Blog de Férias
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Ao final do primeiro mês de actividade o blog vai para férias até à próxima segunda. Durante este mês, conquistamos o nosso objectivo de colocar textos todos os dias. Claro que por vezes recorreu-se a algum arquivo, mas para a maior parte das pessoas era a primeira (ou ultima) leitura. Ficamos agradecidos a todos aqueles que nos têm seleccionado nos seus links e pelos diversos apoios que nos têm manifestado. Dos nossos amigos, infelizmente, só um se dignou a escrever-nos algo (Obrigado Francisco, esforcei-me durante quinze anos para te ouvir dizer que até escrevia qualquer coisita). Parece que quem não nos conhece nos considera mais. Bolas, temos mesmo mau feitio!!
Uma garantia: a espada daqui para a frente tende a ser mais contundente e manteremos o espirito de textos diários, nem que para isso me continue a socorrer das minhas velhas (e novas) histórias e poesias. Para quem gosta. Os outros não passam por cá. Abriremos as hostilidades para falar mal da polícia.
Aos que por cá aparecem: Obrigado!
terça-feira, abril 29, 2003
segunda-feira, abril 28, 2003
A rapariga indizível
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O teu coração é uma pedra que trago eu no meu sapato
é uma ferida que se lamenta quando os bébés choram
o grito parece surdo mas vibra-te a alma como um altifalante
O teu sorriso é uma janela que dá sempre para o mar
é uma laranja do pôr-do-sol que eu posso comer às escuras
o beijo parece simples na equação complexa dos nossos corpos
A noite cai quase sempre quando nos levantamos por fim
é um hábito que ganhamos quando se foi a rotina dos dias
o dia parece começar no fim de qualquer coisa que não nos pertence
Há todas as músicas a tocar em unissono numa só noite infinita
é uma rua que se prolonga no cruzamento das nossas vidas
és a irrealidade dos espaços e só és humana quando sorris
A rapariga indizível caminha amontoada na multidão
o dia, um dia qualquer, em parei para não a acompanhar
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O teu coração é uma pedra que trago eu no meu sapato
é uma ferida que se lamenta quando os bébés choram
o grito parece surdo mas vibra-te a alma como um altifalante
O teu sorriso é uma janela que dá sempre para o mar
é uma laranja do pôr-do-sol que eu posso comer às escuras
o beijo parece simples na equação complexa dos nossos corpos
A noite cai quase sempre quando nos levantamos por fim
é um hábito que ganhamos quando se foi a rotina dos dias
o dia parece começar no fim de qualquer coisa que não nos pertence
Há todas as músicas a tocar em unissono numa só noite infinita
é uma rua que se prolonga no cruzamento das nossas vidas
és a irrealidade dos espaços e só és humana quando sorris
A rapariga indizível caminha amontoada na multidão
o dia, um dia qualquer, em parei para não a acompanhar
domingo, abril 27, 2003
Era eu contigo
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Era como se o mundo, todo ele curvo, se moldasse no canto do meus olhos. E os meus olhos azuis, pintados no reflexo do mar, ao dobrarem-se, fechavam-se na cegueira tingida de uma noite interior. Era no interior do meus olhos que o mundo se juntava, a convergência de pontos dispersos, no mesmo ponto onde eu te fundia com o mundo. Não havia nada para além de nós dois, nós os dois e a natureza, numa união proibida. A natureza do vento que sopra, que sopra sobre o mar, e o mar que fustiga a praia, que espalha a areia num rodopio pelo ar, a areia que por fim nos vem magoar como agulhas. A mesma areia gelada, onde sentados sob as nuvens cinzentas faziamos projecções de um futuro que nunca viria da forma que o viamos. O tempo fazia cócegas na barriga como uma fome de ter-te que nunca fugia da minhas mãos, nas minhas mãos que abraçavam as tuas, tão frias do ar que nos castigava com as suas lâminas de gelo pontiagudas. Era o tempo que se ia, e ia embora com ele o sol, o sol e também a luz que ele nos dava, que nos tingia a pele de um laranja descarregado no fio mais fino do horizonte. O horizonte como pano de fundo de histórias, de sonhos que tu contavas, sonhos que tu vivias comigo ainda nós os dois acordados, ainda adormecidos um no outro, nos braços um do outro onde o conforto do abraço defrontava a natureza e a sua rudeza. Era a pele que escondias, a tua pele que eu escondia com a minha pele, e eu exposto como uma muralha que perdura, lutando apenas com o auxilio do teu conforto, dos teus beijos, fogo de vigilia de noites em claro. Eras tão menina nos meus braços.
