. O ciúme, diz-se, é uma prova de amor. O ciúme é a experiência da perda. Por isso, diz-se do ciúme que ele é uma prova de amor. Que é um reconhecimento daquilo que possuímos. O reconhecimento da existência de um amor. A prova. É a prova de necessidade de exclusão de qualquer outra identidade numa relação. É a exaltação de uma exclusividade. Por isso, ele é uma experiência de perda. É uma vez mais uma experiência motivada pelo medo. Quantas relações já se afundaram por causa desse medo de perda? Quantas vezes esse sentimento de possessão, de exclusividade, foi tão exarcebadamente fictício que arruinou relações estáveis? Quem é alvo do ciúme, da pessoa enciumada, é alvo da desconfiança. O ciúme, em si, não é corrosivo como um veneno (ou não é ele uma prova de amor?), mas a desconfiança que ele provoca, que ele imiscui na relação é algo verdadeiramente corrosivo. Ou o amor, não é ele também feito de confiança?".

terça-feira, dezembro 16, 2003

Encruzilhada

Qual o melhor caminho a seguir?

Narcisismos

Nesta quadra sobressalta o repentino cariz bom samaritano que pulula em todas as catedrais de consumo.
Nunca vi semelhante fervor para apaziguar as maleitas do semelhante, como no acto expurgatório da compra do presente.

Triste

Nem a alegria matinal de ver o Enzo mais animado (a cirurgia correu bem, mas dado o peso dele, a recuperação vai ser estremamente lenta...), consegue afastar a aura de tristeza que me sorve. O Natal nem sempre é uma época de alegria. Não quando o celebramos mais sós. Há vazios que não se podem preencher.

Esquartejar

Num movimento brusco
de sentimentos contidos,
de expressões caladas;
tentamos apaziguar
a alma que esvai.

Mil e uma cores,
dançam dentro.

O grito mudo que arde,
o âmago que fere do sentir,
em palavras caladas,
de tiro certeiro
em espectro alvo.

Voam doces cheiros
em sonhos vistos.

Prasenteira calma,
em domingos celestes,
de caminhos galgados,
pregrinas consciências,
de futuros passados.

Suave toque em mãos
que nunca recusam.

Guerras brutas,
para dentro de nós,
em despojados
sentimentos velados,
em combates vencidos.

Agreste paladar,
que se vê sucumbir.

Derradeiro inicio,
do sobranceiro fim.

...

Como sabes?
Como sabes o saber certo da certeza que não possuo? Como crês sempre a crença certa da certeza do amor ser meu? Como podes com razão poder ter a certeza de me teres sem perder?

...

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
W.B.Yates

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Sometimes

Aguardar que as situações aconteçam nunca foi o meu forte. Perfiro um golpe forte e seco que me derrube a estar cambaleante à espera da queda. Não me dou bem com espectativas.

Ao Porto de ti.13

maio parece querer acabar com a utopia. as palavras comidas no seu da boca, secam. os dentes sibilam uma dor branca, são corrupios de texto debaixo da frincha da porta. não tenho para onde ir. jorram palavras vermelhas na fonte do amanhã a ponto de formarem um rio de borboletas ainda presas no casulo do sentir. trigésimo segundo dia do mês de maio, já partiu o dia que sucede à mesma noite. as palavras fazem cócegas na língua do amor. saiem finalmente as borboletas no oco da boca voando como pétalas arrancadas à flor.

Ao Porto de ti.12

Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que flutua ao vento e arranha as braçadeiras lassas do meu coração. Procuro a verdade no tapete de seixos maduros; por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou e o nevoeiro é um tear onde se tece a pele: o embrulho esfarrapado das veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo: para ti, ou qualquer outra coisa sem guarida

Ao Porto de Ti.11

Nas nuvens, no húmido do ar, um sol torrado feito brasão da angústia. Nas nuvens, permanece o grão de gelo da loucura sem a forma disforme do arvoredo. Danço na folia do vento proibido enquanto o mar salva-me outra vez pela manhã. De onda em onda se repete o mandamento. A chuva tilinta nos canos do céu e eu no ralo, no redemoinho que esvai o sonho.