quarta-feira, agosto 06, 2003

Vicios privados

É lamentavel o estado que ficamos depois de comer demasiados rebuçados de amendoim. O pior é que só se pára quando acabamos com eles...

terça-feira, agosto 05, 2003

Rilke ja ia as discotecas?

Começou como banquete. E transformou-se em festa, mal se sabe como. As luzes altas tremiam, as vozes esvoaçavam, tiniam canções confusas dos cristais reluzentes, e por fim, dos ritmos já maduros: brotou a dança. E ela a todos arrebatou. Havia nas salas um marulhar de ondas, encontros e escolhas, despedidas e novos encontros, ebriedade de brilho e cegueira de luzes e um baloiçar-se nos ventos de verão que havia nas vestes de mulheres ardentes.
De vinho escuro e milhares de rosas sussura o tempo e corre para o sonho da noite.
(1899)
Rainer Maria Rilke in "A balada do amor e da morte do alféres Cristovão Rilke"

Ténue

Começar é sempre difícil, nunca sabemos como. Agora passado este tempo todo, olho para trás e vejo que nunca tinha começado, só continuava. Esperava-te e continuava à espera, mas nunca tinha começado a esperar-te. Hoje sento-me ao sol, cerro os olhos e vejo dentro de mim tudo de ti. As imagens são definidas, o teu contorno, o teu sorriso, a maneira como inclinavas a cabeça quando me olhavas, a sensação de calma que começava a alastrar quando me falavas, o teu cheiro. Lembro bem o teu cheiro, quando te sussurrava o mundo ao ouvido e tu encolhias os ombros num arrepio de contentamento. Mas a melhor recordação é sem dúvida a tua nuca, definida, lisa, perfeitamente quente e dourada. Era capaz de me perder na tua nuca, de ficar suspensa sem respirar para não te mexeres. Ficava horas a observar-te a nuca, se pudesse ficava assim o resto da vida, a ver a tua vida sem tu reparares, a avançar sobre ti como um manto de mim. Escaparia de bom grado num sopro leve e morno para a tua nuca, contando com o teu sorriso de resposta. Mas o bizarro é que não me lembro de ti, se te vir outra vez, passo como se de mais um estranho se tratasse. Mas se olhasse a tua nuca, então sim, saberia que és tu.

Passado

- Tens o Diabo no corpo!
- Não, tenho Demónios no coração...

(post de pós- auscultação de um tema musical de Pedro Abrunhosa)

Voltar

Ser sempre tudo de nada,
aguardar o vazio que não chega,
relâmpagos fumegantes
de sentimentos perdidos.

Buscas inúteis do encontrado,
olhar no escuro o silêncio de ti,
sentir o calor da tua ausência,
tocar o suave cabelo de mel.

Abraçar os beijos contrários,
ver o sorriso dos teus olhos,
ouvir a gargalhada da tua alma,
tocar a tua voz límpida e séria.

Fugir do esfalto que cresce,
saltar o caminho lá longe,
encontrar-te no meu mar.
Espero.

O MAR: dentro e ao redor

Mergulhei fundo, sempre dentro até onde fosse preciso. Fazia bolhas ao meu redor, talvez lembranças de um corpo em suor ou de um amor antigo a afogar-se na água que me dava sede. E eu bebia, com a língua sempre suja de uma saliva que não a minha. Mergulhei fundo, sempre dentro, talvez demasiado dentro até feridas fazer de embater nos corais laranja da cor de cabelos teus. Ousava mágoas não queridas, ter tudo e nada ter. Mergulho sempre de mãos vazias por assim vazias acabarem no desfecho do destino, sem expectativas para não iludir, só querer para não querer demais. E descobrir praias e ilhas locais desertos ou só contigo, mar fundo mar a dentro, sem ser preciso ter-te. Só querer-te e tu quereres o mesmo. Só compartilhar. Não o mar todo, talvez só um aquário. Nada mais. Se eu te bastar, tu me bastares e o amor... O amor, um abraço comum e afogamo-nos. Deixarmo-nos cair e abraçados, inertes como uma âncora que não é um querer ficar. Antes partir e ir mais longe, mais fundo no mar onde há peixes e criaturas nunca vistas. E há tantas bolinhas brancas dentro de mim como espuma que espera respirar, mas eu mergulho sempre fundo, sempre para o fundo, sempre depressa com a espuma a colar-se a mim como a saliva dos teus beijos, contigo sempre a fugires nadando sempre mais rápida e ondulante como sereia de água doce. Não queres ser real, és obra da ilusão que crias. Vou sempre mar dentro, não tenho medo. Não quero tudo, só um aquário. Querer pouco é sempre querer demais, e depois talvez perder. Um peixe passa por mim, tenho pequenas bolhinhas brancas a saírem do meu nariz, tenho falta de ar engraçado não se poder respirar debaixo de água. Estou tonto, isto de nos afogarmo-nos tem que se lhe diga. (1996)

