segunda-feira, junho 30, 2003

A beleza das coisas

A beleza das coisas está profundamente gravada no colorido dos teus olhos.

A luz da vida quando nos incide sobre a pele, deita-se connosco, atravessa a razão, e vem pernoitar nos sonhos. Passeio sobre a água alisada pela maré que à minha frente sossobra. Ha uma luz azulada que faz reflexos na crista das ondas e anuncia a chegada da manhã. As gaivotas chegam, fazendo-me companhia, debicam frutos do mar onde uma onda deixou apenas umas gotas de saudade. Outras saudam-me com coreografias graciososas, como se dançassem para mim. Dá que pensar. As ondas marulham de mansinho, o som de um saxofone aparece enchendo de laranja a paisagem. O dia vai ser quente. Há um suspiro no ar que traz de volta o teu perfume. É uma guitarra a dedilhar melodias nos meus sentidos. Uma brincadeira de sonhos que se entrelaçam. Não escrevo palavras na areia mas as palavras ficam retidas nos sonhos e de lá não saiem. Ainda dá mais que pensar. Na estrada de pedra o meu rasto perde-se. O medo assalta-me. Sim, isso de já não me poderes seguir, de não poderes sonhar na mesma dimensão que eu sonho. Estendo-te uma passadeira de rosas brancas que só acaba aonde o mar se vai deitar. É uma estrada de fantasia onde podes perder o resto dos teus dias, como um convite para um passeio sem fim. Uma viagem pelo interior das coisas. É o que dá pensar em ti.

Por isso espreito pelos teus olhos.
IP5
Estrada de terror. No Jornal da Tarde da RTP1, o jornalista aponta as causas climatéricas, o mau piso e conceção da estrada E a condução dos automobilistas como causas para mais um dia trágico das pistas lusas. Como o jornalismo nacional nos vai habituando a fazer, automáticamente inverti a ordem das causas apontadas. Depois na peça apresentada, o comandante dos Bombeiros Voluntários dizia que a principal razão para tantos acidentes era a falta de civismo...

Comprei uma nova fragância na tentativa de usurpar o seu nome HEART.
Parece que não o tenho...

(Post de que me lembrei dado que o anterior está titulado com o nome de outra fragância.)
Adicted
Deslumbra-me que tenha esta bizarra atracção pelo sofrimento.
Preciso de sofrer com a alma contorcida para poder sentir de verdade.
Parece que só depois, na calmia, se vê a realidade com a luz da verdade.

Popsicle
Luzes revoltas em frenéticos circulos,
Cabeças inquietas de sons metálicos,
E tu lá,
Na confusão vejo o teu olhar triste,
As conversas tontas de dedo em riste,
E tu lá,
Abstraída continuo as conversas de nada,
O pensamento galga a mente povoada,
E tu lá,
Persistem espaços vazios de substância,
Mas incrivelmente estúpidos de constância,
Saíste.

domingo, junho 29, 2003

Parabéns

O esgrimista português João Gomes ganhou a medalha de prata no Europeu na modalidade de florete. Ora aqui está uma notícia que a Espada Relativa não podia ficar indeferente.
Descriminação positiva?

Se saio com um amigo e vou a uma discoteca tenho direito a um cartão de consumo mínimo de 15 Euros, caso vá com uma amiga, o preço baixa para os 8 Euros. Não que eu não compreenda este critério para manter uma casa equilibradia na relação masculino e feminino, mas não o acho correcto como princípio. Mas o que realmente me indigna é os movimentos feministas não virem reclamar destas descriminações, positivas diria uma amiga minha, descriminação pura e simple digo eu. Eu até sou a favor da igualdade, pena que parte das mulheres ainda não tenha percebido que com a igualdade de direitos também vem a igualdade de deveres, e nunca as vejo reclamar das benesses que esta sociedade ainda lhes vai granjeando.
Ogay?

Conheço alguns homossexuais assumidos que se ninguém me tivesse contado nunca teria notado, mais o mais engraçado, é ouvi-los chamar de "Maricas" todos os homossexuais de trejeitos e poses.... errrrrr.... amaricadas(?). É que se a ideia é serem femininos, deviam olhar melhor para as mulheres porque nem elas se comportam assim. A homossexualidade só tem o seu quê de perversão quando roça o exibicionismo.
As melhores noites precedem os piores dias. Há que aguentar.

sábado, junho 28, 2003

River-pain

Sempre tive um fascinio por esse músico extraordinário chamado Nick Cave, pela sua poesia marcadamente virada ao lado negro da vida. Aqui fica um poema/música de devota influência.


