terça-feira, setembro 30, 2003

Ainda assim...

Olho abstraida para a chuva lá fora. É bom vermos que não é só a nossa alma que chora.

Mind versus body

A força dualista que nos faz passar horrores.

Patamares

Pode-se estratificar toda a vida em compartimentos. As nossas actitudes podem ser catalogadas pela proximidade ou afastamento dos instintos mais primários. A nossa consciência desenvolve a moral segundo uma pirâmide do socialmente aceite, e muitas vezes do politicamente correcto. Podemos superar os nossos sentimentos mais básicos domesticando-os. Damos a volta ao obvio para não admitirmos que a parte animal ainda nos condiciona.
E florescemos agora numa brutalidade que faz corar o mais selvagem dos animais. Para onde seguimos?

Oba! Oba!

E logo mais uma visita fugaz a Aveiro. Espero que um jantar na Costa Nova esteja contemplado também!

Acordar

Muitas vezes abria os olhos e deparava com o cenário desolador do desconhecido, tinha de se arrastar dos sonhos e saltar para a realidade. Era assim que se sentia sempre que dormia fora da sua cama. O entorno sem referencias tinha o efeito de um pequeno choque eléctrico, sentia-o percorrer o corpo e logo todos os seus sentidos alerta faziam o reconhecimento do que a rodeava. Muitas vezes acordava e sorria pois sabia que ele a iria observar em breve. Ainda minimamente desperta lembrava o carinho com que lhe desejara boa noite, sabia que ele pensava que ela estava embriagada, de sono e de álcool. Mas estava atenta, estava sempre.

segunda-feira, setembro 29, 2003

A rapariga e o pensamento

Andávamos sempre de mão dada num pensamento sobre uma certa filosofia de vida. Um mundo encantado, quase privado e só para nós. Olhava-me com sabedoria com uma presença que sabia só sua. Nunca mentíamos. A verdade, por vezes, parecia um carrossel que nos punha tontos e que, por vezes, doía como se nos estivessem a picar agulhas. Obrigava-me à sinceridade fazendo-me vergar à sua doçura. Falava com desenvoltura num despique de palavras muito especial, uma guerra que amávamos e que nunca ninguém ganhava. Não era preciso ninguém vencer. Um combate de esgrima onde nunca se marcavam pontos, a pontuação ficava nas frases. Ela nunca se impunha mas defendia o seu querer com muito mais querer que o meu. Tinha dela essa impressão. Chegávamos a falar de coisas desnecessárias mas muito importantes. Tinha sempre a sua razão mesmo quando queria que ela não a tivesse razão nenhuma. A sua inteligência era sexy. Dava vontade de acreditar que as pessoas não ligavam à beleza física. Até parecia possível. Não que com ela fosse preciso.

Siempre lo mismo, siempre lo mismo

Que dizer das intermináveis e constantes enxaquecas?
O karma do sofrimento, é o que é.

Take # 1

Não te ver não é aceitar que deixaste de existir. É só prolongar-te num plano mais vasto.

Love will tear us appart, again.

Joy Division at their best.

A mao pelo corpo

Corri, como a um defunto se faz, a mão gelada pelos olhos em gesto de morte. No corpo de latente cadáver, corri, a mão sempre amena: na boca, no peito, até apertar
com a força do escândalo a barriga de mulher grávida. E corri, de novo a mão em carícia espalmada bem em cima do sexo repleto de amor e fecundidade. E toquei, bem fundo de paixão o útero amado donde nasce a vida. Corri, como a um defunto se faz, a mão pelos olhos pelo gosto de te matar; a todos os olhos de outros. E no teu útero,
como um toque divino, fiz nascer-te em amor para mim.

Maos

Mãos de aranha. O gesto dos dedos, reflectem-me imagens. Dedos quebradiços, longos, perspicazes. O gesto dos dedos tem a doçura feminina do fascínio…

Tristeza

Ouço agora JET SOCIETY a lamentar "Vai minha tristeza, vai, que não sai de mim..." e lembro que a minha nunca está dois passos afastada.

Duvida sexual

Pois, deixaram-se levar pelo título, ainda bem!
A minha dúvida nada tem de sexual, mas assim já tenho a vossa atenção. Depois deste fim de semana, agradecia que me elucidassem sobre uma moda que, nem sei se será recente, mas da qual só agora me apercebi : porque motivo se veêm alguns carros com um lencinho tipo americano preso na argola do reboque dos carros (aquela que está por baixo do carro, do lado direito na traseira)?

After

Encontrei-me assim a lembrar o que tinha vivido. A sensação que fiquei foi de um abismo. Um abismo de mágoa, de dor. Um infinito de sofrimento que rasgaste na minha alma. As noites de pesadelo que tentas apaziguar, os silêncios que cortam e os olhares que gritam. Tudo junto no somatório das decisões precepitadas. Ás vezes só queria. Isto mesmo só querer. Porque é necessário o objecto da acção? Porque não pode ser válida só a subjectividade? Tens a realidade em frente, e como sempre só procuras o que não existe.
E no entanto, o sangue corre louco por um coração oprimido, compactado numa jaula de dor. Respirar é como engolir uma outra agulha que se crava mais fundo, é mais um soco dado dentro do estômago, é um soluço raivoso. Aguardo que passe.
Estou aqui. Ainda.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Okey

Desejo um bom fim de semana a todos!
Qué lo paseis fenomenal!

Ensonada

O desespero de noites mal dormidas está a levar-me à ruina... Custa muito manter os olhos abertos e a mente desperta... Os comprimidos para a maleita crónica ainda pioram o cenário, potenciam a necessidade de dormir.
Mas para mal dos meus pecados, quando chego ao leito, a vil insónia desperta-me para desespero do meu sossego mental...

Ainda nao passou...

Olho insistentemente para o relógio. O tempo quando o observamos não passa. Mas agora nem com o habitual truque de fazer várias coisas para que este se torne menos omnipresente o consegue enganar. Bolas!

Sem sentido

Aguardo o passar do tempo numa reflexão dourada, daquelas que nos são queridas e nos fazem sentir "cosy" na alma.
Estonteada nas lembranças que fazem sorrir sem querer.
Sinto-me dormente, a realidade não está a passar por mim, só vejo tudo coado pela doce luz de uma gase de tons terra e sangue esbatidos, cores da vida, mas duma essência vaporosa.
Chegam-me cheiros completos de ternura, ricos de aroma e minados de sorrisos. Voluptuosos.
E tu sabes.

Ora! Ora!

Dizem-me "com esse penteado pareces cota" e volto à minha questão PORQUE RAIOS AS CABELEIREIRAS NOS CORTAM SEMPRE MAIS O CABELO DO QUE PEDIMOS!!!

La

Um novo fim de semana se aproxima e mais uma vez vou-me ausentar! Designios maiores me chamam.

quinta-feira, setembro 25, 2003

quarta-feira, setembro 24, 2003

Tédio

A alma espraia-se numa dor leve e longa. Procuro calor dentro, mas não encontro o abrigo que me davas.
Ensaio pensamentos da infância no intuíto de achar o toque familiar que nos faz sentir protegidos. Vasculho a memória e só tenho imagens espectrais, indefinidas. Sem sentimento. Fico novamente presa à crueza da dor. O que será feito daquela sensação envolvente, como a aproximação da lareira quando nos aquecemos após termos percorrido um caminho de tempestade? Nova pesquisa e de novo embato na dura realidade, estou pior. Não há possibilidade de encontrar o que apazigue a inquetude que me assalta. A lembrança sensorial que nos grava a pele está incapaz de me ajudar, estou constipada nas lembranças. Tenho a alma fria e não encontro o abafador para aquecê-la. Vou continuar, como sempre, na busca deste Santo Graal que é tentar seguir.