Futurologia

Após uma manhã despertada com o bater na porta, só posso augurar um desfecho trágico para o dia de hoje. A isto se chama ter um conhecimento extremo de nós próprios. O mau feitio é algo inato em mim.

segunda-feira, agosto 04, 2003

Dança da Chuva

Quando somos impotentes para ajudar, fazemos o que podemos. Hoje dediquei-me a uma dança da chuva enquanto ia fazendo o jantar. Os culpados foram uma banda chamada Kaskade que fazem uma música que se enquadra naquilo a que alguns chamam de Happy House. E lá fui eu dançando, a música chama-se "Gonna Make It". É um bom prenúncio. E dançarei até que os pés me doam.

MANHOSAS MANOBRAS

Aconteceu no âmbito de um grupo de reflexão que, entre febras e costelinhas, se reuniu em Cerveira, este fim-de-semana, para discutir alguns temas candentes da actualidade. Encerrado que estava um workshop - com componente prática- sobre a flatulência no Alto Minho, a certa altura veio à baila o nome da "Sdona" Joana Lemos (JL)- de resto, não será de desprezar a hipótese de uma relação causa efeito entre os dois momentos. Nunca os presentes tinham conversado sobre o personagem, mas deu-se a curiosa circunstância de todos concordarem na análise: JL é uma nulidade oportunista, uma "Cinha-esperta" que vive à custa da nacional-basbaquice.
Analisemos. JL dedica parte significativa do seu tempo a ir a sítios onde há-de estar um fotógrafo de uma revista cor-de-rosa. Dir-se-á que há mais quem viva em função dessa prioridade. Acontece que enquanto que as Bibas Pitas são, sem outras pretensões, profissionais do "boneco"(nem vale a pena falar da Papisa Caneças), JL dá-se à presunção de nos querer convencer que tem ofício, que trabalha e que é competente no que faz.
Princípio da saga: JL foi uma vez dar mau aspecto ao Rally Paris-Dakar. Andou por lá a castigar um jipe durante um dia ou dois e depois desistiu. Mas isso que importa? A star was born! JL transformou-se numa celebridade! Dai em diante- e já lá vão uns anitos- JL soube capitalizar essa façanha e do fracasso fez glória. Continua a maltratar caixas de velocidades e a esfarrapar pneus, não ganha nada que se veja, mas mantém incólume o estatuto de piloto de alta competição. JL conseguiu pôr a lógica das coisas de pernas para o ar: não lhe tiram fotografias por ser bom piloto, é piloto porque lhe tiram muitas fotografias. E como é muito fotogénica a conduzir flutes de champanhe e a fazer gincanas entre travessas de canapés, JL é um bom investimento para os patrocinadores que lhe sustentam a fantochada. De vez em quando JL lá faz o sacrifício de subir ao alto de uma duna, equipada a rigôr, capacete debaixo do braço e carregada de patrocínios. E ...o jipe? Ora o jipe! Ficou numa garagem de Chelas a afinar as velas. Como se JL precisasse de levar o carro para ganhar a "sua" corrida!
E nós, basbaques, a vê-la passar. Vou ali mudar o óleo e já venho.

Summer

É bonito, quando penso nesta estação e num filme, lembro sempre o "Punch Drunk Love".
As cores ficaram gravadas na retina e os sons na alma.

Blogando

Vêm-se muito por aí variadissimos comentários ao facto de se fazer um blog e de se escrever. Não critico opiniões nem vou dissertar sobre verdades absolutas, nesta perspectiva não as tenho.
Mas não posso deixar de aqui opinar pelo simples facto que também eu escrevo num blog.
A sensação que fico das opiniões contrárias ao facto de se escrever num blog é que a qualidade bloguistica nacional deixa muito a desejar. Ora como podem ter esta opinão, se a própria condição de Blog implica a liberdade inerente a um serviço de rede livre (e logo aberta a um leque varidado em quantidade e qualidades relativas)? A explicação mais plausível que encontro para tal afirmação tem como base a pobreza de espirito e a mentalidade tacanha da maioria intelectual nacional. Como país pequeno que somos tendemos a um compadrio -que até acho compreensivel- mas que é invariavelmente escondido. Não aceitamos de bom grado o facto de tendencionalmente termos actitudes que poderão agradar a quem nos está mais próximo. Pensamos sempre que ao ajudarmos quem gostamos ou quem nos faz um favor, estamos embuídos de um espirito altruista e de bom samaritano. Não lidamos bem com o facto que se trata, verdade crua e nua, de tráfico de influência. Por isso quando leio nos jornais os nosso ilustres comentadores ameaçados por uma forma inconsequente de lidar com as noticias, como vem acontecendo agora com os blogs, estes personagens esquecem o essencial UM BLOG É UM DIÁRIO LIVRE QUE É DIRIGIDO COMO OS SEUS EDITORES BEM ENTENDEM. QUEM NÃO QUISER, NÃO LÊ.