Era eu de novo contigo num outro ponto do mundo, eu e tu, meu mundo, sentados numa rocha de pedra fria e redonda, redonda como os teus seios macios e dormentes e muito escondidos na palma carinhosa da minha mão. A minha mão que desenhava uma rota sem destino, percorrendo o teu corpo em silêncio, no silêncio grandioso da montanha reservada para nós. Por vezes o estremecer do teu corpo arrepiava-me, o frio vinha, subia pela pele bronzeada e desaparecia rapimente sem rasto. Eu perseguia a tua pele ainda mais bronzeada, ainda mais quente, ainda mais quente que o sol que se pendurava sobre nós. Fazia-te cócegas que se desprendiam num riso teu, que acordavam os sonhos escondidos debaixo das pedras escaldadas de uma tarde quente de verão. Outras vezes contava-te histórias que te adormeciam, que te embalavam no berço das fantasias, no berço das palavras onde construia mundos mágicos e de sonho. O sonho de te ter em paz, tu dormente nos meus braços dormentes, nós escondidos do mundo, escondidos por detrás da rocha de pedra vigiados pelo sol de um só olho. E eu que pelos meus olhos percorria a escultura do teu corpo, o teu corpo de pele suave, com a suavidade da tua juventude apesar dos dias longos que viviamos misturando a pele um do outro na saliva dos beijos. A tua boca percorria as palavras de mansinho, na mansidão de uma montanha reservada só para nós, fazendo eco das minhas palavras que se sobrepunham às tuas num unissono sibilar, fino e estridente, como o assobiar do vento a atravessar o choupal. Tu atravessavas o meu corpo, o meu corpo atravessa o teu, e ficavamos assim até virem as estrelas render o sol.
Eu era contigo, os dois juntos a banhar os pés no rio de água fresca, a água a escorrer por entre os dedos desnudos, a escorrer o tempo num passatempo de lassidão. Eu sentado sobre a relva verde e humida a atirar pedras redondas, fazendo circulos que se desfaziam na corrente, nos redemoinhos que levavam a nossa vida. Tu deitada no frio e humido desconforto da relva a pensar na nossa vida, a levar os nossos sorrisos na espiral de um descontentamento que não sabiamos onde nascia. Era o silêncio das palavras que se perdia no barulhos dos ramos agitados ao vento, das águas agitadas da cascata, era dos ramos agitados que se desprendiam as folhas, as folhas que formavam um manto de matéria seca, matéria que se desprendia perante os nosso olhos no rodopio do vento que leva o tempo. Era Outono de novo um ano depois, um ano passado na sequência dos tempos, na sequência dos acontecimentos que nunca previmos vir a acontecer. Eram sonhos que se desprendiam das árvores, era a chuva que principiava nas nuvens, que se precipitava no silêncio ferido pelos ramos despidos dos choupos, a chuva que se infiltrava nos olhos, que marcava as faces tal qual o rio marcava a paisagem. O rio levava o tempo na corrente agitada e caia no abismo da cascata transformando-se no vapor onde tudo recomeça. Onde tudo renasce.
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Era como se o mundo, todo ele curvo, se moldasse no canto do meus olhos. E os meus olhos azuis, pintados no reflexo do mar, ao dobrarem-se, fechavam-se na cegueira tingida de uma noite interior. Era no interior do meus olhos que o mundo se juntava, a convergência de pontos dispersos, no mesmo ponto onde eu te fundia com o mundo. Não havia nada para além de nós dois, nós os dois e a natureza, numa união proibida. A natureza do vento que sopra, que sopra sobre o mar, e o mar que fustiga a praia, que espalha a areia num rodopio pelo ar, a areia que por fim nos vem magoar como agulhas. A mesma areia gelada, onde sentados sob as nuvens cinzentas faziamos projecções de um futuro que nunca viria da forma que o viamos. O tempo fazia cócegas na barriga como uma fome de ter-te que nunca fugia da minhas mãos, nas minhas mãos que abraçavam as tuas, tão frias do ar que nos castigava com as suas lâminas de gelo pontiagudas. Era o tempo que se ia, e ia embora com ele o sol, o sol e também a luz que ele nos dava, que nos tingia a pele de um laranja descarregado no fio mais fino do horizonte. O horizonte como pano de fundo de histórias, de sonhos que tu contavas, sonhos que tu vivias comigo ainda nós os dois acordados, ainda adormecidos um no outro, nos braços um do outro onde o conforto do abraço defrontava a natureza e a sua rudeza. Era a pele que escondias, a tua pele que eu escondia com a minha pele, e eu exposto como uma muralha que perdura, lutando apenas com o auxilio do teu conforto, dos teus beijos, fogo de vigilia de noites em claro. Eras tão menina nos meus braços.
