Primeiro pensei que o amor era feito de uma luta transparente mas com o respirar confuso e sofrido do passar dos dias a aliança que unia as relações ficava baça e descorada, ou mesmo com a brancura de uma folha de papel sem palavras. Essa altura rasante do amor como uma planície de distâncias visíveis que só serviam para ocultar o querer e o amar; todo ele feito de conquista e engano e jogo, e de muito querer mas pouco querer de amor. A vida foi-se escorrendo entre o coador do tempo e filtrava-se entre as dores que não diluíam, nem facilmente as mais pequenas que se mantinham à tona nem as grandes que caiam como pedras que rolavam montanha abaixo. Era o precipício de uma zanga pelos amantes escarpada e, entre essas encostas profundas de iras sombrias, o vale fundia-se cada vez mais marcando linhas e linhas nessa curva de desnível. de afinidades já esquecidas de um amor falseado.
Mas no segundo que te conheci...
Foi como tornar pequenas todas as serras e altas montanhas, no alto desse estado de espírito tremendo de um frio feito de temor e imobilidade, de uma ânsia forte como uma âncora, aportava-me ao teu olhar doce e, encostado a esse porto, esse leito calmo da esperança do teu desejo o meu beijo imaginável desprendia-se do meu silêncio vogando num ar de olhares fugidios e quereres escondidos de encontro a uma boca imaginada, grande fofa e quente; um algodão doce numa feira de fantasia de um circo em nosso redor capaz de nos fazer rir, de nos fazer rir o risco de um trapézio sem dor nem rede. E nós, palhaços dessa covardia que é falar com um olhar e afastar da boca a palavra que faz do querer a verdade; a verdade do querer e de isso acontecer.
E mesmo eu fazendo-te sorrir do nosso espectáculo; eu, de lugar em lugar, eu a mostrar que usavas a máscara de tinta branca e mimo de graça, e lábios vermelhos de engano, e o nariz redondo e grande, e a cabeleira laranja do pôr do sol do final da nossa caminhada. Nessa esplanada de um ar livre que nos prendeu não soubemos retirar a máscara que nos fazia sorrir, ainda que incomodados por esse sorrir do querer e do desejo. Até os palhaços que nós éramos sem percebermos que o espectáculo feito de máscaras de ocultar em vez de falarem o desejo que se calava nos nossos olhos de amar, e ficava sem poder respirar escondido na máscara triste e sem magia da covardia.
quinta-feira, novembro 13, 2003
Deliruim tremens
É a patologia que sofro quando reparo na forma como as notícias são feitas neste país.
Correr
O tempo que se encurta será mesmo fruto de escassez, ou não será mera consequência directa de procurarmos no exterior a sua passagem em vez de nos voltarmos para nós? A dialéctica interna despoleta incompatibilidades com a vivência moderna.
Em branco
Depois das tentativas frustradas para o sono chegar, acendeu a luz e ficou a olhar para o tecto. Ainda ouvia as vozes que ecoavam na memória. Eram aquelas vozes distantes, que nos trazem as recordações de momentos vividos, mas que por uma estranha razão não compreendemos. Quanto mais se esforçava para ouvir o que diziam as vozes, mais distantes elas pareciam estar.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.
quarta-feira, novembro 12, 2003
Iceberg (a S.)
Se eu tivesse uma alma forte que te içasse mostrava ao mundo o iceberg da tua beleza.
Magia
O mágico Luis de Matos propôs-se a adivinhar o resultado do jogo particular entre o FC Porto e o Barcelona para a inauguração do Estádio do Dragão. Não seria nada mágico que ele conseguisse adivinhar os resultados dos próximos jogos da Superliga.
terça-feira, novembro 11, 2003
Estratagema
Já com dois cães vejo-me agora mãe de acolhimento de uma Serra da Estrela de 8 semanas. A incompatibilidade de raças fica provada. Nenhum dos cães se suporta e tenho de recorrer a artifícios vários para conseguir tirar a cachorrinha de casa nas suas visitas ao veterinário. É espantosa a ira de um mastim no auge do ciúme (principalmente quando provido de vantagem física em relação a mim...).