Humm, shlep, shlep!

Alguém me pode explicar por que raios saiu de circulação o sorvete de manga da Hagen Das? Ando desejosa de ficar sentadita no sofá a ver um filme a comer aquela maravilha e os Pingo Doce das redondezas não têm disponivel esta variedade!!

0000

Os meus sonhos tendem a ser pesadelos. São povoados por seres estranhos e deixam-me cansada. Acordo sempre pior do que quando me deitei. Em determinadas alturas, já não sei que faça, o ritual de me aconchegar para dormir fica irreparavelmente perturbado pela certeza de novos horrores. Os olhos encovam-se e a pele fica baça. Não tenho sossego.

Assim

Tenho pensado muito na nossa condição de sociedade representativa de uma democracia saudavel, e cada vez mais fico abismada com a falta crónica de civismo da população em geral. Será que as pessoas não compreendem que o viver em comum implica que se tenham de respeitar umas às outras? O que é que custa ter uma actitude (será que ainda posso escrever assim depois do acordo?) que nos poderá atrasar uns minutos mais no transito se essa acção implicar que o mesmo fluiria melhor? Porque raio temos a mania que seremos sempre mais importantes que o nosso semelhante do lado?
E por fim, o que é que realmente se poderá fazer com vista a alterar esta caracteristica crescente na nossa sociedade?

Por estas razoes

Ainda aguardo no portão a tua chegada. Estou sentada na soleira da porta, em frente ao portão. Olho para a frente na expectativa de te ver outra vez entrar. Os cães prostam-se a meu lado, na ânsia de um carinho, de uma atenção que não chega. Toda a minha acção está suspensa. Não sou capaz de reagir. Penso em ti e como não te encontro, procuro em mim a tua imagem, os teus sorrisos e as tuas palavras. É melhor uma imagem interior do que nada de ti. Uma força bruta implode no sentimento da falta que me fazes. Fico agoniada de dor. Sinto na pele um tremor que se extende às entranhas. Não voltas e eu continuo à espera.

Aleluia! Aleluia!

Finalmente e após acérrima discussão (okey foi mesmo com ameaças que o consegui!) estou de volta ao blog!
Agora vão ter de me aturar...Je!Je!

domingo, setembro 21, 2003

...

O teu corpo sem a tua alma faz-me mal.

Ha de haver uma outra realidade

Tinha a certeza de termos morrido. O carro irreconhecível, numa amalgama de metais retorcidos e contorcidos eram prova disso. Havia uma série de líquidos viscosos a escorrerem entre as peças fumegantes do motor e por debaixo do carro, um fluído vermelho fazia um pequeno riacho. Lá dentro estavam os nossos corpos, mas eu não tive coragem para olhar. Tínhamos decidido nessa noite voltar ao quarto da sua prima. Conseguira-me convencer de que se libertara dos seus fantasmas e que agora me queria. Quero-te dentro do meu corpo, disse ela como argumento final. Um excesso de ansiedade apoderou-se de mim. Às vezes, a verdadeira realidade da vida esconde-se por detrás de omissões, ou apenas de pequenas coisas que desconhecemos. Disse-me ela quando entrou no carro. Eu apenas respondi, é natural que hajam outras realidades. Agora, de mão dada com ela, estou a flutuar dez metros acima do meu corpo. Decidimos ir embora. Não tínhamos ali mais nada que fazer, mas apenas, muitas coisas por descobrir.

sexta-feira, setembro 19, 2003

Outras Paragens (para depois regressar à base)

Tenho andado mais na secção de leitura do que na secção de escrita.

Há que contribuir, também, para o sucesso do «muitomentiroso». Que, mesmo podendo ser totalmente delirante (já nem digo especulativo), consegue ter mais leitores do que a maioria dos jornais portugueses.

É pelo menos engraçado constatar que há mais gente a conhecer os nomes dos supostos envolvidos na história da Casa Pia (estão todos no «muitomentiroso»), do que a ter lido a carta do Paulo Pedroso aos deputados do PS (citada hoje no Público).

Isto é que é uma colectividade.

Por falar nisso, também tenho andado pelo «pipi». Salvo os literais exageros de linguaragem, é fundamental não perder o «Diário de Anne Trank». Já para não falar na «Análise Sócio-Profissional da Rebarba». Há pérolas do mais fino recorte: «Putas e Jornalistas (passe a redundância)» O pipi é genial. É fabulástico. Não desfazendo na Espada, claro está, temos que reconhecer a elevação do género e a qualidade do estilo.

O pipi pode porventura ser um Don Juan frustado. Mas o pipi vai a Nobel da Literatura. Há que recolher assinaturas.

quarta-feira, setembro 17, 2003

BlogoInterrupcao

Não sei o que deu a este blog que ficou em silêncio quase uma semana. Depois da tão propalada silly season será que nos voltámos para uma silent season?

Uma coisa esquisita no meu coracao

Estava a trabalhar quando ouvi a sua voz, num além que julguei não ser possível de acontecer. Acordei com ele num murmúrio que parecia ao meu lado, ao meu lado ou dentro de mim. Sussurrou o seu amor por mim que eu tinha medo de acreditar, medo de sentir verdade. Galgou comigo essa noite de trabalho que não queria ter fim. Tens sorte em ter um amor como o meu, disse-me na sua ausência com a sua voz de mel de novo na minha cabeça. Tinha o espirito dele a falar comigo, como se a sua alma estivesse em contacto etéreo, buscando a nossa alegria, o arrepio na pele. Tentou de tudo para provar ser ele quem ali estava, não em carne e osso, mas o seu espirito de luz. Deu-me um número, depois disse-me ainda ausente, amanhã telefona-me! Telefonei-lhe no dia seguinte como me propusera, perguntei-lhe se ele sabia o sentido daquele número, sem medo algum de desmascarar a minha possível loucura. A sonhar com fantasmas. Logo eu. A sonhar com o seu espirito. Ele respondeu, sim, é o número do meu bilhete de identidade mas, como sabes? Como dizer-lhe que tinha sido ele, a sua alma enquanto ele dormia, quando num sonho qualquer soltou palavras de amor, num sonho que como muitos outros se esquece ao acordar. Senti uma coisa esquisita no meu coração um formigueiro tal qual uma mão dormente, uma coisa que se sente e não se sente. Tinhas razão poeta!

quinta-feira, setembro 11, 2003

Zapping

No zapping de hoje apanhei a seguinte frase numa das telenovelas basileiras: "Jornal é tudo a mesma coisa, a gente espreme, espreme e só sai sangue". E eles que ainda não conhecem o telejornal da TVI.