Era eu de novo contigo num outro ponto do mundo, eu e tu, meu mundo, sentados numa rocha de pedra fria e redonda, redonda como os teus seios macios e dormentes e muito escondidos na palma carinhosa da minha mão. A minha mão que desenhava uma rota sem destino, percorrendo o teu corpo em silêncio, no silêncio grandioso da montanha reservada para nós. Por vezes o estremecer do teu corpo arrepiava-me, o frio vinha, subia pela pele bronzeada e desaparecia rapimente sem rasto. Eu perseguia a tua pele ainda mais bronzeada, ainda mais quente, ainda mais quente que o sol que se pendurava sobre nós. Fazia-te cócegas que se desprendiam num riso teu, que acordavam os sonhos escondidos debaixo das pedras escaldadas de uma tarde quente de verão. Outras vezes contava-te histórias que te adormeciam, que te embalavam no berço das fantasias, no berço das palavras onde construia mundos mágicos e de sonho. O sonho de te ter em paz, tu dormente nos meus braços dormentes, nós escondidos do mundo, escondidos por detrás da rocha de pedra vigiados pelo sol de um só olho. E eu que pelos meus olhos percorria a escultura do teu corpo, o teu corpo de pele suave, com a suavidade da tua juventude apesar dos dias longos que viviamos misturando a pele um do outro na saliva dos beijos. A tua boca percorria as palavras de mansinho, na mansidão de uma montanha reservada só para nós, fazendo eco das minhas palavras que se sobrepunham às tuas num unissono sibilar, fino e estridente, como o assobiar do vento a atravessar o choupal. Tu atravessavas o meu corpo, o meu corpo atravessa o teu, e ficavamos assim até virem as estrelas render o sol.
Eu era contigo, os dois juntos a banhar os pés no rio de água fresca, a água a escorrer por entre os dedos desnudos, a escorrer o tempo num passatempo de lassidão. Eu sentado sobre a relva verde e humida a atirar pedras redondas, fazendo circulos que se desfaziam na corrente, nos redemoinhos que levavam a nossa vida. Tu deitada no frio e humido desconforto da relva a pensar na nossa vida, a levar os nossos sorrisos na espiral de um descontentamento que não sabiamos onde nascia. Era o silêncio das palavras que se perdia no barulhos dos ramos agitados ao vento, das águas agitadas da cascata, era dos ramos agitados que se desprendiam as folhas, as folhas que formavam um manto de matéria seca, matéria que se desprendia perante os nosso olhos no rodopio do vento que leva o tempo. Era Outono de novo um ano depois, um ano passado na sequência dos tempos, na sequência dos acontecimentos que nunca previmos vir a acontecer. Eram sonhos que se desprendiam das árvores, era a chuva que principiava nas nuvens, que se precipitava no silêncio ferido pelos ramos despidos dos choupos, a chuva que se infiltrava nos olhos, que marcava as faces tal qual o rio marcava a paisagem. O rio levava o tempo na corrente agitada e caia no abismo da cascata transformando-se no vapor onde tudo recomeça. Onde tudo renasce.