River-pain River-pain River-pain

Oh! catch the wave you'll blow
a sickness end down the go
You have never felt the skin
so get hold in between
River-pain River-pain River-pain
The legs of sorrow run so fast
I'll pray it to be the last

River-pain River-pain River-pain

Oh! Waterfall in your eye
I've never wished to cry
ghost-tears dropping in
soul gets lost in the spin
River-pain River-pain River-pain
swim over pain
or drown within the chain

River-pain (to fade)
29.novembro.89

sexta-feira, junho 27, 2003

As tascas

Disseste que acabavas com tudo e que me deixavas. Fui-me embora sem ouvir mais nada, nem mais uma desculpa ou um porquê teu. Tu ainda chamaste por mim, mas eu segui por uma vida nova, nova e sem ti. Havia de ser assim e assim segui decidido. Parei num bar nesse primeiro dia, ali perto de onde me deixaste. Durante uma semana iam-me lá buscar. Eu embriagado com a cabeça contra a mesa, a tentar adormecer um pesadelo que não me deixava acordar.

Como eras a minha vida parecia que eu não tinha outra.

Tanto me chatearam sobre esta minha nova vida, sobre esta vida que eu vivia sem grande vontade, que me transladei para um café bem perto de minha casa. Durante uma segunda semana mais do que inteira, foi o filho do dono que me levava a casa em ombros. Tinha tratado com ele e assim ficou tratado, eu embebedava-me no bar dele e ele levava-me a casa.

Já ninguém me visitava e até parecia que não tinha casa.

Um dia, sem semana marcada nesta nova vida, uma rapariga embriagada como eu, talvez ferida de um amor desfeito como o que eu tinha, adormeceu sobre o meu ombro e por ele escorregou. Segurei-lhe o queixo, gritei-lhe ao ouvido, esbofeteei-lhe a face. Lá abriu um olho e apelidou-me de goelas. Mas nem vale a pena querer saber porquê.

Foi para tratar dela que a vida me manteve sóbrio, ou para morrer.

Metia-a em casa dela, em casa na sala, da sala para o quarto, no quarto para a cama. Pedia-me sempre para a mudar de sítio, para pô-la noutro lugar. Só queria mesmo era mudar. Quando se está mal, tudo está mal, ou mesmo muito fora de sítio.

Não dormia vestida disse-me, de qualquer maneira eu tinha-a despido.

Os dois na cama de edredão azul marinho, eu por baixo dos lençóis vestido e a tilintar de frio, e ela por cima toda nua a gritar que tinha calor. Era uma situação tão rara e tão pouco sexual ou sensual, que adormecer foi a única coisa que me foi possível fazer. Percorremos a noite toda nesse silêncio do sono e na agitação dos sonhos ébrios e toscos.

Há conversas que não se têm nem na mais doida ressaca.

Quando acordou e se olhou toda nua, nem um ai de admiração pronunciou. Ficou quieta a olhar para mim até eu a questionar. Que foi, nunca viste ninguém a ressacar? Perguntou-me porquê que eu não tomava conta dela, dela e da vida dela para aumentar ainda mais o fardo. Respondi-lhe à pressa e sem pensar que já estava cansado de ser largado, que já tinha tido a minha overdose. Riu-se imenso, meteu-me dentro da cama, contra a sua pele toda fria.

Disse claro que te largo também, mas entretanto, porquê que não podemos ir ficando os dois?
A Memória Elogiada

No artigo da Visão o José Mário Silva elogia assim o blog que um dia nos "apadrinhou": «A Memória Inventada tem matéria mais do que suficiente para fazer um livro de contos e crónicas francamente melhor do que a maior parte das coisas que são hoje publicadas em Portugal.». Eu também acho. E o sucesso da Memória nem se pautou por conflitos e polémicas, mas sim palavras que pela sonoridade, o estilo e a forma foram conquistando as pessoas. Daqui o nosso abraço e um silêncio espectante pela próxima história que brote da memória, mesmo que nos enganem por ser, afinal, inventada.
Ermita
Apetece-me ficar sozinha, afastar-me de todos, até de mim mesma.
Despida
Engraçado como o hábito afecta as nossas vidas, se saio de casa sem brincos ou perfume, parece que estou despida de algo. Se não leio os jornais penso que não estou em contacto com a realidade do mundo. SOCORRO! estou dependente do dia- a- dia.
Adombrarsi
É, fico sempre neste estado quando está um lindo dia de sol e tenho too much to do...