Os caracteres chineses

Não há muitas raparigas que façam disparar assim o meu coração. Podes ter certeza disso. Se um sorriso teu o faz bater assim tão forte e desgovernado, nalguma coisa as nossas almas comunicam. Somos feitos de uma qualquer essência supra-natural e há qualquer coisa de kármico no nosso encontro. Como se as estrelas tivessem escrito uma qualquer história, e nós, marionetas desse romance, somos impotentes para fugirmos ou traçarmos uma qualquer outra rota. Não faz mal, assim está bem. Chega-te a mim. Assim juntos de mão dada para fazer funcionar a união. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Fazes bem ao meu coração porque lhe dás o ritmo, a paz e a candura. Repetiste tu, como se esse eco fosse uma extensão de mim. Chega-te mais a mim mas mantém-te onde estás. Disseste tu, imitando um paradoxo budista. Há um qualquer caracter chinês que explica muito bem a nossa relação. Pois há, disse ela, mas não to digo. Depois disse-mo mesmo sem me o dizer. (1995)

quarta-feira, setembro 10, 2003

A rapariga com os pes na agua

Tinha acabado de perder o irmão. Molhou os pés na berma de um lago ladeado de árvores altas que davam amplas sombras e que filtravam o sol fazendo-o vibrar cintilante na água tépida. Estava sozinha e ainda mais sozinha. Um grito de dor soltou-se-lhe da boca afugentando os pássaros que bateram asas, voaram um pouco sobre o lago e, já sem medo do grito triste da rapariga, voltaram a poisar nos ramos que haviam abandonado. Havia telefonado a todos os seus amigos para que não ficasse sozinha, mas continuava sozinha. Porque quis. Porque quis encontrar o seu irmão numa qualquer água. A água que era o símbolo da perda do seu irmão, porque aí o tinha perdido. Encheram-se de água cristalina e salgada os seus olhos quando lentamente mergulhou desfalecida num lago pouco profundo.

segunda-feira, setembro 08, 2003

A rapariga e o desassossego

Eu também nunca soube o que era estar parado. Andava sempre a correr sobre florestas encantadas. A pensar em coisas que não existem. A viver momentos com pessoas que apenas eram fantasias minhas. Nunca tive coragem para bater à porta de ninguém. Sei o que dói a pessoa não estar, ou não nos querer receber. Essa dor já passou.
Isto para falar dela.
Andava preenchida com vontade de mudar, por isso bateu à minha porta. Eu abri, não somente a porta de casa mas todas as portas que servissem para alguma coisa na minha vida e mesmo as que não serviam para nada, as que eram apenas empecilhos. Eu tinha sempre muito mais medo do que vontade. Embora existisse sempre muita vontade a pulsar no interior. Haviam gestos ou olhares que me faziam acreditar no desejo dela. O seu corpo dançando sobre o meu fazia-me acreditar no desejo dela. O meu corpo no corpo dela era prova disso, dizia-me ela. Andava em desassossego o dia todo sempre a querer mudar o rumo da minha vida. Da vida dela na minha vida. Mas tê-la por ali, ainda que andando à volta como uma borboleta, era um conforto. Tão reconfortante como um abraço de pele. Da pele branca dela. Muita branca. A vida andava muito cheia, eu sempre a pensar nela, a resolver os problemas que ela arranjava à minha, e os momentos a dois que pareciam sempre poucos. Viver parecia um frémito. E era. E era inquietante, mas por estúpido que possa parecer, deixava-me sossegado. Só ela é que não sossegava. Queria o que não queria como se isso estivesse certo. Era uma pessoa nova a cada segundo que dobrava o tempo nos ponteiros. Nunca soube se isso era bom. Talvez por momentos demasiado curtos tivesse acreditado que sim, que era bom. Tentava de tudo para por a vida direita mas saia-lhe tudo muito torto, diria mesmo que demasiado torto. Houve um dia que se foi embora como uma tempestade, fez muito barulho, gesticulou muito, culpou-me de todos os erros que ela própria cometeu, chegou mesmo a dizer que eu era culpado de um dia ela se ter apaixonado por mim. Quando saiu de minha casa, apertou o meu coração com a selvajaria de quem não tem pena, como um furacão que passa insensível e destroi tudo até sussurrar numa acalmia. Que sossego!

domingo, setembro 07, 2003

O tempo dos sonhos

Acordo no teu rosto, os teus olhos na minha boca. Soluçar umas palavras pela manhã, a voz presa do cansaço, do teu corpo. O teu olhar sereno e o contraste da tua maquilhagem esborarratada, o negro a sair do verde dos teus olhos. Abro a portada para deixar entrar a manhã, a janela para recuperar o ar queimado no ardor do sexo. São as últimas horas que passas aqui. Não o sabemos, mas no ar o silêncio já o pronuncia. Volto a deitar-me contigo, os corpos ainda quentes, ainda muito quente a desafiarem o frio da manhã que irrompe da janela aberta. A vida acorda a nossa volta, nós ainda mortos, do cansaço do amor, da noite por dormir, de nos perdermos na imagem de uma lua redonda. Conto-te histórias nos teus cabelos, histórias vividas tempos antes, histórias inventadas de um futuro que tudo fará para não se cumprir. O futuro contra mim, contra nós. É essa a luta, tu também sabes. Que o tempo se saboreia no tempo, no tempo todo em que os sonhos ainda são possíveis. Não muito depois, tu já cá não estás.

sábado, setembro 06, 2003

A rapariga e as flores

Deve ter sido uma saudade bruta aquela, porque de repente foi tomado por uma vontade imensa de oferecer-lhe flores. Uma por cada dia que não estiveram juntos como se fosse uma compensação divina ou mesmo que a ausência e afastamento um do outro pudesse ser compensada de alguma forma na essência de um conforto material ou um carinho na alma. Nem mesmo era possível contar os dias que se perdiam no tempo disperso e confuso dos dia, nem havia assim tantas flores na loja. Não se importou. Não valia a pena zangar-se com o mundo. Foi o que pensou, a olhar para a empregada da loja ainda incrédula com o seu pedido. Muito tempo não estiveram juntos, tinha agora a certeza. Continuava a gostar dela com o mesmo carinho, com a mesma sensação de que a água dos sentimentos escorreria ainda como um rio sobre o seu coração. O tempo demora a passar sobre as pedras, é uma erosão que só faz cócegas. Havia sempre um sorriso no coração dela bem mais poético que uma desculpa. Escreveu-lhe uma carta em papel cor de rosa sem intenção. Era o único papel que tinha por perto. Gostava destas coincidências. Faziam-no acreditar num qualquer acto mágico. Um acaso é uma demonstração metafísica, pensou. Às vezes o mundo bate certo na sua engrenagem esquisita, disse-lhe a ela. Faz muito tempo que não conversam, faz muito tempo que a voz não se faz sentir, que os olhos não pousam sobre os mãos como mãos inseparáveis dos dedos. Embora continuem a falar da mesma maneira. Sempre a tentarem perceber o mundo mas sem se explicarem a si próprios. Só pode ser assim, dizem um para o outro. Já não se envolvem. O que é bom. Ficavam sempre demasiado perto e ao mesmo tempo demasiado longe. Ele de um lado da margem de um qualquer rio imaginário e ela da outra. Ficam bem a passearem um de cada lado. Às vezes o rio estreita e podem dar a mão, mas só por dois ou três passos. Está certo que seja assim.