sábado, abril 26, 2003
Campo de lírios
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Bilhete azul na mão. Sapatos pretos de atacadores. Roupa branca em pleno Verão. Tu não vinhas. Eu esperava por ti junto à linha de comboio. Aquele bilhete azul na mão, da cor de uma companhia área que não recordo o nome. Estava à espera de fugir, mas primeiro de tudo, à espera de te ver chegar. Não sei se fugiria sem ti. Nem sei se a razão da fuga estava centrada em ti. O Porto era pequeno. Portugal também. Mesmo a tua grande Lisboa era pequena. Foi o que decidimos naquele bar solarengo que dava algures sobre o Tejo. Sabíamos que tínhamos de sair para um sítio onde pudéssemos estar sós, sem nenhuma imagem ridícula do nosso passado, boa ou má, a entrar-nos pelos olhos. O bilhete azul na mão o comboio atrasado, e nós já quase sem tempo de embarcar. Contingências da vida moderna. Não sei porque nos telefonámos a dizer que devíamos fugir, era tudo exageradamente apressado e louco. Nós sem tempo de pensarmos, sem vontade de pensar. Tínhamos tudo para estar juntos, não fosse o Porto e Lisboa serem diferentes e separados por duas ou três horas de viagem. Era só isso que nos incomodava. Não podia sentir o toque das tuas mãos nas minhas sem me dar a vontade de entrelaçar os nossos dedos como cordas e ficar pasmado a olhar o Tejo. O Tejo ou o Douro tanto faz. Ou não foi no Porto, onde o rio se confunde com o mar, que os teus olhos se fundiram nos meus. Onde o teu sorriso se mostrou a contagiar o meu, e os nossos olhos de uma covardia assumida e socialmente incensurável, se desviaram num qualquer ponto do rio sem interesse. A nossa fuga. A nossa eterna fuga. Sempre a despacharmo-nos de um local a outro, inventando um sempre a propósito desconforto físico para elaborar a mentira patética da fuga. E de repente, era agora. Eu de bilhete na mão, o comboio a chegar, uma após outra as carruagens a passarem sem a pressa que a minha ânsia lhes impunha. Eu a ver-te descer, a julgar que era mesmo verdade, estares ali sem medo da fuga. O comboio partiu, tu a sorrires à minha frente e ao fundo, a Gare do Oriente transformada no mais ilusório campo de lírios.
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Bilhete azul na mão. Sapatos pretos de atacadores. Roupa branca em pleno Verão. Tu não vinhas. Eu esperava por ti junto à linha de comboio. Aquele bilhete azul na mão, da cor de uma companhia área que não recordo o nome. Estava à espera de fugir, mas primeiro de tudo, à espera de te ver chegar. Não sei se fugiria sem ti. Nem sei se a razão da fuga estava centrada em ti. O Porto era pequeno. Portugal também. Mesmo a tua grande Lisboa era pequena. Foi o que decidimos naquele bar solarengo que dava algures sobre o Tejo. Sabíamos que tínhamos de sair para um sítio onde pudéssemos estar sós, sem nenhuma imagem ridícula do nosso passado, boa ou má, a entrar-nos pelos olhos. O bilhete azul na mão o comboio atrasado, e nós já quase sem tempo de embarcar. Contingências da vida moderna. Não sei porque nos telefonámos a dizer que devíamos fugir, era tudo exageradamente apressado e louco. Nós sem tempo de pensarmos, sem vontade de pensar. Tínhamos tudo para estar juntos, não fosse o Porto e Lisboa serem diferentes e separados por duas ou três horas de viagem. Era só isso que nos incomodava. Não podia sentir o toque das tuas mãos nas minhas sem me dar a vontade de entrelaçar os nossos dedos como cordas e ficar pasmado a olhar o Tejo. O Tejo ou o Douro tanto faz. Ou não foi no Porto, onde o rio se confunde com o mar, que os teus olhos se fundiram nos meus. Onde o teu sorriso se mostrou a contagiar o meu, e os nossos olhos de uma covardia assumida e socialmente incensurável, se desviaram num qualquer ponto do rio sem interesse. A nossa fuga. A nossa eterna fuga. Sempre a despacharmo-nos de um local a outro, inventando um sempre a propósito desconforto físico para elaborar a mentira patética da fuga. E de repente, era agora. Eu de bilhete na mão, o comboio a chegar, uma após outra as carruagens a passarem sem a pressa que a minha ânsia lhes impunha. Eu a ver-te descer, a julgar que era mesmo verdade, estares ali sem medo da fuga. O comboio partiu, tu a sorrires à minha frente e ao fundo, a Gare do Oriente transformada no mais ilusório campo de lírios.
faz tempo que procuro sangue novo na lua
todos as manhãs o sol nasce nas palavras
mas raros os dias em que as nuvens sonham
agrada-me que o tempo na tua face corra
fechado na ampulheta de vidro esfumado
o tempo arrasta-se na baba do caracol
não sabe nada do que está para trás
o passado é apenas pedra
a ser desfeita na mó do teu coração
sexta-feira, abril 25, 2003
Dá-me a tua Liberdade
Tinha no ventre uma emoção que a fazia julgar estar grávida. A emoção transformou-se em desejo e a barriga cresceu mesmo. Não engordara. Comia pouco, às vezes exagerava na bebida. Bebia muito menos do que eu. Dançava em casa, com os estores da sala levantados para que os vizinhos nos vissem. Danças eróticas. Nunca ousou despir-se enquanto dançava. Não pelo pudor que sentia com os vizinhos a olhar. Mas por mim. Tinha de apagar sempre a luz sempre que oferecia o seu corpo nu. Tinha nascido no dia 25 de Abril de 1974 e achava que a liberdade lhe pertencia. Não fosse o pudor atravessar-lhe o pensamento. Coloquei estores até na cozinha e na pequena janela da sala de banho. Nas noites quentes de Verão recolhiamo-nos na penumbra de minha casa, descarregávamos os corpos do peso da roupa, faziámos piqueniques na sala e embebedavamo-nos sem querer. Oferecia-te carregamentos de pétalas que a minha amiga florista me arranjava em troca de alguns favores inconfessáveis. Um dia adormeci-te uma flor no ventre, uma semente para a tua imaginação.
