quinta-feira, novembro 13, 2003

Estridente

Nada pior do que ser assaltada por uma galopante enxaqueca. É de ficar desarmada.

Deliruim tremens

É a patologia que sofro quando reparo na forma como as notícias são feitas neste país.

Correr

O tempo que se encurta será mesmo fruto de escassez, ou não será mera consequência directa de procurarmos no exterior a sua passagem em vez de nos voltarmos para nós? A dialéctica interna despoleta incompatibilidades com a vivência moderna.

Em branco

Depois das tentativas frustradas para o sono chegar, acendeu a luz e ficou a olhar para o tecto. Ainda ouvia as vozes que ecoavam na memória. Eram aquelas vozes distantes, que nos trazem as recordações de momentos vividos, mas que por uma estranha razão não compreendemos. Quanto mais se esforçava para ouvir o que diziam as vozes, mais distantes elas pareciam estar.
Nem era perceptível a língua em que eram faladas. Como quando adormecemos em frente ao televisor, as vozes iam distanciando-se e aproximando-se, consoante o nível de atenção. Quanto mais atenta, mais distantes se tornavam. Novas voltas na cama e o inferno parecia não passar. Tentar relaxar, sim, poderia ajudar. Mas como seria possível com a algazarra que faziam? Sentou-se. Inspirou profunda e pausadamente. Pegou no copo da cabeceira e bebeu.
Os goles da água fresca deslizaram pela garganta como um pano que limpa o mais encardido espaço.
Estava tranquila. Sorriu e voltou a deitar-se.

quarta-feira, novembro 12, 2003

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Nada. É o que eu sinto hoje.

Iceberg (a S.)

Se eu tivesse uma alma forte que te içasse mostrava ao mundo o iceberg da tua beleza.

Magia

O mágico Luis de Matos propôs-se a adivinhar o resultado do jogo particular entre o FC Porto e o Barcelona para a inauguração do Estádio do Dragão. Não seria nada mágico que ele conseguisse adivinhar os resultados dos próximos jogos da Superliga.

terça-feira, novembro 11, 2003

Estratagema

Já com dois cães vejo-me agora mãe de acolhimento de uma Serra da Estrela de 8 semanas. A incompatibilidade de raças fica provada. Nenhum dos cães se suporta e tenho de recorrer a artifícios vários para conseguir tirar a cachorrinha de casa nas suas visitas ao veterinário. É espantosa a ira de um mastim no auge do ciúme (principalmente quando provido de vantagem física em relação a mim...).

Montanha

A relação com o divino sai sempre estracinhada quando vivemos na projecção do nosso bem em função dos demais. Quem é que pode dizer que o altruísmo não é uma forma pura de gozo individual?

Vale

Procuramos atingir o mínimo de satisfação pessoal até no mais absurdo que fazemos. Só assim se pode compreender os prasenteiros passeios de fim de semana nos centros comerciais.

Planície

Estamos quietos e sossegados no nosso cantinho quando o mundo se despeja sobre nós na forma mais bárbara, temos de seguir o designio diário da labuta.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Non-stop

Ontem, na viagem de Lisboa -Porto, considerções várias assaltaram-me a mente sobre o futuro destas viagens já sob os auspícios do AVE (não utilizo a designação francesa). Qual não foi a minha surpresa ao verificar que alguém que muito admiro já tinha feito um texto sobre o assunto! Imperdivel.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Interregno

Viver no constante abafo das certezas, engolindo as verdades escondidas. Momentos de loucura em que podemos libertar o que nos corrói. A pureza dos sentimentos camuflados em simpatias várias. Extrapolar razões sem sentido. Suspirar por alma. Respirar por sentir. A verdade é que somos uma pálida sombra do que gostariamos de ser.

quinta-feira, novembro 06, 2003

Meridianos

Está já traçado o essencial da nossa existência ou teremos a hipótese da redenção?

Paralelos

Em caminhos semelhantes que nunca se tocam. Somos assim tão distintos ou tão iguais?

terça-feira, novembro 04, 2003

Sombras

raras sombras sobrevoaram o meu quarto com tão vasta e intensa penumbra, deixando acre o paladar apagado no céu da boca. eu, já esquecido do trago húmido do teu último beijo com a minha mão estendida, os olhos abertos à torneira do choro. entretendo-me nesse espaço oco, percorrendo o fim da cama alugada onde só uma saudade porosa o poderia preencher e um grilo cantor trazia lembranças fantasmas com os seus delírios translúcidos. o calor doía só de respirar uma ausência
ainda que mais de um verão depois.

Rodopio

Olho em todas as direcções, num movimento rápido e zonzo, de cores fugidias. Não estás. Paro. Penso com mais calma. Continua a vertigem do tempo que passa num ápice. Espero. Rasgos de vermelho ainda me piscam na memória. Amarelo fugaz. Sigo o instinto que me direcciona para ti. Tento alcançar-te, toco levemente na tua roupa, quase que te agarro. Segues o teu caminho, não me sentes, não me vês.
Desespero. Sento-me no chão já esgotada. Deixo-me tombar para trás e vejo o céu. Reparo então que é lá que eu estou. Tu estás aqui em baixo. Nunca te alcançarei.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Nuvens

Nunca tinha percebido que eras uma nuvem, nem mesmo quando o meu coração pingava, sim, um gotejar constante que fazia eco quando as gotas embatiam no chão de cristal. Dentro do meu corpo para me enternecer o sangue rejubilava. Nem mesmo depois da lua cheia, sim, quando nos deitamos na praia e o amargo sentir inundava-me na sua água. Só nessa altura reparei que os teus olhos choravam, sim, nunca tinha reparado no seu azul, no que do brilho estranho e visível era apenas o colorir vítreo e raiado do choro. Sim, tu fazias aquários nos teus olhos e de sorriso fingido sempre mentias com a boca pequena. A tua boca amada presa naquele arfar silencioso do amor. O teu silêncio destruía uma vida escondida; a tua, entregue a um acovardar, ao medo de um acabar algo nunca havido. E gelada ficava a promessa de uma união, como uma gota aprisionada no alto de uma nuvem. A tua vida com a minha, atada num torniquete de vontade que te infligia a medieval tortura de um dilacerar. Eu nunca descongelava a água aprisionada nos meus olhos mas passou a chover todos os dias.

Pesaroso

Há dias em que o peso da tristeza nos faz andar curvos.

sexta-feira, outubro 31, 2003

(e/ou) Parte II

O (e/ou) foi escrito entre 28.dezembro.94 e 09.fevereio.95, esta é a parte 2. A parte 1 fui publicando aos pedaços e deve estar nos arquivos da Espada. Quando o escrevi foi mais como um exercicio sobre o ritmo do texto, nada mais do que isso.