quinta-feira, setembro 04, 2003

A rapariga da praia

Ia para casa sem destino a pensar no sentido da vida. Passava muitas noites em claro. Dormia pouco por causa da ânsia de querer viver muito e morrer depressa. Uma noite sob uma lua indefinida cima passeou na praia. Deu a mão a uma rapariga. Andaram de onda em onda gladiando-se com uma maré que os empurrava para a praia. Ele tentava salvar-se do naufrágio que se tornara a sua vida. A rapariga parecia uma âncora, pensou ele. Tirara-lhe o coração da deriva louca e sem rumo de um mar de sentimentos confusos e errantes. Descansaram os dois um pouco, sentados sobre uma rocha, abraçados os dois com os olhos postos no infinito da penumbra da noite frente ao mar. Ele olhou por algum tempo o rosto calmo dela. Era mais bonita do que um convite, do que a porta de um quarto aberta. Falaram de carinho e de outras tentações, mas nunca de amor. Se fizeram amor era porque não arranjaram outra maneira de o dizer. Mas não importava ser assim. Nunca quiseram saber o que faziam quando não estavam um com o outro. Eram bons os momentos que conseguiam estar juntos e isso, era por si só, um exagero. Uma felicidade demasiado grande. Podiam viver juntos se quisessem. Tinham um quarto alugado onde tantas vezes se encontravam. Nunca nenhum deles teve essa intenção. Não viviam um com um outro, mas não podiam viver um sem o outro. Estava certo ser assim, pensava ele. Dizia que ela o tinha sarado de muitas dores, que não tinha sido preciso salvar-se no corpo de muitas mulheres. Que tinha bastado o dela. Às vezes sorria quando pensava nela. Nunca pensava porquê que sorria, mas também não o tinha de fazer. Só queria saber se ela estava bem, mas jamais lhe perguntou. Sabia que quando estavam juntos estavam bem os dois. Uma sintonia que o fazia vibrar como a corda agitada de uma guitarra. Isso era já de si um bom consolo. Nunca pensou o que ela era no seu coração, agradava-lhe apenas pensar que ela estava lá sossegada como estavam muitas outras coisas. A importância de isso ser assim não fazia sentido, mas ele deixara-se de se importar com a razão das coisas, com os motivos complexos que a natureza lhes escondia. Bastava-lhe essa caricia que era tê-la no coração.

segunda-feira, setembro 01, 2003

Regresso

As férias já se foram e o primeiro dia de trabalho não me deixa grande ânimo para a escrita. Vou repôr a informação de como anda o mundo. Presumo que não tenha mudado muito, tudo questões de pormenor, as grandes notícias sabem-se logo. Vou confirmar.

terça-feira, agosto 26, 2003

O Cupido Apaixonado

Cúpido, porque choras?

Sempre de vi tão feliz, que névoa triste poisou sobre ti e te fez parar, impossibilitando-te de bater as asas e vibrar na melodia intrigante de tuas canções? Tu criatura alada que me fizeste feliz vejo-te agora assim e sinto, sim, sinto que sou eu também que me afogo, que me amarelece o meu rosto de dor profunda, que também estou eu sofrendo dessa doença nostálgica.

Cúpido, porque choras?

Tu que me atiraste uma seta e com ela, apesar do sangue que jorrou, fizeste a minha intensa felicidade. Tu que me inebriaste com o melhor dos vinhos, que me tornaste imortal no pensamento da que amo e que me ama. Tu que me deste tanto, que posso eu fazer por ti? Pede-me tudo, quero ser eu a cumprir o teu desejo, farei a viagem mais longa pelos desterros do mundo, roubarei e matarei se necessário for para ter de volta o teu sorriso mágico, para ver de novo as tuas asas baterem, tão hábeis, tão rápidas e felizes como uma pequena libelinha no seu vôo livre da manhã. Quero ouvir de novo o som do teu arco, ouvi-lo de novo a vibrar como uma harpa, e depois, depois ouvir aquele som seco e brutal da seta a cravar-se na carne, cada vez mais dentro, mais adormecida no interior do corpo e ver então os amantes sorrirem, felizes.

Cúpido, porque choras? De que necessitas tu?

- Devolve-me a tua, a minha última seta?

segunda-feira, agosto 25, 2003

Recorrência

É engraçado como esta frase escrita em 1992 tem uma recorrência extraordinária na minha vida:

Já consigo, em paz, olhar o verde.

Vem

vem. o amor existe, eu sei e já vi a sua sombra. esquece o que sabes e eu abandono a minha sabedoria, afinal, que sabemos nós de nós mesmos? que sabemos um do outro ou mesmo do mundo? vem. vai ser o amor a contar uma história, eu já não sei o que te diga. o espirito da lua cravou um espinho negro na minha alma, o espirito da lua já te tinha beijado na face e eu também. é como se o amor fosse contagioso, como se o teu desejo me infectasse, como se ao primeiro toque com qualquer coisa essa doença nos tomasse. foi só preciso um sinal claro dos teus olhos e eu não resisti. por isso digo. vem.

o tempo

faz tempo que procuro sangue novo na lua. a lua todos os dias sabe que o sol nasce nas palavras
mas raros são os dias em que a lua sonha. agrada-me que o tempo corra fechado na ampulheta de vidro esfumado com segundas intenções perversas. o tempo arrasta-se na baba do caracol, mas o caracol não sabe nada do que está para trás. o passado é apenas grão pronto a ser desfeito na mó do teu coração.

Hospedagem

Os barcos atravessam o ponto do horizonte aonde o sol se faz sentinela de um só olho. Faz um frio que corta o teu perfume que se espalha no vento, arranha as abraçadeiras lassas do meu coração.
Procuro a verdade nu tapete de seixos maduros. Por baixo, e ainda por cima. Quase mordo o caroço, o ícone da essência de uma noite, de qualquer fruto. Tens nos teus olhos a luz que a noite roubou.
O nevoeiro é um tear onde se tece a pele, o embrulho esfarrapado das nossas veias cansadas. Ainda tenho uma vaga na hospedagem do tempo que conservo com carinho. Podes ser tu, ou qualquer coisa sem guarida.

sexta-feira, agosto 22, 2003

Um verao cheio de ti

este foi o primeiro texto que escrevi nestas férias. precisa de umas revisões, com o tempo amadurecerá...


foi um verão cheio de ti. um verão cheio de luz nos teus olhos. cheio de conversas que imitavam palavras escritas. foram cartas escondidas em silêncios desbravados numa praia. as rochas que saltamos, os pés que molhamos cresciam como memórias que não morriam. foram grãos de areia contados entre o indicador e o polegar, a ampulheta do tempo a imitar o bater do coração instalado nos segundos do verdadeiro tempo. foram longos os passeios que destruiam a tarde, que subjugavam o pôr-do-sol até nos perdermos na noite. foi o orvalho que tombava nos teus olhos de riso, o humor da minha alma patética como um elogio terno. foram de novo as palavras, agora sussuradas aonde dormia o silêncio da noite. foi a boca no ouvido a escrever segredos nas orelhas, adornos ainda mais reluzentes que brincos de prata na ternura da aurora. foram textos de intimidade no diário de uma só noite. foi de novo o sol, foram de novo dias como outros dias, como os dias que se seguiram. foi de novo a praia, o sol que queimava o teu corpo cada vez mais queimado, foram os olhares que regressavam em vagas de timidez. foram os toques na pele as feridas que ardiam depois das despedidas. foram os momentos em que ficava sozinho, a escrever, a escrever-te cartas imaginadas que se perdiam nos sonhos e não regressavam. foram as histórias embriagadas no final da tarde, foi essa tarde que mais uma vez se perdeu na noite, nessa noite que na praia, junto ao mar, te abracei o tempo todo que ousaste permitir. foi uma noite toda embalada nos meus braços, os segredos eram silêncios transmitidos boca a boca, as palavras saliva enredada no céu estrelado da boca. foram palavras estrangeiras trocadas no dicionário dos dedos, traduções de dialectos na brincadeira de duas línguas. foram noites cada vez mais silenciosas vividas na câmara escura dos olhos. trancados nas paredes finas de pálpebras, falavamos com as mãos nos cadernos escuros do corpos. foram noites de textos longos que só falavam de prazer. foram prazeres que foram repetidos no final de noites, no final dos dias, e dias seguidos, em dias consecutivos, no próprio dia as vezes que a alma queria, e o corpo lá ia e vinha cada vez mais escrito de memórias que não iriam querer morrer. foi a noite que choveu, qual diluvio que te levasse, qual chuva que te molhava os olhos de dor, que te escondia o sorriso num abraço dado na alma. foi a chuva que te levava, que extinguia o verão. foi a chuva nos meus olhos quando te vi partir, por detrás de um vidro que te levava, pingado de dor que escorregava por esse mesmo vidro que te levava cada vez mais longe, cada vez mais longe, cada vez mais longe...