Tinha no ventre uma emoção que a fazia julgar estar grávida. A emoção transformou-se em desejo e a barriga cresceu mesmo. Não engordara. Comia pouco, às vezes exagerava na bebida. Bebia muito menos do que eu. Dançava em casa, com os estores da sala levantados para que os vizinhos nos vissem. Danças eróticas. Nunca ousou despir-se enquanto dançava. Não pelo pudor que sentia com os vizinhos a olhar. Mas por mim. Tinha de apagar sempre a luz sempre que oferecia o seu corpo nu. Tinha nascido no dia 25 de Abril de 1974 e achava que a liberdade lhe pertencia. Não fosse o pudor atravessar-lhe o pensamento. Coloquei estores até na cozinha e na pequena janela da sala de banho. Nas noites quentes de Verão recolhiamo-nos na penumbra de minha casa, descarregávamos os corpos do peso da roupa, faziámos piqueniques na sala e embebedavamo-nos sem querer. Oferecia-te carregamentos de pétalas que a minha amiga florista me arranjava em troca de alguns favores inconfessáveis. Um dia adormeci-te uma flor no ventre, uma semente para a tua imaginação.
quinta-feira, abril 24, 2003
::Volto já
A história repete-se. Dizes tu. Qual história? Está bem, tentamos outra vez.
Não fujas, não tenhas medo. Da primeira vez não doeu. Se doeu já nem te lembras. Está bem, eu dou-te a mão. Não me olhes com essa cara. Anda lá, faz-te grande. Isso, tu és forte. Da outra vez aguentaste. Não te assustes com a aparência das coisas. Pensa que tudo são brinquedos. Deita-te sossegada, eu estou ao teu lado. Sim, dou-te a mão. Ninguém te vai fazer mal. Eu não deixo. Não, não vai acontecer como da outra vez. Sim, prometo. Nunca cumpro o que prometo? Que memória a tua. Foi só da outra vez. Teve de ser. Vês? Desta vez até estamos de mão dada. Espera. É o telefone. Tenho de atender. É importante, é do trabalho. Claro que venho já. Tu já sabias? Anda lá, faz-te forte. Não tenhas medo, o Sr. dentista tem uma filha bonita como tu. Não fiques triste, eu volto já.
A história repete-se. Dizes tu. Qual história? Está bem, tentamos outra vez.
Não fujas, não tenhas medo. Da primeira vez não doeu. Se doeu já nem te lembras. Está bem, eu dou-te a mão. Não me olhes com essa cara. Anda lá, faz-te grande. Isso, tu és forte. Da outra vez aguentaste. Não te assustes com a aparência das coisas. Pensa que tudo são brinquedos. Deita-te sossegada, eu estou ao teu lado. Sim, dou-te a mão. Ninguém te vai fazer mal. Eu não deixo. Não, não vai acontecer como da outra vez. Sim, prometo. Nunca cumpro o que prometo? Que memória a tua. Foi só da outra vez. Teve de ser. Vês? Desta vez até estamos de mão dada. Espera. É o telefone. Tenho de atender. É importante, é do trabalho. Claro que venho já. Tu já sabias? Anda lá, faz-te forte. Não tenhas medo, o Sr. dentista tem uma filha bonita como tu. Não fiques triste, eu volto já.