Por?

Votamos ao esquecimento muito do que já vivemos e estamos sempre a ter saudades do que não sabemos

Back in business

Pois é estamos de volta, depois de um fim-de-semana atribulado, agora vive-se o tempo de calmia. Há que recuperar a saúde, pois não há estômago nem vesícula que aguente a sucessão de barbaridades cometidas. Nem corpinho que que se mexa com tão poucas horas de sono diárias...

sexta-feira, agosto 01, 2003

Restless

I find in higher inner
the reason for you
I surch deep to check
the throb heart
you give me.

Um Blog do Norte

O Blog vai ainda mais para Norte este fim de semana, toda a gente sabe que o Porto muda-se para Caminha em Agosto. Nós também não, mas estaremos lá perto. Voltamos para contar como foi. Talvez Domingo, quem sabe Segunda. Vou levar o meu caderninho, nunca se sabe. Fiquem bem.

Defeso II

A Espada continua a contratar reforços para a sua equipa, depois do EramosUmGajo, seguiu-se o NovoAutor (a quem ainda não tinhamos feito a apresentação, mas o seu primeiro post diz tudo). Ficam ainda alguns outros convites que se encontram suspensos (será que estão em férias?). Eu e a Brisa continuaremos a fazer as honras da casa mantendo o ritmo de actualização da Espada. Claro que Agosto é Agosto e poderemos estar intermitentes entre o verde de alguns olhos e o vermelhão de um ou outro escaldão solarengo. Ou, talvez pior, aquele amarelo perigoso das cervejolas!

O retrato

Era a rapariga mais feia da minha turma. Era o que todos diziam. E era mesmo. Só eu gostava dela.

Seguia-a rio abaixo nos finais de tarde quando fazia sol. Ela abria o seu caderno de folhas A3, procurava a primeira que estivesse em branco, com a mão esquerda segurava em três lápis e no bloco de folhas, e eu ficava a vê-la a desenhar no sossego da sua solidão. Gostava de vê-la a desenhar e a imaginar o que desenhava. Ficava sempre a mais de dez metros de distância dela, ninguém me podia ver. Muito menos a espiar a rapariga mais feia da minha turma.

Era a que desenhava melhor e mais rápido. Era o que todos diziam. Até mesmo os professores. Era isso que eu gostava nela.

Às vezes, via-a a olhar para mim. Mas bem que podia ser eu a olhar para ela. Eu dizia que era ela, sempre. Eu não podia estar a olhar para a rapariga mais feia da turma. Estava apaixonada por mim e eu estava a fazer-me de difícil. Era o que eu contava a todos. E era nisso que as pessoas acreditavam.

Era ela que estava apaixonada por mim, e muito. Era o que todos diziam. Mas não sei se era mesmo assim. Só eu sabia que não era. Eu que tinha começado essa fantasia.

Um dia fiz-me decidido a ir espreitar os desenhos que ela nunca mostrava a ninguém. A minha ânsia descontrolada obrigava-me a isso. Estava junto ao rio, dez metros atrás dela. Comecei a correr tão depressa como nunca outra vez hei de correr e arranquei-lhe o bloco das mãos. Ela ficou assustada mas não correu atrás de mim. Era gorda. Eu olhei o desenho e foi então que vi que no desenho era outro que eu conhecia, mas não eu.

Inconsequente

Se há caracteristica que sobressai no povo português é a inconsequência a que votamos todas as decisões e actitudes. E isto deixa-me triste. Voltarei mais tarde a este tema.

Hot on the city

Preparamos mais um dia de calor na cidade, as estradas desertas quase parecem um cenário de western . Tudo parece deambular nas ruas, até as pessoas andam num passo lunar. Os meus cães quase não se mexem, ficam na sombra à espera do fresco do entardecer.
Gosto destes dias assim, em que tudo parece visto de uma perspectiva telescópica.

Silêncio

Vácuo pleno de sentimento,
entradas para fora dos sentidos,
procuras incessantes de tempo.

Estrada com saída no precipício,
caminhos que levam a tudo,
sempre sem retorno.

Seguir a algazarra sem ruído,
gestos lânguidos de passagem,
retratos parados.