San vicente del mar, 18.agosto.2003

Combate

Ontem enquanto aguardava o início de uma sessão de "home cinema", debati-me com o pesado adversário João Pestana, escusado será dizer quem ganhou, não vi filme nenhum.
São estas situações que me fazem lembrar da nossa condição primordial de seres animais antes de uma qualquer pretensão racional.

quinta-feira, agosto 21, 2003

Vicios

Dizem-me agora durante a minha incursão diária pelos blogs "Viciada!" ao que eu respondo "Como não fumo..."

Escrita

Afinal escrevi muita coisa estas férias que ainda vão a meio. Como escrevi na forma tradicional do papel e caneta tenho de arranjar um tempito para dactilografar tudo e então poder pôr aqui.

Trocadilho com pensamento pornografico incluido

Descobri um bar onde tocavam jazz de qualidade num sitio que apesar de lá ter passado muitas vezes nunca tinha reparado que era o unico sitio com animação do sitio aonde estava, uma terra sossegada no norte de Espanha, ao fim de umas quantas cañas pedidas sempre a mesma empregada e estando eu sozinho era natural que surgisse alguma conversa, nada de especial que se registe, a não ser quando eu digo que me vou embora e ela:
- Y mañana? viente mañana!
O bom senso impediu-me de dizer em alto e bom som:
- E Hoje? Porquê que não pode ser hoje!

Lembrando Hemingway

Enquanto tomava um café solo e uma cervejita na esplana uma rapariga na mesa ao lado pergunta-me:
- Siempre te miro acca escreviendo. Eres escritor?
- Me divirto escriviendo solo eso!
- Lo veo, cañita en la mano y por veces, una sonrisa. Ya lo habia reparado.
No dia seguinte lá nos encontrarmos na mesma esplanada e depois de um cumprimento de olhar, ela pergunta-me:
- Oye! Hemingway de la cañas, tienes fuego?
Pois é o absinto já não está a dar.

Ham?!?

- Porque é que às vezes ficas com um olhar estranho e distante? Em que pensas?
- Em nada. Sou eu que tenho uma alma triste e às vezes sou assaltada pela tristeza.

quarta-feira, agosto 20, 2003

Back to bussiness - acabaram-se as férias

A Espada está entupida de posts sobre férias, quanto horas e minutos faltam para as férias, o espectáculo que vão ser as nossas férias, os banhos que vamos tomar, a loucura que vão ser as nossas férias, o sol que vamos gozar, férias, outra vez férias e ainda mais férias.

O que não deixa de ser altamente deprimente para quem lê e que, com elevadíssima probabilidade, está a trabalhar. É o meu caso. Volto de férias e que encontro eu na Espada? Encontro, apenas e só, posts sobre férias futuras.

Não querendo minimizar o entusiasmo de quem ainda vai gozá-las, o certo é que as férias, tal como as praticamos hoje em dia, andam um bocado paradoxais.

- Para podermos descansar 22 dias úteis (isto para quem pode), andamos um ano inteiro a cansar-nos.

- Trabalhamos para o bronze durante duas semanas seguidas. Depois, em quatro ou cinco, ficamos todos esfolados e voltamos à coloração anterior.

- Passamos quinze dias a comer faustosamente e a beber alarvemente. Quanto voltamos, as calças não servem e vamos a correr inscrever-nos numa qualquer actividade desportiva.

- Ao longo do ano, temos pena de não poder passar muito tempo com as (os) namorados (as), maridos e mulheres, filhos e filhas. Nas férias, não raramente ficamos fartos de os aturar dias inteiros.

Isto só para citar as contradições mais evidentes. Mas não vale a pena ver as coisas pelo lado negativo. O certo é que também foi por estas e por outras que se inventaram os fins-de-semana, os protectores solares, os ginásios e as férias «à parte».

Boas férias (que eu já tive). E cuidado com o stress pré-estival.

Ritmo

Faltam três dias para ir de férias e já estou no ritmo! Nada melhor que viver no limiar dos acontecimentos, cresce a expectativa e não chega o momento.

A ti sempre

Penso no meu carro que te vai visitar e eu não estou, lembro o quanto queria ir, o desejo de já lá estar e o ter de aqui ficar. A minha vida segue o ritmo cadeado deixado pela tua existência. As lágrimas que me descem no rosto são a minha procura de ti. O meu suspiro não é mais do que um intervalo que faço na vida em tua homenagem, é a melhor forma que tenho de comungar contigo agora. A felicidade que vou encontrando hoje é um brinde a ti e às tuas pacientes lições de vida que me davas. A ti, sempre.

Altivo

Olho para ti, e vejo a dignidade ancestral inscrita nos teus traços. A tua postura, o teu olhar e pose são motivo da minha profunda admiração. Fico sempre surpreendida como as tuas potêncialidades podem ser admoestadas pelo carinho que tens por nós. Muitas vezes enquanto te admiro penso o quão fácil seria para ti impores a tua vontade. Mas logo fico embevecida com o teu doce olhar e carinho enquanto te faço uma festa.

Percurso

Na nossa existência temos de ultrapassar um determinado caminho para terminar onde deveriamos. O mais estranho é que todos temos de percorrer uma direcção tão distinta uns dos outros. Quem nos faz tão diferentes? As nossas escolhas ou as nossas vivências?

terça-feira, agosto 19, 2003

Reviver o passado

Existem vivências que parecem pertencer-nos de outras vidas, às quais atribuimos uma linha de seguimento de tempos passados. Mas será mesmo assim? A nossa vida será constituida por repetições do já vivido? Não temos direito a partir do nada e construir um todo novo?
A melancolia que hoje me assalta faz-me pensar nisto.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Work, work, work

Ainda tenho mais uma semana pela frente antes de seguir para férias.
O fim de semana foi muito bonito, o norte tem muito encanto e a ilha de La Toja merece a visita com uma atenção mais cuidada.
Bom, por agora tenho de continuar com o trabalho, só não podia deixar de enviar um post!

quinta-feira, agosto 14, 2003

E´ Hoje

A partir de amanhã e até ao final do mês é provável que não aja mais posts por aqui. Da minha parte claro. Levo o meu caderninho para o que der e vier. Normalmente dá para fazer peso. Mas pode ser que uma súbita visão, tão bela como a que vi ontem, me abra o apetite.... de escrever.