::O bilhete
Se eu tivesse tempo contava-te uma história. Sim, uma história bonita como tu. Agradecia o beijo de mel que me deste. Obrigado por me teres dado umas prendas tão bonitas. Escusas de me devolver o dinheiro que deixei em cima da mesa da sala de estar, é para dividir as despesas do jantar. Como tu cozinhas bem. Não me telefones para o escritório, o meu patrão não gosta. Em minha casa não deixes mensagens no gravador. Amanhã mando-te umas rosas a agradecer. Foi um dia muito agradável. Ficas muito bem a dormir. Assim tão sossegada como um anjo. Não me procures, se quiseres esperar que te procure é contigo. Não chores, não vale a pena. Nem sequer deves ficar bonita a chorar. Algumas raparigas é que ficam. Tu não. Prometo telefonar-te nos teus anos. Sim, eu sei, ainda falta muito. De qualquer maneira não nos faz bem encontrarmo-nos. A última coisa que eu queria era acordar-te. Ficas mesmo bonita a dormir. Tenho de ir. Não posso ficar a dormir contigo, os meus filhos não iam gostar. A minha mulher muito menos. Chama-me todos os nomes feios que te lembrares, mesmo todos. Mas não fiques com má impressão de mim. Agora é que é. Tenho de ir. Não prometo voltar. Já sei que não me vais querer ver. És tão bonita que eu não podia recusar. Nem devia. O que é isso de amar? Eu não sei. Tu sabes? Não consigo parar de escrever. Já é tarde. Tenho mesmo de ir. Adeus.
Se eu tivesse tempo contava-te uma história. Sim, uma história bonita como tu. Agradecia o beijo de mel que me deste. Obrigado por me teres dado umas prendas tão bonitas. Escusas de me devolver o dinheiro que deixei em cima da mesa da sala de estar, é para dividir as despesas do jantar. Como tu cozinhas bem. Não me telefones para o escritório, o meu patrão não gosta. Em minha casa não deixes mensagens no gravador. Amanhã mando-te umas rosas a agradecer. Foi um dia muito agradável. Ficas muito bem a dormir. Assim tão sossegada como um anjo. Não me procures, se quiseres esperar que te procure é contigo. Não chores, não vale a pena. Nem sequer deves ficar bonita a chorar. Algumas raparigas é que ficam. Tu não. Prometo telefonar-te nos teus anos. Sim, eu sei, ainda falta muito. De qualquer maneira não nos faz bem encontrarmo-nos. A última coisa que eu queria era acordar-te. Ficas mesmo bonita a dormir. Tenho de ir. Não posso ficar a dormir contigo, os meus filhos não iam gostar. A minha mulher muito menos. Chama-me todos os nomes feios que te lembrares, mesmo todos. Mas não fiques com má impressão de mim. Agora é que é. Tenho de ir. Não prometo voltar. Já sei que não me vais querer ver. És tão bonita que eu não podia recusar. Nem devia. O que é isso de amar? Eu não sei. Tu sabes? Não consigo parar de escrever. Já é tarde. Tenho mesmo de ir. Adeus.
quarta-feira, abril 23, 2003
Ao Sr. José Mário Silva: que parece confundir que o cinema é o veiculo da mensagem e não a mensagem em si. Tecnicamente é um excelente filme. A mensagem é subjectiva e depende da análise e ponto de vista de cada um. E, assim o define a história, os grandes estudiosos do cinema teórico foram uns senhores chamados Pudovkin e Eisenstein pagos pelo aparelho Estalinista para a utilização do cinema como meio de propraganda. Felizmente, um americano fascista chamado D. W. Griffith aplicou-lhes a teoria à pratica do cinema como entretenimento. O cinema tem de ser politico? Aonde fica a tão de esquerda, e grata, ideia da "Arte pela Arte"? O divertimento é fascista? Ou a Esquerda já está Catolica e avessa aos prazeres do corpo?
vide comentários ao filme Irreversível no blog Espigas ao Vento
Um pequeno aparte
Em recente discussão com a minha irmã, mencionei que existem músicas que poderão ter a equivalência visual em :
- música às bolas,
- música intermitente,
- música aos zig-zags,
- música às riscas
Claro que comecei de imediato a discorrer sobre o assunto, e sobre a hipótese da possível ligação das supra categorias a uma classificação cromática...
Enfim, se acharem uma ligação, por favor não se acanhem e contribuam com as vossas opiniões!
Em recente discussão com a minha irmã, mencionei que existem músicas que poderão ter a equivalência visual em :
- música às bolas,
- música intermitente,
- música aos zig-zags,
- música às riscas
Claro que comecei de imediato a discorrer sobre o assunto, e sobre a hipótese da possível ligação das supra categorias a uma classificação cromática...
Enfim, se acharem uma ligação, por favor não se acanhem e contribuam com as vossas opiniões!
E agora...