quinta-feira, junho 26, 2003

A lâmina

Na Crónica de Leonete Botelho no Público de ontem transcrevo o paragráfo final com que acaba a sua crónica:

Mas do que mais gosto nos blogues é da sua diversidade. Intrínseca e extrínseca. Faz-me acreditar que o futuro é possível sem que tenhamos todos de nos alistar em qualquer coisa, sem que tenhamos todos de ter rótulos redutores, esquerda-direita, homem-mulher, conservadores-liberais, e tantas coisas que tais. Que todos podemos ser constelações improváveis. E sermos, assim, sempre um pouco mais ricos.

Neste blog temos todos os rótulos redutores referidos no texo: o homem-mulher, a esquerda-direita, o conservadorismo e o liberalismo, a racionalidade e a emotividade, a arte e o engenho. Por isso dizemos que fazemos trapézio numa lâmina de dois gumes, porque apesar de sermos sempre facções opostas, e sabendo que o fio fino da lâmina que divide é intensamente cortante, somos, felizmente, capazes de respeitar as diferenças e, ao invés de querer subjugar o outro à nossa razão, aprender com a pluralidade de opiniões. A lâmina que divide a espada pode rasgar a pele, pode trespassar os tecidos e perfurar o corpo ou pode ser um símbolo. Nós preferimos o símbolo. Os objectos, como as palavras, dependem do uso que lhes dámos.
Desejos

Fui até à janela ver a rua; da paisagem e do que por lá andava, só retive a frase do Lacan: "Não é todos os dias que encontrámos o que foi feito para nos dar a imagem exacta do nosso desejo"
Poemas

Costumo ser extremamente cuidadoso e guardar todas as coisas que escrevo e tenho tudo transcrito para o computador. Mesmo as coisas que acho que não prestam. Já corrigi alguns e já mudei radicalmente outros, afinal todo o mundo é composto de mudança. Hoje descobri um que andava perdido, é sempre um alívio, uma redescoberta (por nunca os ter relido nem me lembrar deles não parecem meus), como vou passá-lo ao computador, aproveito e comparti-lho-o com vocês.

Outrora,
quando os dias respiravam
as serperntes de tão audazes
com os seus imensos venenos
ameaçavam os seres de tão inocentes

Outrora,
quando o amor amava
os seres de tão reais
viviam os dias
cansados de tão arrogante rotina

Outrora,
quando os amantes amavam
as mulheres de tão femininas
faziam os sofrimentos imensos
dos errantes de tão esquecidos
(abril.1990)
Telecomunicações e Relações Humanas

Os Desblogueadores de Conversa perguntam se "as Relações humanas têm beneficiado mais com a tecnologia do que sofrido com esta", dando-nos o seu enfoque no que respeita às telecomunicações. E, confirme-me a Charlotte, tele em grego signifca distância. Ou seja, se esses adventos tecnológicos servem para unir aqueles que a distância separou, a inversa também se aplica. A questão pode ser complexa se analisar-mos o que ela já implicou nas nossas vidas, as dependências que se geram, mas só porque, ao contrário do que Decartes dizia, o bom senso não é a coisa mais bem distriuída deste mundo. Em quase todas as conquistas tecnológicas, o pressuposto é resolver uma nossa (da raça humana) inapditão qualquer ou a resolução de uma qualquer necessidade. De um modo corrente a tecnologia existe para nos facilitar a vida. E, esse facilitar da vida, esse laxismo, transforma muitas das vezes aqueles que estão mais longe (no espaço físico) mais próximos na comodidade do contacto. Será mais fácil, mais variado (outra consequência dos tempos tecnológicos, a necessidade de variar estimulos) falar com pessoas no IRC, no MSN, no ICQ do que telefonar aos amigos, marcar um encontro e termos que desistir do nosso conforto para ir tomar um simples café. A tecnologia ajuda-nos a sermos egoístas, a colmatar as nossas necessidades de forma mais fácil, a estarmos ligados aqueles que amamos quando dantes não o podiamos estar. Mas voltando ao bom senso, não podemos deixar de ter em mente que a tecnologia é só uma extensão do nosso corpo. Há uma vida lá fora....
Não é que as coisas nos passem ao lado; nós é que passámos ao lado das coisas.