Preferencias

Quase toda a gente elege os seus sítios de preferência sejam eles o café, o talho, ou a padaria. Cada um terá as suas razões, por certo, todas essas opções serão muito plausíveis. Mas pouco terão, como eu, uma caixa multibanco de preferência. Pois bem, eu tenho uma desde ontem. Ideias que a mente masculina tece.

quarta-feira, agosto 13, 2003

Snif, hum, ha!

Existem músicas com cheiro, não acham?

Viva o ocio

Este era um dos meus lemas de vida favoritos (enquanto teenager encadernava os livros com fotos e esta frase) o que dava um gozo especial aos machos da turma, faziam sempre o trocadilho - Viva ó cio Brisa?- claro que eu nem me dignava a responder. O meu olhar condescendente dizia tudo, é preciso ter um grande conhecimento de causa para retirar o verdadeiro sentido à frase. E eu tinha-o. Adoro ficar sem nada fazer, só a olhar para nada.
O que pode ser melhor do que expremer um modo de vida a uma frase?

Preguiça

Dou uma volta por vários blogs e vejo que está tudo a espraiar. É por esta altura do ano que verificamos que somos criaturas de hábitos idênticos. Nesta altura o país repousa lânguido à beira mar. Eu só mais tarde, é a velha mania de ser do contra. Por enquanto ainda vou postando algumas coisas (na próxima semana devem aumentar em quantidade, dada a maior disponibilidade temporal), mas na última semana de Agosto sou eu que me ausento por alguns tempos. Vou tentar ir até um cibercafé para ir relatando algumas das fiestas que conto visitar.
Desde já desejo boas férias a todos que partem por estes dias!

E agora?

Qual será a melhor forma de lidar com a situação? Devo esperar a que te decidas partir, ou tenho de tomar uma actitude? Ainda não sei o que se passa. Nunca sei como reagir nestas situações, penso sempre que poderia fazer melhor, que deveria ter tomado outra actitude.
Agora sinto-me completamente baralhada no mar de possibilidades. Confio sempre no meu instinto, a isto chamo ter actitudes próximas do nosso estado mais primário, mais básicas.
Mas em determinadas alturas questiono-me. Esta é uma delas.

(e/ou) parte 17

três dias a evitar bater com a cabeça nas paredes por uma raiva crescente. entre letras injustas não te escrevo. talvez o fizesse, caneta cor de ira a debitar texto aonde havia branco, olhar de sangue e sempre injusta a palavra a fazer feridas como se quisesse rasgar o céu da boca. um frémito quase vómito de desejos contidos com laivos de maldade nas palavras pululantes de uma mente pouco calma, resguardo as palavras... as que não te escrevo. o silêncio fere mais, ainda mais quando o junto de indiferença. e eu gosto, amo essa indiferença que percorre veias grossas recebendo pontapés de um coração que, de forte, só tem a sua impenetrabilidade. mas não volto a dizer isso do teu, nem isso, só o silêncio e uma maldadezinha que é não contar segredos. nem por vingança. é só mesmo por indiferença, desprezo, pela tua injustiça ou o que queiras dizer porque já não te ouço.

Contagem Decrescente

Já só faltam dois dias. Será que trasnparece uma certa ansiedade e uma pitada de regojizo?

JUBILO PULMONAR

Morreu a Santa da Ladeira. Apesar dos incêndios...já se respira melhor.

terça-feira, agosto 12, 2003

Una y otra vez

Tendo como exemplo a noite de ontem, só me apetece lembrar :

"Que bonito ès el amor bajo la luna en una noche de verano!"

Apenas por

Procurar o que nunca se encontra,
Vasculhar no liso de tudo,
Sulcar caminhos vistos,
Seguir.

Descobrirmo-nos nos outros,
Verem-nos como eles,
Fantasmas de nós.
Ficar.

Sinto a pele envolta numa suave película que levanta os pelos dos braços.
O arrepio do ar condicionado potencia esta sensação.
O cansaço está impresso nos meus olhos, e custa mantê-los abertos.
Malditas noites de calor.
Espero por melhores noites.
Dias sem fim.

(e/ou) parte 18

apenas uma carícia desperdiçada. na mão um leve tremor, e no bolso, uma sensação de abandono em forma de carta. tinha a palavra fim dentro e soube logo isso. pela textura rugosa do envelope e do sangue que fez nos dedos, bem nas pontas onde se inicia a carícia. fim brusco e violência estranha. pensou. e que, afinal, a terapia do engano funciona. que se vive melhor debaixo do tecto da mentira do que sob a expressão súbita e dolorosa de um fim telegráfico. porquês e razões ficaram guardados para uma outra escala do tempo e quando as receber vai achar falsos, porque julga agora ter sido sempre assim. e se estiver enganado? ou se já não quiser saber?

Contagem decrescente

Faltam apenas 3 dias.

segunda-feira, agosto 11, 2003

Horizonte

Horizonte, de uma viagem esquecida. Recortes por entre as montanhas onde são abruptos os pontos de ruptura. Peço-te, vem. Talvez ignorando o meu nome, o meu rosto. Vem irada, confusa, se estiveres perdida, vem. E esquece. O teu passado, a tua ira e encontra-me. Corresponde, ao olhar com um beijo, à palavra com a mão dada e amor. Acima de tudo, o meu poema junto à cabeceira como uma carícia. Se eu partir, o mesmo que dizer a querer regressar. Perdi-te no tempo das procuras, incapaz de controlar ânsias e peço-te, regressa. Com outro nome, com outro rosto. Mochila às costas, carrega pouca coisa, traz poucas recordações, não te esqueças do humor, traz o poema que ignoravas ser meu, e encontra-me. Não no fim do tempo, mas no princípio de uma qualquer viagem. (1995)

And now I'm back

Pois é, ainda agora de volta e já estou farta... Ainda me sinto presa ao fim de semana.
Porque é que os momentos mágicos não podem ficar cristalizados e durar para sempre?

domingo, agosto 10, 2003

Tempo

Tenho tempo, mas pouco tempo para o perder. Sobretudo tenho muita pouca vontade...
... até de escrever, poetizar com palavras as rudes atitudes dos outros.

Cesariny

Há pessoas que dizem coisas mesmo belas, mas depois, quando olhamos dentro para essas frases, dá-nos um arrepio, até dá medo...
Ama como a estrada começa*
Será isto outra prova do infinito? ou da infinita estupidez da utopia?

*Mário Cesariny, parabéns pelos 80 anos

sexta-feira, agosto 08, 2003

Bon

Je m'en vais! Desejo um bom fim de semana para todos, a ver se as coisas correm bem.
Espero que aproveitem bem!

Mariposas en la tripa

É bom sentir as coceguinhas no estômago quando temos aquele nervosinho de expectativa!
Não querendo parecer derrotista, mas quando fico assim algo corre mesmo muito mal...
Já outros têm melhores experiências.
E para um amigo que vai hoje ser entrevistado na NTV, tem calma que o nervosinho passa!

Desisto

Não acho normal que não possa fazer um plano e segui-lo consequentemente. Na minha vida há sempre o elemento contraditório que estraga tudo. Vaya suerte...

Baldes de baldas

Dantes erámos um pais de baldas, agora somos um pais a baldes...

Hummm!

Despertar e sentir que um dia novo começa sem vestigios de passado é a melhor forma de olhar a vida. Dá-nos a possibilidade de inventarmos todo um rol de acontecimentos que gostariamos ter visto acontecer. Sem as culpas, sem as tristezas do já vivido.