Viva! Viva! Está quase a chegar a hora (sim, a partir de amanhã só muito dificilmente postarei nos próximos 15 dias).
Mas creio que deverá ser uma alivio para quem vem a este blog (eu sei que a prosa e poesia do colega é bem mais interassante que a minha)!!
Não interessa, estou feliz.
Nem a lembrança do Carlos Fino ontem a dizer à Júdite Sousa que admira muito os americanos (?) me conseguirá deixar perplexa.
Estou zen. (acho que é aquele estado de graça em que se encontra a maior parte dos adeptos da esquerda quando se abstraiem dos horrores que ainda perpetuam mundo fora...).
Pode ser que na minha ausência se lembrem de fazer uma lei para os partidos politicos de jeito (a lei actual e a proposta deixam muito a desejar- não se pode querer autonomia e pretender ser finaciado pelo Estado!, os regulamentos internos deverão ser estipolados pelos próprios, mas deverá existir um base reguladora para que se possam consagrar os verdadeiros ideais e não tornar o aparelho e, consequentemente a visão do comum cidadão, de uma instituição criada para albergar confrarias).
Mas muito mais se dirá sobre o assunto.
Entretanto fiquem com a certeza de que tentarei ao máximo não me lembrar de assuntos mínimamente ligados à politica (até porque vou para uma zona geo-estratégica adversa).
Hasta la vista folks!
Viva! Viva! Está quase a chegar a hora (sim, a partir de amanhã só muito dificilmente postarei nos próximos 15 dias).
Mas creio que deverá ser uma alivio para quem vem a este blog (eu sei que a prosa e poesia do colega é bem mais interassante que a minha)!!
Não interessa, estou feliz.
Nem a lembrança do Carlos Fino ontem a dizer à Júdite Sousa que admira muito os americanos (?) me conseguirá deixar perplexa.
Estou zen. (acho que é aquele estado de graça em que se encontra a maior parte dos adeptos da esquerda quando se abstraiem dos horrores que ainda perpetuam mundo fora...).
Pode ser que na minha ausência se lembrem de fazer uma lei para os partidos politicos de jeito (a lei actual e a proposta deixam muito a desejar- não se pode querer autonomia e pretender ser finaciado pelo Estado!, os regulamentos internos deverão ser estipolados pelos próprios, mas deverá existir um base reguladora para que se possam consagrar os verdadeiros ideais e não tornar o aparelho e, consequentemente a visão do comum cidadão, de uma instituição criada para albergar confrarias).
Mas muito mais se dirá sobre o assunto.
Entretanto fiquem com a certeza de que tentarei ao máximo não me lembrar de assuntos mínimamente ligados à politica (até porque vou para uma zona geo-estratégica adversa).
Hasta la vista folks!
terça-feira, abril 22, 2003
"FLECOS"
Já falta menos tempo!!! Ainda estou na letargia de viver um sonho irreal!
Os vestidos já sairam do armário, já estão limpos e arejados (as bolinhas vivem nos movimentos cadeados da pose que o baile requer)- "hay que tener mucha calor y pasión para saber bailar de verdad".
Do flamengo à sugerente sevillana espero ter capacidade e folgo para tanto!
Estou a fazer uma enorme reserva de energia para os dias pentálticos que me esperam... Vou uns dias mais cedo para ter o descanço merecido antes das "provas".
Não me posso esquecer das flores para colocar no cabelo (apesar de este ser um adereço muito lá da casa, desde sempre).
O problema com maior dificuldade de resolução será a dos sapatos (vão ser dias inteiros passados em amena cavaqueira a dançar), mas logo se verá.
Lembrei-me agora que esta será mais uma "fiesta" a que irei, tenho excelentes recordações das largadas em Pamplona - fiestas de Sanfermín- (não, não sou a favor da crueldade animal, acho que até só vi os touros passarem uma vez e nunca fui a uma tourada; mas o que interessa é todo o clima que se vive em redor! Devo acrescentar que qualquer alma que preze a humanidade deve ir uma vez na vida até aos Sanfermines - são de 7 a 14 de Julho e não devem perder o Chupinazo que é a abertura das festas no dia 6!).
Hoje estou mesmo muito mundana.
Já falta menos tempo!!! Ainda estou na letargia de viver um sonho irreal!
Os vestidos já sairam do armário, já estão limpos e arejados (as bolinhas vivem nos movimentos cadeados da pose que o baile requer)- "hay que tener mucha calor y pasión para saber bailar de verdad".