Montanha
A relação com o divino sai sempre estracinhada quando vivemos na projecção do nosso bem em função dos demais. Quem é que pode dizer que o altruísmo não é uma forma pura de gozo individual?
Vale
Procuramos atingir o mínimo de satisfação pessoal até no mais absurdo que fazemos. Só assim se pode compreender os prasenteiros passeios de fim de semana nos centros comerciais.
Planície
Estamos quietos e sossegados no nosso cantinho quando o mundo se despeja sobre nós na forma mais bárbara, temos de seguir o designio diário da labuta.
segunda-feira, novembro 10, 2003
Non-stop
Ontem, na viagem de Lisboa -Porto, considerções várias assaltaram-me a mente sobre o futuro destas viagens já sob os auspícios do AVE (não utilizo a designação francesa). Qual não foi a minha surpresa ao verificar que alguém que muito admiro já tinha feito um texto sobre o assunto! Imperdivel.
sexta-feira, novembro 07, 2003
Interregno
Viver no constante abafo das certezas, engolindo as verdades escondidas. Momentos de loucura em que podemos libertar o que nos corrói. A pureza dos sentimentos camuflados em simpatias várias. Extrapolar razões sem sentido. Suspirar por alma. Respirar por sentir. A verdade é que somos uma pálida sombra do que gostariamos de ser.
quinta-feira, novembro 06, 2003
terça-feira, novembro 04, 2003
Sombras
raras sombras sobrevoaram o meu quarto com tão vasta e intensa penumbra, deixando acre o paladar apagado no céu da boca. eu, já esquecido do trago húmido do teu último beijo com a minha mão estendida, os olhos abertos à torneira do choro. entretendo-me nesse espaço oco, percorrendo o fim da cama alugada onde só uma saudade porosa o poderia preencher e um grilo cantor trazia lembranças fantasmas com os seus delírios translúcidos. o calor doía só de respirar uma ausência
ainda que mais de um verão depois.
ainda que mais de um verão depois.
Rodopio
Olho em todas as direcções, num movimento rápido e zonzo, de cores fugidias. Não estás. Paro. Penso com mais calma. Continua a vertigem do tempo que passa num ápice. Espero. Rasgos de vermelho ainda me piscam na memória. Amarelo fugaz. Sigo o instinto que me direcciona para ti. Tento alcançar-te, toco levemente na tua roupa, quase que te agarro. Segues o teu caminho, não me sentes, não me vês.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.
segunda-feira, novembro 03, 2003
Nuvens
Nunca tinha percebido que eras uma nuvem, nem mesmo quando o meu coração pingava, sim, um gotejar constante que fazia eco quando as gotas embatiam no chão de cristal. Dentro do meu corpo para me enternecer o sangue rejubilava. Nem mesmo depois da lua cheia, sim, quando nos deitamos na praia e o amargo sentir inundava-me na sua água. Só nessa altura reparei que os teus olhos choravam, sim, nunca tinha reparado no seu azul, no que do brilho estranho e visível era apenas o colorir vítreo e raiado do choro. Sim, tu fazias aquários nos teus olhos e de sorriso fingido sempre mentias com a boca pequena. A tua boca amada presa naquele arfar silencioso do amor. O teu silêncio destruía uma vida escondida; a tua, entregue a um acovardar, ao medo de um acabar algo nunca havido. E gelada ficava a promessa de uma união, como uma gota aprisionada no alto de uma nuvem. A tua vida com a minha, atada num torniquete de vontade que te infligia a medieval tortura de um dilacerar. Eu nunca descongelava a água aprisionada nos meus olhos mas passou a chover todos os dias.
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