A justiça, ou talvez nao

CHIUU! BUM! BUM! SILÊNCIO.
E por muito que ao réu o acusem, ele irá sempre jurar a sua inocência.
CHIUU! BUM! BUM! SILÊNCIO.
Grita e bate o juiz com o seu martelo em punho... foice a democracia!.... Como um fálico objecto impondo a sua sexualidade machista, tenta acabrunhar o próprio réu que prossegue em achar-se inocente.... E ora são os juizes de acusação, com o seu ar severo, fingindo serem piores que as cobras, mais moralistas que o pápa, gritando:
C U L P A D O...
Ou ora são os advogados de defesa, mais humanitários que toda a humanidade junta, mais curadores que um remédio milagroso, argumentando:
I N O C E N T E...
E o réu ri-se, com muito dinheiro no bolso para pagar a caução.

Medo de Morte

Ouve! Aquele leve murmúrio, está longe não esta? É a Morte. Ela espera por ti, sorrateiramente espera que vires a próxima esquina para te encurralar num beco negro, sem luz e solitário. Ouves? Lá longe ela caminha, de soslaio pousa o seu olhar em ti, aproxima-se, quer agarrar-te. Faz um barulho louco, põe-te doido. Não foges? Estás aterrado de medo, uma força tão grande te prende que nem um pé consegues mover, sentes o sangue enrijecer até te congelar os movimentos e o teu cérebro já não é quem comanda, só o medo te dirige. Que se passa contigo? Estás com medo? Da Morte?!! Não tenhas medo. Quando ela poisar a mão em ti será como um raio que te fulminará: a morte é aquela breve fracção de segundo em que és para deixares de ser. Tens medo da Morte? Devias ter medo da vida. Tens medo da Morte mas não te demoves do teu erro: o erro de viveres pelo mundo sem viveres, sem gozares o momento em que respiras, sentes e vives. Tens medo da morte mas esqueces-te de viver.
(1989)

We all go down

- 'Up or down?'
We all go down
down that road
above a river
which runs ideas
murky ideas
of how to go up
- 'Up or down?'
asks the Devil with his horns
all the walls are boiling
and fire burns in red
smoke makes a storm
and the thunders scream 'n' shout
- 'We all go down'
Said the sinner to the sinners
and floor goes melting
and safe roads are ideas
burning in light red
- 'Are you all sure?'
plays the Demon to the sinners
all sinners
are as evil as the Devil, so
- 'We all go down'
(1989)

Curiosidade

Que nome se dá aquela pequena parte de plástico que fica na ponta dos atacadores?

quinta-feira, agosto 07, 2003

Prostrada

Muitas vezes me vejo parada, imóvel, estática, congelada numa centésima de segundo. Quando fico assim abstraida não reparo em nada em redor, são segundos ganhos num mundo diferente, são espaços em mim. Para num espasmo frio descer logo à realidade e seguir em frente.

Rosto de Carvao

Gestual... ou apenas um circulo? Uma união cabal como prova ou apenas um dedo giratório? E uma porta muito pesada que de mim nada deixa passar. Dou um beijo baço de névoa na minha sauna ardente. Como eu provo ser em ti um bocado de solidão. Podes. Renega-me. Se assim te der vontade, afasta-me para tão longe de ti. Engano-me... não és tu que não me queres, sou eu que não penso em ti. É tão obliqua esta verdade que de um ponto tão baixo a uma distancia tão longa tudo se evapora numa única linha: a linha do meu espelho. Olho-me, tão passiva, tão ingrata, tão sem nexo... e tenho medo; dos meus olhos; do meu cabelo; da minha cor branca de quase cadáver; dos meus lábios que pinto de um vermelho infernal que dizem tanta cruel realidade, que beijam pior por piedade, que quando sem cor têm som afinal. E neste espelho de imagens invasoras, evasivas, senhoriais, evapora-se um pouco de álcool, um pouco de éter, de sacrifício, de trauma, de redundância abalada. Falo por mim que sou parva, que sou um farrapo podre, uma escatologia coberta de sensualidade. Que posso fazer quanto ao meu desígnio? Destilar-me em água benta? Sucumbir perante ele? Ajoelhar-me como se fosse um santo... ele?!... e eu?... Serei assim tão rosa, tão carmim? Tão flor como quero pensar que sim? Ou serei diabo arrogante, enorme e selvagem senhor errante? Ou apenas um naco carnudo de tentação? Só consigo olhar-me no espelho e ver a minha pele lívida: morta. E ver os meus lábios secos: mortos. E ver os meus olhos venenosos: mortos. Não posso mais olhar-me, ver-me como não quero: morta. Ou sonhar e apenas sofrer; por sonhar e por sofrer, em sonhos, em sofrimentos que me delapidam constantemente. Não! Foge para longe. Falo para ti triste imagem, falo para ti triste miragem, falo para ti porque triste. Quando mais me apetece calar e quanto mais me apetece calar, é quando mais me acresce falar. Já não é suportável mais o meu rosto enegrecido pelas tuas mãos cobertas de negro carvão, desnudas de nojo e perdão. Já me é insuportável, um ou dois ou até três dedos, quatro ou cinco ou até uma mão. Cinco mais cinco ou até duas mãos cravadas em meu marmóreo rosto, tão negro, tão ameaçado pelo teu amor, tão belo, tão estragado pela tua dor. É ainda e só esta cor do teu carvão que nos une; ligação tão ténue mas tão irresistível como sonhar i uma lembrança uma nesga doce de um passado. Mas não consinto que te toque, que me toques ou que me abraces e que me beijes ou que me toques nos lábios e que eu sinta um prazer tão grande que logo fujo por medo por... por não saber que medo é esse, por não saber que é esse o medo; o medo de ter medo, o medo de ter prazer ou, e bem possível, o prazer de ter medo e continuar a ter medo do prazer. Já não suporto mais esta confusão, este desenho que em minha mão detenho feito por ti que desfaz-me a mim. E foi com as mãos sujas de grafite, de pó negro e feio que me agarraste a cara com uma raiva que eu julguei ser impossível e me apertaste... sentindo, sofrendo, suando... sem ser só sofrer ou só sentir ou só suar; ainda que um pouco de choro, ainda que um pouco de homem, ainda que um pouco meigo, pintaste também as tuas mãos só que no meu rosto tenho carvão, e num rosto é tão mau, tão mau, como mau, como má só eu sei ser, embora dependa tanto de todos, até de ti....... porque te ofendo?..... é sobretudo de ti, sobre todas as outras coisas, as outras insignificantes coisas, é ofensa minha negar-te, negar a minha admiração por ti, negar a tua superioridade sobre mim, negar tudo até negar-me a mim! Cada vez mais é impossível este meu rosto de carvão, tão feio, tão bruto, tão cru, tão rude, tão parvo, tão carvão. É a tua admiração que impede a minha adoração. E quando um de nós dois morrer vai ser um de nós dois que vai sofrer; sofrer por nós dois nunca sermos um. Eu sei, isso, eu sei, a fuga; tu perguntas, também tu imcompreendes a fuga. Porque fujo? Porque fogem os animais assustados? As bestas, os selvagens, os sanguinários e os rebeldes? Os desvairados e os sem-casa, os que não respeitam tudo e os que sabem tão pouco de nada? É tanto calor tanta sauna, tanta névoa, tanta nuvem, tanta dúvida, tanta pergunta, tanto calor, tanta nuvem... que não vejo nem compreendo o meu espelho, o meu rosto que já se apaga a visão que eu nunca também quis ver. E é já só branco, é tanto branco, tanto nada é apenas um rosto que alguém pensa ser eu como eu como assim por assim, como coragem desvairada, como dragão a vomitar fogo.
É já só raiva, é já só falta de coragem, é já só e nada, que quase já não sobra nem um pouco
um pouco de tempo para a tua indiferença. (1990)