Do flamengo à sugerente sevillana espero ter capacidade e folgo para tanto!
Estou a fazer uma enorme reserva de energia para os dias pentálticos que me esperam... Vou uns dias mais cedo para ter o descanço merecido antes das "provas".
Não me posso esquecer das flores para colocar no cabelo (apesar de este ser um adereço muito lá da casa, desde sempre).
O problema com maior dificuldade de resolução será a dos sapatos (vão ser dias inteiros passados em amena cavaqueira a dançar), mas logo se verá.
Lembrei-me agora que esta será mais uma "fiesta" a que irei, tenho excelentes recordações das largadas em Pamplona - fiestas de Sanfermín- (não, não sou a favor da crueldade animal, acho que até só vi os touros passarem uma vez e nunca fui a uma tourada; mas o que interessa é todo o clima que se vive em redor! Devo acrescentar que qualquer alma que preze a humanidade deve ir uma vez na vida até aos Sanfermines - são de 7 a 14 de Julho e não devem perder o Chupinazo que é a abertura das festas no dia 6!).
Hoje estou mesmo muito mundana.
::O homem do outro lado da rua
O homem do outro lado da rua, não conhece o alfabeto. Não sabe colar as letras e formar uma palavra. O homem do outro lado da rua não sabe nada da cultura, o seu sonho não é esse. Não é querer saber. Nem tão pouco se importa. A sua vida é estreita. Tem pouco por onde se alargar. No entanto, sabe sonhar. Sabe porque já o experimentou. O homem do outro lado da rua tem sempre um sorriso nos lábios. Ainda não experimentou a revolta. Ainda não experimentou a raiva. Nunca soube o que foi perder. A vida nunca teve nada para lhe tirar. O seu mundo é pobre. E tão rico. O seu mundo, o mundo do homem do outro lado da vida, é só experiência. Experiência sem experiência da razão. Tudo para ele tem uma essência divina, metafísica. O homem do outro lado da rua nunca experimentou a raiva. Tudo o que na sua vida foi mau, foi-o apenas por ser. Nunca questionou esse tributo. Aceitou-o sempre como um ser inferior. Ele tem a força invisível da cegueira. Da cegueira de não saber colar as letras umas às outras. O poder enorme de não se interrogar.
O homem do outro lado da rua, não conhece o alfabeto. Não sabe colar as letras e formar uma palavra. O homem do outro lado da rua não sabe nada da cultura, o seu sonho não é esse. Não é querer saber. Nem tão pouco se importa. A sua vida é estreita. Tem pouco por onde se alargar. No entanto, sabe sonhar. Sabe porque já o experimentou. O homem do outro lado da rua tem sempre um sorriso nos lábios. Ainda não experimentou a revolta. Ainda não experimentou a raiva. Nunca soube o que foi perder. A vida nunca teve nada para lhe tirar. O seu mundo é pobre. E tão rico. O seu mundo, o mundo do homem do outro lado da vida, é só experiência. Experiência sem experiência da razão. Tudo para ele tem uma essência divina, metafísica. O homem do outro lado da rua nunca experimentou a raiva. Tudo o que na sua vida foi mau, foi-o apenas por ser. Nunca questionou esse tributo. Aceitou-o sempre como um ser inferior. Ele tem a força invisível da cegueira. Da cegueira de não saber colar as letras umas às outras. O poder enorme de não se interrogar.
segunda-feira, abril 21, 2003
> Crónicas mundanas II
"As pessoas têm medo de se envolver nas auto-estradas de L.A.". Assim começa o clássico romance de Bret Easton Ellis "Menos que zero". Deste título nasceu um bar com alguma história na noite portuense. Está de volta. Depois de se ter metamorfoseado em "Urbansound" e de algum tempo de eclipse. Uma nova aposta numa fórmula musical até agora só experimentada no extinto :( Bassment: a do Electroclash. Música de dança alternativa para fugir ao mainstream. Não tenha medo de se envolver e de experimentar novas sonoridades.
"As pessoas têm medo de se envolver nas auto-estradas de L.A.". Assim começa o clássico romance de Bret Easton Ellis "Menos que zero". Deste título nasceu um bar com alguma história na noite portuense. Está de volta. Depois de se ter metamorfoseado em "Urbansound" e de algum tempo de eclipse. Uma nova aposta numa fórmula musical até agora só experimentada no extinto :( Bassment: a do Electroclash. Música de dança alternativa para fugir ao mainstream. Não tenha medo de se envolver e de experimentar novas sonoridades.
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