Its always the same

Ontem em poucos minutos foi decidido que ia jantar à Costa Nova. Saída atribulada do Porto e chegamos ao som electro do momento. Adoro sair assim inconsequente, encontramos momentos memoraveis em decisões percipitadas. A noite em Aveiro estava mais fresca do que aqui, por isso aquando da chegada ao Porto deu para fazer umas pequenas caminhadas na abafada calma da cidade deserta. Gosto de conversas que seguem em caminho pausado de irreverência, palavras ditas com sentimento, agarradas à pele. São noites assim que me fazem acreditar que a nossa existência não tem de seguir paulatimanente um padrão. To you merci.

quarta-feira, agosto 06, 2003

Musica

Existem músicas que têm um cordel ligado à nossa alma, passe o tempo que passar, quando as ouvimos de novo, é repuxada uma qualquer memória.

Outra vez?

O calor abrasador está de volta, custa tanto andar na rua, sinto-me esplanar de tanto calor.
Adoro o sol e o verão, mas destesto as amplitudes térmicas locais, as diferenças abismais do dia para a noite deixa-me mal, se houvesse constância na temperatura eu até me habituava rápidamente ao entorno. Mas não, desaparece o sol do seu zénite e já o termómetro despenca. É lógico que, dentro de poucos dias, já esteja com uma constipação...

Talk, talk

Há conversas que se arrastam como se fossem intermináveis, e não duram mais do que alguns minutos, e outras tão interessantes que gostariamos de ver infindáveis e intemporais.

Vicios privados

É lamentavel o estado que ficamos depois de comer demasiados rebuçados de amendoim. O pior é que só se pára quando acabamos com eles...

terça-feira, agosto 05, 2003

Rilke ja ia as discotecas?

Começou como banquete. E transformou-se em festa, mal se sabe como. As luzes altas tremiam, as vozes esvoaçavam, tiniam canções confusas dos cristais reluzentes, e por fim, dos ritmos já maduros: brotou a dança. E ela a todos arrebatou. Havia nas salas um marulhar de ondas, encontros e escolhas, despedidas e novos encontros, ebriedade de brilho e cegueira de luzes e um baloiçar-se nos ventos de verão que havia nas vestes de mulheres ardentes.
De vinho escuro e milhares de rosas sussura o tempo e corre para o sonho da noite.
(1899)
Rainer Maria Rilke in "A balada do amor e da morte do alféres Cristovão Rilke"

Ténue

Começar é sempre difícil, nunca sabemos como. Agora passado este tempo todo, olho para trás e vejo que nunca tinha começado, só continuava. Esperava-te e continuava à espera, mas nunca tinha começado a esperar-te. Hoje sento-me ao sol, cerro os olhos e vejo dentro de mim tudo de ti. As imagens são definidas, o teu contorno, o teu sorriso, a maneira como inclinavas a cabeça quando me olhavas, a sensação de calma que começava a alastrar quando me falavas, o teu cheiro. Lembro bem o teu cheiro, quando te sussurrava o mundo ao ouvido e tu encolhias os ombros num arrepio de contentamento. Mas a melhor recordação é sem dúvida a tua nuca, definida, lisa, perfeitamente quente e dourada. Era capaz de me perder na tua nuca, de ficar suspensa sem respirar para não te mexeres. Ficava horas a observar-te a nuca, se pudesse ficava assim o resto da vida, a ver a tua vida sem tu reparares, a avançar sobre ti como um manto de mim. Escaparia de bom grado num sopro leve e morno para a tua nuca, contando com o teu sorriso de resposta. Mas o bizarro é que não me lembro de ti, se te vir outra vez, passo como se de mais um estranho se tratasse. Mas se olhasse a tua nuca, então sim, saberia que és tu.

Passado

- Tens o Diabo no corpo!
- Não, tenho Demónios no coração...

(post de pós- auscultação de um tema musical de Pedro Abrunhosa)

Voltar

Ser sempre tudo de nada,
aguardar o vazio que não chega,
relâmpagos fumegantes
de sentimentos perdidos.

Buscas inúteis do encontrado,
olhar no escuro o silêncio de ti,
sentir o calor da tua ausência,
tocar o suave cabelo de mel.

Abraçar os beijos contrários,
ver o sorriso dos teus olhos,
ouvir a gargalhada da tua alma,
tocar a tua voz límpida e séria.

Fugir do esfalto que cresce,
saltar o caminho lá longe,
encontrar-te no meu mar.
Espero.

O MAR: dentro e ao redor

Mergulhei fundo, sempre dentro até onde fosse preciso. Fazia bolhas ao meu redor, talvez lembranças de um corpo em suor ou de um amor antigo a afogar-se na água que me dava sede. E eu bebia, com a língua sempre suja de uma saliva que não a minha. Mergulhei fundo, sempre dentro, talvez demasiado dentro até feridas fazer de embater nos corais laranja da cor de cabelos teus. Ousava mágoas não queridas, ter tudo e nada ter. Mergulho sempre de mãos vazias por assim vazias acabarem no desfecho do destino, sem expectativas para não iludir, só querer para não querer demais. E descobrir praias e ilhas locais desertos ou só contigo, mar fundo mar a dentro, sem ser preciso ter-te. Só querer-te e tu quereres o mesmo. Só compartilhar. Não o mar todo, talvez só um aquário. Nada mais. Se eu te bastar, tu me bastares e o amor... O amor, um abraço comum e afogamo-nos. Deixarmo-nos cair e abraçados, inertes como uma âncora que não é um querer ficar. Antes partir e ir mais longe, mais fundo no mar onde há peixes e criaturas nunca vistas. E há tantas bolinhas brancas dentro de mim como espuma que espera respirar, mas eu mergulho sempre fundo, sempre para o fundo, sempre depressa com a espuma a colar-se a mim como a saliva dos teus beijos, contigo sempre a fugires nadando sempre mais rápida e ondulante como sereia de água doce. Não queres ser real, és obra da ilusão que crias. Vou sempre mar dentro, não tenho medo. Não quero tudo, só um aquário. Querer pouco é sempre querer demais, e depois talvez perder. Um peixe passa por mim, tenho pequenas bolhinhas brancas a saírem do meu nariz, tenho falta de ar engraçado não se poder respirar debaixo de água. Estou tonto, isto de nos afogarmo-nos tem que se lhe diga. (1996)

Futurologia

Após uma manhã despertada com o bater na porta, só posso augurar um desfecho trágico para o dia de hoje. A isto se chama ter um conhecimento extremo de nós próprios. O mau feitio é algo inato em mim.

segunda-feira, agosto 04, 2003

Dança da Chuva

Quando somos impotentes para ajudar, fazemos o que podemos. Hoje dediquei-me a uma dança da chuva enquanto ia fazendo o jantar. Os culpados foram uma banda chamada Kaskade que fazem uma música que se enquadra naquilo a que alguns chamam de Happy House. E lá fui eu dançando, a música chama-se "Gonna Make It". É um bom prenúncio. E dançarei até que os pés me doam.